Divagações sobre o dia 8

Divagando sobre o dia 8

Escrever sobre o Dia da Mulher é sempre complicado. Tentei fugir, mas a data exige e todo ano tenho que escolher entre ser simpática ou sincera. E vocês me conhecem…

Primeiro, disfarço o quanto essas homenagens me soam estranhas. Falam das realizações femininas como se a grande surpresa fosse uma mulher realizar algo realmente importante – ou difícil. Uma m-u-l-h-e-r pilotando um Boeing! Cursando nano-tecnologia! Transplantando corações! E por que não? Isso já devia ter acabado, mas nessas datas, quem fez algo mais “difícil”, é tratada como um índio que cursou Harvard. Ambos, raridades. Pode?

Semana passada discutiram o “empoderamento” da mulher. Hã? É como chamam “ganho de poder”, dá para acreditar? É tão estranho, assim, mulheres dividindo o comando com homens?

( Eu deveria estar fazendo stand-up. Fazer graça não é difícil, o problema é ficar em pé!)

Melhor também fingir que não se debate mais a velha questão da igualdade. Francamente, o que mulheres precisam é de igualdade salarial e que sejam respeitadas as diferenças, isso sim.

Somos diferentes, em tudo e por tudo, lutar por igualdade entre os gêneros pode ser uma estratégia bem desfavorável.

Lembro quando tentei organizar a comemoração de um 8 de março há muitos,  e resolvi ouvir algumas do grupo. A maioria esperava outra coisa, que não a rosa dos anos anteriores. Muitas queriam ouvir e ser ouvidas.

Um ombro amigo. O século era outro, as conquistas aconteciam aos poucos, mas eram determinantes. (Lembra como eram espancadas – e mortas – sem que muito acontecesse aos criminosos?) E continuavam sentindo-se sós!

Atualmente, em briga de marido e mulher qualquer um mete a colher; não denunciar também é crime, sabia? Maria da Penha fez história.

Vítimas de violência quase sempre são agredidas por homens com quem deveriam construir um lar; é muito triste. Homens que não aceitam terminar a relação, mas são capazes de deixar os filhos para trás, sem nenhuma ajuda.

Daqui uns dias, será lançado mais um recurso para manter potenciais vítimas em segurança: o botão do pânico. Ao ser acionado, a polícia entrará em ação. Fantástico! Quantas mulheres poderão ser salvas do destino infame de morrer por não aceitarem a humilhação, a surra, a agressão moral e física?

É disso que mulheres reais, que tomam ônibus, fazem feira, criam filhos – seus e dos outros-, trabalham em casa e fora dela, precisam.

Precisam que Câmaras e Assembleias façam um pouco mais que Sessões Especiais e exijam que se cumpra a Lei da Creche. Quem tem falado nesse direito?

O que as mulheres querem, de fato? De vez em quando me pergunto isso. Penso que o colant de heroína já não me fica tão bem e que talvez seja bom pensar um pouco – só um pouco – mais em mim. (Será que sou só eu?)

Já não quero enfrentar batalhas que não valham a pena e, francamente, entre uma daquelas discussões sérias (e inúteis) e um belo risoto, escolho o segundo. Já não me interessam projetos que me sugam e acabam em nada; faz-me muito mal avaliar quanto tempo se perde com questões sem nenhuma importância. Talvez isso seja comum em mulheres de meia idade; ou idade e meia, como eu. (Mas também comemoramos a data, não é mesmo?)

Por fim, torço que as guerreiras, determinadas, e tantos outros adjetivos utilizados sem parcimônia nesse mês de março, não esqueçam que suas fiéis escudeiras são mulheres – ainda que nem sempre se deem conta disso.  São as mulheres com quem dividimos a intimidade dos nossos lares e vidas.

Nossas empregadas também menstruam e têm cólicas, muito mais problemas que todas nós juntas e, na grande maioria, além de suportar nossas famílias, quando chegam na própria casa, o que encontram pode ser assustador.

Foi Dia da Mulher para elas, também. Será que alguém lembrou?

(Talvez eu devesse tentar a comédia novamente…)

De outros carnavais

Outros carnavais

 

Diziam que era saudosista. A verdade é que todo paraense padece de saudade, em especial de si mesmo.

