Cup Flower

Cansei de cupcake !

Resolvi usar minhas canecas – as que sobraram de jogos antigos – como “cachepots” para temperinhos e mini kalanchoes (R$3,50 cada vasinho!). Ficou bonitinho, mas vai ficar melhor quando colocar outras, de vários tamanhos e temas. Os pires das xícaras já quebradas vão ter outro uso, todos juntos. Aguardem, eheheh!Image

Ensaio sobre a maldade

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Não lembro se tomei consciência da existência da maldade, antes de conhecer o “Jr”, felizmente tive uma infância tranquila, sem muitas emoções (meu pai era conservador e totalmente avesso a novidades) com um convívio familiar saudável. Sobrevivi a um bullyingzinho por conta do meu peso (“tora” e “Chefe Touro Sentado”entre outras pérolas) mas tudo no recôndito seio familiar – aquele que a gente não esquece, mas a vergonha, pelo menos, não é pública.

Ouvi histórias sobre um sádico que “beliscava” vítimas com um alicate, mas isso ficava no caderno policial, tão longe de mim que achava quase folclore.

Hoje sei que eu é que era ingênua, pois a maldade está bem ao nosso lado sempre – ainda que adormecida. Foi lá pelas tantas, quando morei em S. Paulo e fui vizinha de uma família cujo caçula – onze anos – me fez descobrir que inclusive crianças podem sim, ser muito más.

O tema – um tabu, na verdade- foi abordado na Superinteressante desse mês, numa pequena, mas impressionante, reportagem. “Os Pequenos Psicopatas” mostra a rotina dolorosa de mães que descobriram – estarrecidas – que suas crianças eram um monstro.  Uma delas, acordava no meio da noite e via o filho no escuro, observando os pais… Ela teve certeza que ele os mataria, um dia.

A história do garoto é triste. Destruiu a casa três vezes, roubava pais e parentes, e foi internado – é um psicopata – aos 13 anos. Depois de muito sofrimento, a mãe cumpriu o que a lei exige – protegê-lo até os 21 anos – e decidiu cortar qualquer vínculo ou contato. “Matou-o” dentro de si da maneira que pôde, mas até hoje os pais que não o vêem desde 1993, têm pavor de serem mortos pelo filho, atualmente com quarenta anos.

Deve ser uma dor enorme reconhecer que um filho é mau. Quando o casal Richthofen foi morto, cheguei a orar pedindo a Deus que não tenham percebido que a filha era um dos algozes. E me perguntei como uma frágil menina poderia ser tão, tão má, na sua essência.

A perversidade é, às vezes, disfarçada como outros sentimentos menos graves ou danosos. O menino que conheci em São Paulo, certa vez enterrou um gato para cronometrar quanto tempo o animal resistiria, enterrado vivo, dentro de um saco. E depois repetiu a maldade, para ver se o tempo seria o mesmo. Tudo isso foi observado por vários meninos, a maioria com menos idade e, acredite, poucos relataram aos pais tamanha crueldade. O ser humano – mesmo as crianças – tem certo fascínio pelo poder que os maus aparentemente emanam, e levam algum tempo para reconhecer entre o certo e o errado, entre o que é razoável ou maldade pura – para os especialistas, a psicopatia.

O “Jr” enterrou gatos, cortou fios de telefone, riscou carros, salgou plantas e a tudo se dizia que eram “coisas de criança”. Mas o olhar dele, de indisfarçável prazer diante do sofrimento alheio, me deixava perturbada. Até que ele baixou a calcinha de uma menina de quatro anos e, depois de enorme briga entre os pais desesperados, a família acabou sendo “expulsa” do condomínio, para onde vinha de outra situação semelhante.

Nunca mais ouvi falar do “Jr”, mas ele foi a primeira pessoa má que lembro ter convivido. E tinha apenas onze anos.

