Dos enganos e acertos

A avó que  me tornei.

Não sou do tipo que acha que idade é “psicológica”. Idade é músculo. É aptidão psicológica e física, pouco adianta tentar me convencer do contrário. “Vira-brotos” vivem dizendo isso enquanto tentam esticar as peles dos joelhos – o que é im-pos-sí-vel, cara senhora. Pescoço, mãos e joelhos não acreditam em Freud, só em Isaac Newton, se é que me entende.

Beirando os sessenta, em vez de infarto ganhei netas. Duas de uma vez. Eram esperadas, minha filha queria há tempos e sempre sonhou em constituir família, como antigamente.

Fiquei pensando nessa determinação, ela sempre quis trocar fraldas, dar banhos e ser vomitada de vez em quando; eu mesma jamais desejei algo tanto assim. Para ser franca, minha vocação para a maternidade teve um foco: queria ser mãe dela, especificamente dela e pronto. Eu sempre conheci a criança que um dia iria gerar, e sabia que ela estava lá, separadinha, esperando que um anjo muito sábio, escolhesse quando eu estaria pronta. Devo ter feito alguma coisa boa nessa minha vida comum e pouco exemplar.

E agora minhas netas chegaram. Colocaram minha vida de pernas para o ar, desmontando qualquer projeto para os próximos meses e, do nada, senti vontade de trocar fraldas, conferir temperaturas, ser alvo de golfadas. Era como se jamais tivesse esquecido como cuidar de um bebê; desejei acalentar esse choro que dilacera o coração, quis descobrir o inventor das cólicas para trucidá-lo diante de uma plateia de mães aliviadas. Durante dez dias  isolei-me do mundo, virei uma eremita nos corredores da maternidade, dormindo num sofá onde qualquer condenado expiaria sua pena. Mas como sou avó, poderia dormir numa cama de pregos, nada me demoveria da missão de livrar minhas netas dos perigos do mundo. Das cólicas, da bilirrubina, das fraldas molhadas e de quem acha que neném é maniçoba – todo mundo quer meter a mão. Nada faria diferença desde que estivesse perto o suficiente para ouvir-lhes os suspiros, para ampará-las quando abrissem os braços naquele susto que os bebês têm, como se fossem cair no vazio. Eu poderia dormir equilibrada num galão de tinta, desde elas precisassem de mim. Ou para aquecer-lhes os pés minúsculos, tão magrinhos e tão amados. E eu lhes conferi dedos – um, dois, três, quatro, cinco; contei novamente… Será que já contei os da outra? E troquei seus nomes… Eu troco nomes, sou atrapalhada e muito menos “incrível” que a cronista que me habita; já chamei um José de Luiz durante muito tempo, e nunca sei o nome da música – que canto errado. Às vezes meu pensamento é mais rápido que minha fala rouca e alguém completa a frase, me atrapalhando no que já estava pensando muito além dali. Talvez seja a idade, fiquei lenta? Não, a cabeça é que é cada vez mais rápida… Mas Santa Inquisição, troquei os nomes das minhas netas e elas nem são tão parecidas, além da enorme diferença de meio quilo.  Quem mamou? Quem fez coco? Não tem como confundir, mas eu sou ansiosa, passional; e acima de tudo, completa e irreversivelmente disposta a me doar,  me entregar, e até esquecer meus projetos secretos.

Pode parecer absurdo, mas eu ainda tinha planos, sonhos indevassáveis. Quem sabe conseguisse acomodar algumas coisas numa mochila e tomasse um desses voos diretos para algum lugar; um lugar onde não fizesse calor, pelo amor de Deus.  Onde eu pudesse caminhar pelas ruas e conseguisse escutar-me um pouco, sem ninguém a me chamar? Onde tomasse um café sem pressa, e passasse horas olhando ruas e gente. Ah, é tão bom ser estrangeiro…

Ver velhos filmes de amor.  Adoro filmes de amor, principalmente entre casais maduros, são tão raros.

Eu ainda tinha planos para mim, imaginava alugar um estúdio em Paris, uma casinha na Caparica; tanta bobagem , mas sonhar era manter-me viva. Eu me sentia uma pessoa, e dez dias depois do nascimento das minhas netas, sou uma entidade coorporativa, a avó da Clara e da Maitê, cujo estatuto a vida teima em escrever, apesar de mim e das minhas manhas.

Dez dias de delírio.

Uma amiga demitiu-se de uma função cobiçadíssima, através de um bilhete, onde explicava que não  poderia passar mais um dia sequer, longe do neto, que nascera em Lisboa. Queria liberdade para ir quando precisasse e voltar quando pudesse, caso contrário, morreria pouquinho a cada dia.