No meio da conversa, um amigo lembrou-lhe lugares que marcaram época: Troglodita, Papa Jimmy, Stop, Moenda e Acropol; Gemini, Tonga, Aquárius e sabe-se lá por onde mais passeavam as recordações de um tempo que insistiam, em não esquecer. Éram mais bonitos, saudáveis, sonhadores, apaixonados e poderosos. Podiam  tu-do – ou quase; o que, convenhamos, já era muito! E o carnaval?

Para minha surpresa, nas redes sociais algumas pessoas – mulheres na maioria – tentam tirar Momo do estado comatoso que o abateu, desde que os foliões foram escaldar-se nas areias do Sal – mais interessantes que as do Sahara, acho eu. A-la-la-ô-o-ô!

Amores de carnaval, quem não lembra?

Ele lembrava. E como!

Fechou os olhos fingindo cochilar, tentando driblar o olhar da esposa que, como scanner, não deixava passar a mais recôndita emoção.

Precisou conter o sorriso que aquelas lembranças trouxeram.

Ele saía em alguns blocos – inesquecíveis – e, se tivesse namorada “séria”, tratava de terminar duas semanas antes, para evitar “problemas”. Ciúmes, se é que me entende. O pior era quando ela resolvia sair também… Vila Farah, Bandalheira, Grande Família. Olhou a praia lotada e pensou que preferia estar na Presidente Vargas. Sentiu uma enorme saudade daquele tempo tão bom, em que amor era indolor e nova paixão se curava junto com a ressaca, com dois Engovs e um tacacá no Renasci. Ninguém precisava de terapia nem antidepressivos.

Ser feliz era muito simples.

Com sorte, o que acontecia no Carnaval (Ou em Salinas…) ficava lá mesmo. Quase como em Las Vegas. Quase…

Sentiu saudade do Opala com descarga livre, do rolê dominical na Praça do Pescador, com direito a Topless da morena na garupa da moto.

Ah, desculpe; você tem menos de quarenta? Pena, perdeu a época em que Belém era a cidade das Mangueiras, anterior a Idade dos Buracos, que deu origem à dos Camelôs, que deu origem… Bem, mas falávamos de que, mesmo?

Ah, os amores de carnaval que, reza a lenda, terminavam ao fim de cada festa.

O bom é que nem a nova paquera fazia questão que ele ligasse, não antes da quarta-feira, quando tudo voltava ao normal, inclusive papai e mamãe. Carnaval era para brincar, mesmo.

Quando a química era boa, o novo namoro durava e, com ajuda divina, poderia até sobreviver às férias de julho, quando o sol nos faria capazes de outras tantas sandices.

Acredite, sua mãe já usou coca-cola, óleo de aviação, colorau e até dendê para bronzear; teve segundas intenções com alguns dos rotundos e respeitáveis senhores que, naquele tempo, fariam você tremer nas bases, menina!

Câncer de pele não tinha assessoria de marketing, sexo seguro era manter os pais bem longe, os biquínis tinham que combinar com os tamanquinhos e todo mundo tinha conta no picolezeiro.

Muitos namoros “firmes” terminavam convenientemente na última semana de junho, quando o galã partia para Salinas. Se “aprontasse” todas, em  agosto talvez assumisse um noivado ultra rápido, com casório e lágrimas marcadas para até, no máximo, setembro. A noiva? A namoradinha de julho, claro! Tempos bons.

Ele lembrou que laguinho da coca-cola era quase desconhecido (pelo menos os pais não frequentavam) e o Farol Velho, seguro como uma pousada com teto-solar.

Nosso saudosista remexeu-se, enquanto lembrava de uma das jovens mais bonitas daqueles tempos, colega do Denis Cavalcante e que até inspirara uma crônica recentemente. Olhar cheio de promessas… O tempo, às vezes, é muito mau, mesmo.

- Amor… O que você está pensando? (O scanner…)

-Nada… Estava cochilando, respondeu, com ares de quem havia cometido alguma transgressão. Aquietou-se, olhando o mar.

Certas coisas é melhor não comentar. Só com uma amiga cronista.

Buraco negro ( ô gente sem noção!)