Crianças podem ser sociopatas, como foi classificado um jovem, filho de pais com excelente situação financeira que, entre outras coisas, cortou pneus de vários carros do condomínio, tentando vingar-se por ter sido descoberto em outras “artes”. Ele urinava no hall do próprio apartamento, fez uma espécie de “coquetel molotov” com uma garrafa e a própria camiseta (identificada pelos pais!) e cobriu os elevadores, por duas ou três vezes, com ketchup e maionese. Rebelde (sem nenhuma causa), drogado, maluco. Falou-se em tudo, mas no fundo, temia ter que viver no mesmo prédio que o rapaz. Acabei me mudando por outras razões, mas fiquei aliviada, pois descobrimos , mais uma vez, que a família tinha tido os mesmos problemas no antigo endereço. O que faltava acontecer para que entendessem?

Que eu adoro gatos, todo mundo sabe. Mas não me compadeço apenas quando são os bichanos as vítimas prediletas desses loucos.

Temo a maldade, temo, demais, a ira dos perversos.

Outro dia uma amiga, que tem um belíssimo gato, me disse que estava muito magoada com uma pessoa que mora em sua casa – e com o felino, portanto. A outra, ao vê-la derretendo-se em mimos, chegou bem perto para contar que dias antes flagrara o gato “comendo um daqueles lagartos cinza do jardim”. E acrescentou, deliciada com a expressão de horror: “Dava para ouvir o croc-croc-croc…” Gatos são gatos e pronto. Contar esse tipo de detalhe é sadismo, explícito e nada – ignorância ou infantilidade – justifica o gesto. Daí a mágoa da minha amiga – que eu considero uma enorme decepção, isso sim.

Já se disse que aquele nazista norueguês era louco. Não, antes de tudo ele é mau, muito mau. E os maus são capazes de tudo.

Deveríamos estar acostumados com a maldade alheia?

Não! Quando nossa indignação – mágoa, decepção – só se manifestar em circunstâncias de grande vulto, quando as pequenas crueldades não nos ferirem mais; a humanidade chegará ao caos, quando será difícil separar homem e besta.

E Livrai-nos, Senhor, do mal; Amém. 

Foto: Suzanne Von Richthofen: mentora do assassinato brutal dos pais, envolveu o namorado e o irmão, mas ficou vigiando, para que pudessem agir. Depois, para defender-se, acusou-os, fazendo-se de vítima. Maldade, cujo olhar denuncia.

Questão de Estilo


É isso que está escrito na etiqueta da moça.
Nada mais adequado.

Sem flertar com o alemão

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Lá pelas tantas a gente começa a esquecer uma coisinha ou outra e passa a brincar que o “alemão” anda nos paquerando. Depois esquece o aniversário da nora (logo dela) ou de pagar o INSS da empregada, coisa que faz, todo mês há… Quantos anos, mesmo?

A preocupação com a memória só atrapalha, até que, no caixa do supermercado, aquela fila pronta para linchar quem ouse atrasar o almoço e você…Esquece a senha! Justo ela, que você tecla pelo menos uma vez ao dia, bom era no tempo em que a gente assinava, reclama. Depois dos cinquenta, o que está cada vez pior não é sua memória, querida, é a atenção.

Já faz algum tempo que passei a brincar com meus lapsos, mas no fundo, ficava deprimida, afinal, pé de galinha a gente adia com botox, mas senilidade… Aqueles comentários “você ainda é jovem” não servem pra nada; geriatras deviam ser consultados aos 35, 40 anos. No máximo.

Eu decidi combater essa sensação de estar sempre meio “chapada” – principalmente por ser careta e andar limpa – Calman conta? – a maior parte do tempo. Cansei de ver as pessoas falando mais pausadamente como se precisassem “desenhar”, ou me lembrando de um compromisso que era rotineiro, umas tantas vezes. “Não vai esquecer, heim!”. Não vai esquecer é o …

Descobri que sofremos de déficit de atenção, que funciona como uma bola de neve. E a avalanche você já sabe como seria.

E dou a mão à palmatória. Depois de praticar, jamais voltei a me sentir perdida… Onde estávamos?

Brincadeirinha. Vamos lá.