Buraco negro

Lembro da minha juventude, quando levantávamos nos ônibus para “dar o lugar” para idosos e gestantes, satisfeitos com próprio gesto. Também esperávamos as pessoas desembarcarem do elevador para poder entrar e, nas ruas, era raro ver lixo jogado de qualquer maneira. Era uma época em que os moradores cuidavam das calçadas, que eram varridas, numa boa.

O que aconteceu com nossos bons modos?

Quando se fala desses problemas daqui, tem quem ache que é implicância gratuita e logo lembre que em outro lugar qualquer,  é muito pior. E daí? Alivia alguma coisa, saber que em algum lugar no Maranhão ou São Paulo,  a coisa está pior ? Não, é o que venho dizendo.

O problema não é a administração pública, meu caro. Temos visto o esforço para manter a cidade limpa, drenar canais e capinar calçadas. Alguém podia me explicar o que custa manter a própria porta livre de mato ou sujeira?

Por que se joga tudo no canal? Fico irada com esse tipo de coisa.

Sei que já falei nisso outro dia, mas tema é muito sério. Vivemos uma crise de educação – e não estou falando de Enem.

Aquelas noções de civilidade, bons modos e boas práticas sanitárias que, até alguns anos, eram passadas de pai para filho e que, por conta da degradação, se perderam completamente.

Fico imaginando o que passa a PM, no 190, ouvindo casos que, com um mínimo de civilidade, não aconteceriam. É o infeliz que coloca 8 caixas de som na calçada no sábado, e resolve ouvir até a madrugada de segunda. Não passa pela cabeça do sujeito, que está negando o direito básico ao sono, que todo ser humano deveria ter? Não passa.

É o outro complexado (Só Freud explica!) que vai para Salinas e abre o capô para infernizar os demais com música ruim em altíssimo volume. Ele senta e aprecia a paisagem com expressão inequívoca de prazer. Prazer de incomodar. Você já viu algo assim?

Pois é. Numa grande loja de materiais de construção não havia um só gancho no banheiro, para pendurar a bolsa. Chata como sou, é claro que reclamei. E ouvi o responsável dizer que, primeiro usavam os cromados e, atualmente, optaram pelos bem baratinhos – que não duram uma semana pois são roubados. Acredite, algumas mulheres levam chave de fenda na bolsa, para afanar um objeto que custa R$2,90. Pode?

Na festa de quinze anos de uma celebrete local, coleguinhas (deve ser inveja, ô raça!) entupiram dois sanitários do clube com as toalhas bordadas (inveja! Inveja!) e dois rolos de papel higiênico. De quebra, destruíram a cesta de comodidades que a mãe da aniversariante havia deixado no ambiente, picharam o interior das cabines com batom, levaram o kit primeiros socorros, absorventes e tudo mais. Só sobrou a cesta.

Num restaurante, o Milk Shake vem num copo descartável. É que aqueles copos pesados são roubados por jovem com bolsas grandes. Elas levam saquinho plástico para “dar a Elza” no objeto.

Honestidade é convicção pessoal, mas o vandalismo é algo que vem surgindo sempre, independente da classe social. Que raiva é essa, que leva gente “normal” a destruir e roubar bens alheios? É pior que inveja – eu não quero o que você tem, não quero é que você tenha!

Só existe uma chance desse estado de calamidade não aumentar… As instituições – públicas e privadas – precisam, muito, se unir para resgatar esse “buraco negro” da nossa formação. Precisamos de aulas de “recuperação”.

Deveríamos investir verbas de propaganda em peças publicitárias que tentassem ensinar “a coisa certa”; nas escolas, deveriam alfabetizar crianças com frases com conteúdo, quem sabe entendessem que Ivo viu a uva e não pegou porque pertencia à outra pessoa. Cada aluno deveria ter responsabilidade sobre a própria carteira, divida com os de outros turnos. Quebrou? Conserte. Riscou? Pinte.  Em vez de multar, ensinar; em vez de dar, negociar.

Sei que temos especialistas que resolveriam a questão, rapidinho. Será que ainda temos alguma chance?

 

Uma crônica derretendo …

Uma crônica derretendo

O Rio de Janeiro é uma crônica perfeita, em constante mutação de cores e paisagens – o que torna tudo muito mais interessante.

De amores pelo Rio, vocês estão cheios, não é mesmo? A Cidade Maravilhosa é quase uma unanimidade entre nós, que sempre invejamos – inveja branca, claro – as praias, as calçadas por onde a gente pode caminhar como verdadeiros cariocas, os bares aonde pessoas comemoram apenas mais um dia bonito; os pés libertos dos saltos e cadarços, respirando em sandálias de dedo… Aqui sou simplesmente mais um vestidão florido, um chapéu de abas largas, um par de havaianas coloridas e um quê de me achar quase nativa.

Sou e faço tudo que não seria ou faria em Belém. Estar no Rio é uma alforria, um descanso para alma.

Tudo nos seduz. Os teatros, a programação cultural, os restaurantes  (como se come bem, Jesus!),  tudo atrai, mas não é só isso. A cada vez que chegamos, encontramos um novo Rio, talvez porque não somos os mesmos a desembarcar no Tom Jobim. Ficamos, até, mais tolerantes  - e perdoamos os enormes problemas que a cidade enfrenta, afinal, estamos num dos destinos mais desejados no planeta!

Na verdade, creio que gostamos de como o Rio nos transforma em pessoas mais leves, menos sisudas, capazes de apreciar pequenos detalhes que, “em casa”, passariam despercebidos… Uma planta bem cuidada numa janela perdida, uma linda senhora de cabelos negros e olhos azuis saindo para passear com seu andador e sorriso iluminando o fim de tarde.

E o principal: o Cristo, lá no alto, com um fundo digno de Yves Klein, parece tocar o céu. A praia de Ipanema, onde não cabe mais ninguém e cada palmo de areia já tem seu dono, pelo menos até o meio da tarde… (Desde quando carioca tem hora ou dia para praia?) Um cachorro se livra da coleira e corre sozinho de volta ao prédio, provavelmente queimando as patinhas na pedra que, às 13, está quente feito chapa de padaria.

Pois é. A questão é que, dessa vez, o calor está tão intenso, mas tão intenso, que acho que é demais até para pegar uma praia. Prefiro caminhar rente às paredes, pegando carona numa nesga de sombra que as marquises conseguem deixar. O Rio ferve, minha crônica derrete; tudo que consigo é pensar em suco, água, água de coco, gelo e ar-condicionado. Senhor, meu reino por um ar geladinho secando a nuca ensopada!

Três dias, com um visto para os “esteites” no meio, não sobrou muito para tanto que sempre quero fazer no Rio de Janeiro, num sábado. Faltou dia no meu final de semana!

Falando nos americanos, vamos comentar uma coisinha… Por mais que a gente critique, o processo é uma baita aula de organização e planejamento. Não me levem a mal, mas se fosse numa instituição brasileira, imagino que, no final do expediente, uma jovem com calças lacradas a vácuo, mascando chicletes e falando ao celular, iria informar que não deu tempo para atender “todo mundo” e distribuiria senhas anotadas com caneta Bic , para voltarmos no dia seguinte.

Posso estar exagerando (Ah, sou uma exagerada, mesmo!) mas quem conhece o processo, sabe o que estou elogiando. Anotei tudo, quem sabe um dia eu preciso em algum evento? Nunca se sabe.

Será que enlouqueci de vez, sob este sol inclemente que resolveu deixar meus miolos “bem passados”?

Talvez. Enquanto isso, esqueço o resto e aproveito o roteiro da gastronomia. (Dou as dicas !)  Nada como comida deliciosa, numa temperatura próxima aos 23 graus, que é a ideal para a gente ser feliz!   Aff! Mas que calor!

Entro numa galeria para filar o ar-condicionado. Reclamo e uma vendedora quer saber a razão. Respondo, toda exibida… “É que não estou acostumada… Na minha terra nunca faz tanto calor.”

E eu posso? Te mete! Mas que calor, meu Deus! Que calor!

 

De olhos bem fechados

A vida secreta de Wanda

Ela deitou de lado e ajeitou o pequeno travesseiro, com o lençol deixando os pés descobertos. Fechou os olhos para ver-se melhor, no espelho que ficava numa sala onde jamais estivera. Estava linda, com o vestido de malha deslizando sobre o corpo cheio de curvas, sem faltar ou sobrar uma polegada.