As pessoas perdem vencimentos de contas ou compromissos principalmente porque, aposentadas ou sem “trabalho”, não têm contato frequente com algo que as lembre “que dia é hoje”. Quantas vezes você lembrou que teria que pagar algo, justamente quando datava um memorando, uma receita ou outra correspondência qualquer?

Pois bem, pode parecer estranho, mas manter um calendário (com uma caneta) afixado no espelho do banheiro é extremamente útil para lembrar compromissos, consultas, aniversários, ou carnês. Ao amanhecer, logo que escovar os dentes, a dica é olhar a data, repeti-la (hoje é quarta-feira, dia tal) e verificar os compromissos. À noite, risca-se o dia findo. Simples, mas muito eficiente, evita aquele “branco”em que a gente não lembra nem em que ano estamos.

A segunda dica – importantíssima – é um bloquinho para fazer a lista do dia. O que se tem para fazer, o que deve ser comprado no supermercado, telefonemas a dar, contas a pagar, aniversariantes do dia etc. Cada vez que uma tarefa é cumprida, risca-se da lista. O que sobrar deve abrir a do dia seguinte.

Com tudo anotado, sua mente fica, digamos, mais leve para você prestar (mais) atenção no que faz, em vez de remoer neurônios para não esquecer de passar na tinturaria ou telefonar para a Tia Xinica para dar parabéns pelos 84 (ou seriam 85?) anos. Assim você dirige melhor, estaciona melhor, vive melhor. Extremamente útil no Natal, quando você perde dias comprando presentes e depois não sabe para quem já comprou.

Quer outra? Compre presentes de Natal em outubro, desde que sejam coisas que não precisem ser trocadas. Roupas, sapatos e pannetones são… Perecíveis, entendeu? Escolha outra coisa, criatura.

Telefonemas. Sabe de uma coisa? Todas as vezes em que fiquei tentando lembrar o aniversário de alguém para telefonar, acabava esquecendo. Agora, ligo de véspera. Aviso logo que quero ser a primeira (essa é tão surrada!) e que na verdade não quero incomodar no dia, que sei, será cheio! Todos adoram minha tática e eu fico mais tranquila.

Nomes. Ah, eu sou péssima para nomes. Péssima não, sou um horror, mesmo.

 Conheço uma Shirley e todas as vezes que tento falar-lhe, fico em dúvida se seria Sheila. Aceitei a dica do especialista e adotei a técnica de memorização associada. Conheço uma Sheila que não esqueço o nome, daí memorizei as duas, de braços dados, e que uma, a que eu conheço mais, é a Sheila – a outra só pode ser Shirley. Esse mesmo exemplo serve para memorizar nomes iguais. Duas Sheilas, duas cabeças numa só fotografia.

Listas de supermercado. Tenho praticado a técnica do roteiro. Você escolhe um roteiro mental e vai colocando as imagens. Entro em casa, na garagem está uma saca de laranjas*, elas estão jogadas em direção ao pátio, onde uma panela de arroz* fumegante está sobre a mesa, ao lado da Babi faminta (ração)*. Vou para a cozinha e o piso está escorregadio de espuma (detergente)* e na bancada está um pacote de pão*, ao lado do pote vazio de manteiga*. Basta lembrar onde o roteiro começava e sua mente vai ajudar. Acredite, é só treinar.

Falando em treino, a unanimidade dos médicos que “sacam” tudo sobre envelhescência é manter corpo e mente em exercício. Caminhe, transe, pule corda, nade… Mexa-se! E mantenha o cérebro azeitado: ler e escrever são a melhor opção. Quando você lê, areja as idéias. Quando escreve, areja a vida, inclusive a alheia.

No mais, tome vitamina C diariamente e vá ao cinema, semanalmente. Paquere a vida – mas dê-lhe chance de retribuir. Você vai ver que ainda podemos (quase) tudo. O quase, a gente substitui por coisas que só descobrimos recentemente. E isso não tem nada a ver com netos, querida; não m-e-s-m-o.

 

 

 

 

Fumacê

À Dieckmann o que é de Bastos.

(Ou César. Ou… Sei lá!)