Caminhava com charme, mexendo os quadris em um ritmo cadenciado. Malemolente.  Adorava essa palavra.

Wanda tem um segredo guardado num sótão onde ninguém tem acesso – nem mesmo o terapeuta canastrão que visita vez por outra.

A funcionária padrão, que breve vai ganhar sua “licença prêmio”, tem uma vida dupla. E isso já faz muito tempo, muito antes de Ben Stiller fazer sucesso no filme que motiva filas nos shoppings.

Filme. Grande coisa. Ela já sabia como é possível se libertar da realidade quando esse moleque estava estreando… Bastava fechar os olhos.

De olhos fechados não via a sala acanhada, as paredes encardidas rescendendo a mofo e descaso. Não via o olhar enviesado dos colegas, quando enfiava os plugues nos ouvidos e partia para bem longe.

Nem sempre ouvia música. Os fones eram a forma de mantê-los longe, de não precisar responder ou desviar os olhos da tela do computador. Ela tinha um lugar onde podia viver, onde podia se esconder quando a vida aqui fora não fosse exatamente agradável.

Era outra mulher, em outro lugar. Podia estar em Lisboa – ou numa casa velha e linda na Toscana. Ou numa cabana a beira mar.  O corpo perdia dezenas de quilos e assumia um perfil alongado, os cabelos pareciam os de comercial de xampu, movendo-se em câmara lenta. Mas principalmente a vida, era outra.

Antes de ir para casa, Wanda passava na padaria para comprar o lanche da família e imaginava como seria, se ela tomasse o café ali mesmo e fosse ao cinema. Sem ter que colocar a mesa, retirar e lavar a montanha de louças, sem se sentir sem assunto ou sem vontade de falar com quem quer que fosse. Eram todos tão cheios de histórias engraçadas, de lances emocionantes, que ela nem tinha o que falar de mais um dia, igual a centenas de. Estava farta de si mesma. E dos outros.

Amanhã seria o primeiro dia da licença e ela estava acomodada numa das mesas da padaria, tomando café com leite e pensando no que a outra Wanda estava aprontando.

Abriu uma folha amarelada onde estava o anúncio “Apartamento T1 em sótão de moradia, com entrada independente e pequeno páteo em Cascais.”.  (“Páteo”. A avó falava assim.)

Lembrou-se de quando tinha visto o lugar seis anos antes, durante uma viagem. Enquanto os outros percorriam a charmosa cidade em busca de lembranças e restaurantes, encantara-se com uma pequena placa, escrita em dois azulejos, ao lado de uma escadinha de degraus de pedras: “Para arrendar”.

Desde então, “a outra” vinha morando naquele lindo e ensolarado sótão branco, com uma sacada de onde se via a nesga do mar azul. Tinha ligado tantas vezes, que o senhorio já a conhecia, não só pelo sotaque, como pela voz.

Recordou-se de Shirley Valentine, sua heroína acima do peso e de qualquer suspeita. Suspirou, ajeitou as sacolas como pode e caminhou até o prédio onde morava há mais de 20 anos.

Notariam a ausência do carro na garagem? Provavelmente não. Ninguém prestava atenção, a não ser se faltasse comida… Mas o freezer estava abastecido: pelo menos até que entendessem o quanto essa ausência duraria, não morreriam de fome.

No dia seguinte, depois que todos saíram, deu ordens à empregada, colou cuidadosamente 3 envelopes sobre a tela da TV ( assim, tinha certeza que encontrariam) e tomou um banho caprichado. Vestiu-se com o conjunto novo azul marinho, tirou a mala arrumada há três meses do armário e chamou o taxi.

Quando todos estivessem almoçando, estaria em Fortaleza. Quando voltassem, estaria cruzando o Atlântico – e seria tarde demais para qualquer coisa.

Não olhou para os lados, não queria encontrar ninguém, dar explicações ou pensar se Shirley estava certa, ou não.

Quando agarrou os braços da poltrona, reagindo à decolagem; teve medo de abrir os olhos. Ou seria pavor de tornar a cerrar as pálpebras?

 

 

Go!

De camisa e bandeira

“Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque o silêncio é para os grandes. E eu não sou forte, nem nobre, nem grande. Sofro e sonho. Queixo-me porque sou fraco e, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.
Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos.                                                                                                    Eu não sou pessimista, sou triste.” (Fernando Pessoa)

Vira e mexe me deparo com o mestre a falar por mim. Algumas vezes, me encontro em cada palavra; noutras – raras, é verdade – tenho vontades de re-escrever, de tentar ajustar alguma coisa no contexto, como se fosse possível. Quem sou eu, para discordar?

Hoje deveria falar de Belém, até rascunhei um poema que gostaria de ouvir musicado e que ficará na gaveta, esperando, quem sabe, até os 400 anos. Poemas esperam.

Saiu a poesia e entrou a indignação, esse sentimento que não é para fortes, e sim nos torna não só fortes, como nobres e grandes.

Esqueceu-se o poeta que, sem indignação, pouco teria sido possível na história da humanidade, que exige mudanças, sempre.

Quero declarar-me indignada, ainda que minha voz, tão insignificante, se perca nos ruídos do dia a dia. Quero sentir-me nobre exatamente por não me resignar.

O Brasil vem se tornando um caos social e moral.

Black Blockers destroem a propriedade alheia e fica-se por isso mesmo. Daí todo mundo protesta e inferniza a vida dos demais.

Ônibus são queimados com gente – nós – dentro. E daí? A presidenta (ui) negocia com a oligarquia maranhense. Danem-se os demais.

Uma empresa aérea – a TAM – despeja paraenses em Macapá e São Luiz e diz aos passageiros que não pousa porque a pista molhada não oferece segurança. Espere um momento… Quem está falando a verdade? Existe perigo real e a TAM está certa ou a razão é outra? Quem devia esclarecer – Oi, Governo Federal? – não faz nada (só para variar) , não até o momento em que escrevo.

Enquanto isso, o povo doente se arrasta; o dinheiro some nas mega obras para a Copa do Mundo.

Copa. Muito importante essa coisa de futebol, não é mesmo?

Dá vergonha ver esse monte de obras mal feitas, despencando, deixando vítimas. Construções gigantescas e atrasadas, num pais que ainda precisa do básico. O que vão fazer com elas, depois de 13 de julho?

Fico aqui pensando o destino das eleições caso o Brasil vença a copa e, com a licença dos nobres resignados e dos grandes silenciosos, declaro minha torcida para a Inglaterra.

Essa pode não ser sua opinião, mas lembre-se que ainda estamos numa democracia. Quer dizer, eu acho.

Torcerei fer-vo-ro-as-men-te para que o time da Rainha consiga vencer a copa. Aliás, para que qualquer outra seleção saia campeã e o escrete canarinho  não logre, sequer, aquela vitória moral que só serviria aos interesses dessa gente que ganha bilhões enquanto o povo se endivida comprando televisores que mal cabem em suas paredes.

Chega de pantomima. Chega de pátria com chuteiras, pelo amor de Deus! Será que a gente só consegue ser Brasileiro de quatro em quatro anos?

Sou patriota, sim. Indignada, sim.

O Brasil tem uma última chance de corrigir essa rota que nos leva ao precipício, sem escalas ou guarda-corpos.

Depois disso, será o desmantelamento de tudo que signifique ordem, respeito e justiça social (de fato) ; o que virá será a anarquia revigorada, o banditismo chefiado por quem tem coragem de olhar-nos nos olhos e nos chamar de “meu povo”.

Alto lá, cara pálida. Eu não.

Senhora Presidenta, a senhora não me representa. Nem seu chefe.

Pronto, falei. Mesmo que você não queira, como dizia o Zagalo, vai ter que me engolir.

Go, England! Go!

Desperdício

Exemplos

David McCullough Jr, professor de inglês na Wellesley High School, em Massachusetts, é a nova sensação dos programas de entrevistas nos Estados Unidos. A razão é absolutamente corriqueira. Numa formatura, onde os discursos costumavam “endeusar” os concluintes do equivalente ao nosso segundo grau, David resolveu alertar os adolescentes de que a vida, a seguir, poderia ser bem mais difícil. Que os adultos que viviam dizendo que eles eram o máximo, na verdade, estavam errados. Em treze minutos, repetiu nove vezes a frase “vocês não são especiais”.