Quando acontece algo com celebridades e se vê a eficiência da polícia, fico me perguntando se seria assim, caso a vítima fosse uma desconhecida; alguém como eu, praticamente uma “Zé Mané”. E a gente deita falação contra os “famosos”. No fundo, inveja mal disfarçada: como elas conseguem ser tão magras, Jesus!

Carolina Dieckmann e Luana Piovani sempre contaram com minha antipatia, afinal, devem ser in-su-por-tá-veis! Pode, Freud? Pois é. Coisas de desconhecidos, idiossincrasias de manés ou invejosas.

Quando Carolina entrou na justiça contra os (chatíssimos) comediantes do Pânico, confesso que passei a ter pequena (pequeníssima) simpatia pela loura. (O que era aquele platinado incrível da Leona?).

Convenhamos, o tipo de humor que aposta no quanto se pode ridicularizar alguém é bullying; oportuno que ela os processasse, afinal, quem aguentaria um cinegrafista pendurado numa grua, tentando registrar sua intimidade, no quinto andar?

Da Piovani é difícil se compadecer quando um desses paparazzi a persegue. Eles também a detestam, mas não sacaram que a melhor vingança para tanta baixaria, seria esquecer que ela existe. Para quem “se acha”, ostracismo dói muito mais.

Foi com nenhuma emoção que soube do caso das fotos surripiadas da loura. Da outra. Não queria dar tanto cartaz, mas sabe como é, o ser humano é péssimo mesmo, e não sou diferente… Vocês viram como ela é magéeeeerrima? Que genética, cruzes! O que ela come, meu Deus? Essa moça deve passar a alface, água e Rivotril, credo!

Voltando à intimidade… Peitos são peitos, e fotografar a deusa “no Miguel” não é assim, tão inédito. Parece que a Narcisa – ou outra maluquete qualquer – tem um poster no lavabo, em situação semelhante; de qualquer forma, “Oh…!”, olha a Dickmann fazendo… Que caca, que nada, menina! Aquilo foi posado, mesmo que pareça estranho e o fotógrafo, uma droga. Louras magras podem, e daí? Podem até mandar notebook com arquivos íntimos para manutenção; santa estupidez, pensei.

Eis que o Fantástico trouxe a revelação que o Brasil inteiro esperava roendo unhas e dedos, tcham-ram-ram-ram… Foi um hacker, senhores e senhoras!

La Dieckman recebeu um e-mail com um programa invasor e – clic – estava feita a… Porcaria, se é que me entende.

Vibrei com o desfecho dessa novela real! Episódio digno do CSI – RJ, com um policial que lembrava o charmoso Grisson. Finalmente hackers têm nome, CPF e endereço – ainda que seja “na casa do Manza”. E podem até acabar na cana dura – que é lugar de quem surrupia qualquer coisa, inclusive a intimidade alheia. Dá-lhe, Polícia Federal! (A-mei!)

Que bom a mídia – a Globo – repercutir o desenrolar dessa história, exemplarmente. Está mais do que na hora de lembrar que, até na internet,  um dia, a casa cai. A não ser que contratem o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos – que defendeu os “rapazes” que tocaram fogo no Pataxó, advoga para uma turma nada suspeita e muito culpada (a do Mensalão, lembra?) e tem como clientes Thor Batista e o bicheiro Cachoeira. Ah, mas ele é Presidente do Conselho Superior do Instituto Innovare e não vai defender pé rapado, pode esquecer seus planos diabólicos e andar na linha.

Mas tudo isso é bobagem; quem vai se preocupar com esses senhores quando tem as fotos de La Dieckmann para debater, heim, heim? Cóf, cóf, cóf… (É a fumaça!)

No mais, queridas, melhor dar uma “varrida” nos arquivos e especialmente, no celular. Apague tu-do! Foto íntima, só se você estiver “no osso” – ou muito gostosa – pois de gente normal, acima do peso e com marcas do tempo, já basta o espelho, viu? Era só o que faltava!

 

PM lança spray de pimenta num cão!

Só uma coisa a dizer (perdoem-me a expressão!)