O que David quis dizer? Que muitos pais (e professores) parecem procurar expiar suas culpas, suas ausências e outras falhas na educação desses jovens, tentando convencê-los que são incríveis, seus desempenhos maravilhosos e outras mentiras típicas. É o tal “passar a mão na cabeça”.

Por fim, podem se tornar adultos incapazes de encarar a vida – e as dificuldades – e ainda ter alguma chance de sucesso genuíno.

Não vamos longe, quem de nós não conhece algum desses garotos (e garotas!) insuportáveis, que pensam que podem tudo? Pois é. A “deformação” começa cedo, quando crianças são criadas num mundo de exageros em que, aparentemente, o mundo gira em torno deles. Muitos tratam babás como se fossem “sinhozinhos”.

Falou-se em exageros… Alguém conhece algum lugar onde se cometam tantos despropósitos, como aqui em nossa festeira Belém? (Não me odeiem!)

Pois é, de novo. Conheço uma família que se empenhou (venderam um pequeno imóvel) para que a filha tivesse uma festa de 15 anos “melhor” que as das colegas. Não bastou, para a mãe, que a menina estudasse em colégio cuja mensalidade não era “confortável”. Ela tinha que estar “a altura” das outras. Enfim, o enredo você conhece.

Em quatro horas de festa, cheia de exageros de gosto duvidoso (e como isso é comum, Santa Rita!) torrou-se uma pequena fortuna, entre decoração faraônica, brindes caríssimos, quatro trocas de roupas, bandas, drinques, fogos, escola de samba, príncipe global… Nada de novo, apenas mais uma festa. Elegância, mesmo, passou longe.

O que será da menina, quando a vida lhe disser um sonoro “não” ? E ela dirá, de vez quando.

Esse é o caso do menino de 14 anos, que acha (tem certeza) que pode pilotar seu triciclo no Atalaia, afinal, foi “presente de papai”.

Como pais despreparados conseguem tirar qualquer chance dos filhos se tornarem adultos responsáveis! Lastimável.

O mesmo ocorre com o frangote que grita com o garçom no “clube classe A”, pois é um legítimo moleque que “se acha”.

Certa vez, soube que uma senhora (maneira de dizer) “queria porque queria” pedir “emprestada” ao Comando do Exército, uma onça (que era famosa, na época). O felino deveria participar de uma pantomima, ao lado de um “Lotar” de sunga de oncinha, e da filha, vestida a caráter, na festa de 15 anos, cujo tema era “Rainha das Selvas”. (Também fiquei envergonhada.) A mãe só desistiu do pedido (teriam negado, claro!) quando o marido, num repente de lucidez, a ameaçou com divórcio.

Papi, pelo menos dessa vez, soube mostrar que para tudo há limites! Amém.

Mas outros não desistem, quando se trata de dar maus exemplos. Basta passar ao meio dia, naquelas escolas que todos conhecemos. A cena é clássica: Mamy pilotando o carrão, estaciona (maneira de dizer, de novo) em fila tripla, desce batendo o salto para apanhar o pimpolho, na segurança da escola. Tente buzinar. Ela irá lhe acenar com uma “banana”, arrematará com quatro dedos fechados e o do centro em riste e, porque é muito “fina”, gritará que você é pobre e babaca. Então partirá, feliz com a lição de bons modos e civilidade que deu ao filho. Que aprendeu que pode tudo, claro; afinal, palavras ensinam, exemplos, arrastam,  babaca é pobre e respeita leis de trânsito, conclui-se.

Ai, ai… Não pensem que sou contra festas, logo eu! Mas quando vejo as coisas como devem ser, ou encontro pessoas que sabem comemorar com elegância e bom gosto, que primam pela educação das suas crianças, fico feliz da vida. Pena que seja cada vez mais raro.

Podem me odiar, mas dinheiro, sem classe, é desperdício.

 

 

 

Entradas Mais Antigas Anteriores

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.