 

Que filho da puta!Image

Fazenda Santa Rosa

 

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Pedaço de mim

Começou no estacionamento do aeroporto, muitos anos atrás… Fazia calor, logo depois do meio dia e o vento chacoalhou algumas palmeiras. Olhei o céu, de intenso azul e o farfalhar despertou-me memórias que nem eu sabia que guardava. Uma ave qualquer assobiou longe, repetidamente. Continuei ali, olhos fechados, deixando os outros sentidos me guiarem até minha infância. Uma pancada de chuva, dessas que largam uns respingos e somem do mesmo jeito que começou, liberou o cheiro de terra, o mesmo que impregnava meus dias na ilha do Marajó.

Talvez tenha durado cinco minutos, talvez menos, mas foi tempo suficiente para avivar uma saudade que venho carregando vida afora, como os fantasmas arrastam correntes. Entrei no carro, tentei gravar alguma coisa, ditar um texto que não sabia o enredo. Desisti e quis esquecer. Ou fingir que não lembrava mais nada.

Tempos depois, alguma coisa me fez passear entre as capas coloridas expostas na livraria. Não procurava histórias, mas imagens que me parecessem familiares… Lá estava eu em busca do passado, tentando juntar fragmentos desse filme que permanecia inacabado no fundo do meu baú.

A chegada de minha irmã me tirou do transe e mais uma vez, deixei que o sótão guardasse meus fantasmas. Até que hoje, durante um engarrafamento fenomenal, me vi diante de um outdoor, uma foto enorme de uma menina apoiada na mãe, num prado, com uma vegetação mais densa ao fundo. Nem vi o que vendia, nem mesmo as figuras ou seus rostos. A vegetação rala, os tufos de capim aqui e ali, o céu demasiadamente azul… Era assim o Marajó no fragmento de recordação que teimo resgatar, como se precisasse organizar minha história, para então arquivá-la.

Tive vontade de parar e ficar olhando a enorme placa, já possuída pela certeza de que precisava rever a fazenda, quem sabe despedir-me daquilo que não nos pertence mais há tanto tempo… Encostei em frente ao CAN e telefonei para um primo que ainda frequenta a ilha, pedindo que filmasse a casa do meu avô, a praia e o terreno em frente ao curral… Ele não entendeu o que eu queria de fato e me ofereceu antigas fotos…  E sem perceber o quanto era importante, revelou-me que a casa não existe mais, há muitos, muitos anos; tampouco o curral, a horta ou a casa do “Feitor”… Há mais de trinta anos a maré invadiu tudo, o terreno tomou outra conformação e está tudo mudado. Como a gente, ele riu.

Agradeci, e recostei-me com uma sensação enorme de alívio, como se finalmente soubesse que não precisaria mais perseguir minhas recordações, que na verdade só existem no passado e só lá podem viver para sempre.

Lembrei, de súbito, de meu avô, sentado numa cadeira tosca, na varanda, mostrando os marrecos que haveríamos de caçar na manhã seguinte. Do quanto eu implorava que me deixasse disparar a cartucheira, para que me sentisse parte de tudo aquilo. Ouvi as vozes do passado, minha avó tagarelando com a Beth na cozinha, a mesa com os dois bancos compridos e pernas de bandeirinha do Volpi. Senti o cheiro forte do feijão manteiguinha recém colhido, das mantas de charque, das injeções de penicilina que meu pai aplicava nos aflitos que andavam até a Santa Rosa, com suturas a fazer, dores, febres e infecções a debelar. Vi o sorriso amarelo da minha irmã diante dos presentes que os caboclos levam-lhe por ocasião do aniversário, invariavelmente ovos, galinhas ou peixe. Ouvi o motor do teco-teco do meu odioso tio Cosminho, que roubou-nos não só a fazenda mas a melhor parte da minha infância. Chorei de saudade com quase cinquenta anos de atraso. Chorei aliviada por saber que ninguém vive, brinca ou é feliz “em cima”das minhas recordações e que tudo aquilo, o mar levou, o tempo apagou e que elas, minhas memórias são, finalmente, só minhas. Para todo o sempre.

 

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