Não há como explicar para um homem, para um avô, essa magia que é ver uma filha, a quem já acalentamos, ter os próprios filhos. Ama-se e sofre-se duplamente. De repente nos transformamos em seres capazes de viver sem dormir ou comer, para proteger nossas crias de qualquer perigo, do mosquito ao resfriado.

Mas a vida não é assim. Não somos o centro, estamos lá longe, numa sétima lua.

No meio do turbilhão, fez-se um segundo de claridade e percebi que netos não são filhos. Netos são sangue do nosso sangue, mas não nos pertencem!

Você tem que amá-los, abençoa-los e permitir que vivam sem você – ou apesar de você. Precisa aprender a despedir-se e saber que “até amanhã” pode demorar um pouco mais. E você não vai morrer por isso.

É o que se espera das avós que mantém a sanidade e não querem ser odiadas. Avós que querem ser lembradas com saudade.

Avós precisam voltar para suas casas, trabalhar, sem perguntar se fizeram coco, se comeram, ou se estão saudáveis apesar de 48 horas sem vê-los.

Avós precisam restituir e garantir aos pais, o espaço – salutar – longe delas. E quando avó é você, meu bem, o choque de realidade dói.

Quantas vezes nos perguntamos “Clara já sujou a fralda? Mas que pena, ela deveria ter feito isso desde ontem… E a sua vida passa a ser a espera por um coco – e você adora isso. Um coco abençoado.

Mas que não lhe pertence. São os pais que devem averiguar as fraldas sujas.

Você tem que ser forte e sussurrar “Vovó te ama, até amanhã… Ou depois.”

Os pais precisam de isolamento para, finalmente, criar e manter laços; para entender essa linguagem que une famílias, que vai muito além de quando é manha, quando é fome ou coco. Bendita fralda suja!

E depois virão os dentes… E os pais descobrirão suas próprias orações, seus próprios meios para que tudo que até dez dias era apenas um sonho, se transforme numa jovem família. Que não é mais “sua”.

Essa nova família carrega o seu DNA, mas já não é a sua, exatamente.

E só o amor de avó, que também é de renúncia, pode ceder e deixar que se fortaleça. Você vai rezar para que Deus destrua o demônio das cólicas, banindo-o de todos os berços. E vai saber o que é saudade e a paz do dever cumprido.

Arrumo minha mala, enquanto meu coração dilacerado me acalenta dizendo que é preciso ser corajosa para perceber o melhor a fazer. Abraço minha filha como jamais a abracei, e digo-lhe que vai dar tudo certo, que me transformarei num anjo, distante, mas atento. Avós, não aparecem sem avisar, não tentam transformar em filhos, os próprios netos, tento não esquecer. Netos não nos pertencem. São filhos com açúcar, mas não uma nova chance para criar os filhos como deveríamos ter feito. Dos netos, só as orações serão nossas para todo o sempre.

Dou um beijo em cada uma, abraço a filha novamente e me retiro, para que um novo ciclo siga adiante, exatamente como tinha de ser.

No peito, uma felicidade diferente se acomoda, como num ninho. Agora eu sou melhor, eu sou avó.

 

E daí?

O que realmente importa

Outro dia ouvi algumas pessoas falando sobre seus desejos. Sem exceção, todos tinham a ver com dinheiro. Muito dinheiro.

Tive a impressão que não dá para ser feliz sem uma grande dívida.

Sou normal e é claro que também desejo coisas que nem sempre poderia realizar, mas meus sonhos são mais modestos. Viajar muito, esse é meu grande desejo.

Mas naquele dia eu estava mais simples que o habitual, e acabei me sentido quase medíocre. Eu apenas queria uns dias em casa, sem telefone, sem celular, um ar condicionado silencioso e potente, minha família perto e, se tudo desse certo, quem sabe  até conseguisse ler um dos livros que me aguardam, acusadores. Com mais um tantinho de sorte, poderia marcar aquele almoço tantas vezes adiado e, grande ironia, ir ao dentista.  Isso tudo, como se diz, “não tem preço.” Da mesma forma que não tem preço a cobertura que a colega tanto sonha, nem o combo lipo+silicone que a outra quer porque quer. Desejos, sonhos, planos. Vida.

Mas afinal, o que importa realmente?

Nos últimos dias a morte vem me rondando como um assunto do qual não se pode fugir. Logo eu, que odeio a ideia e não consigo entender a lógica de vir ao mundo, gostar tanto e, um belo dia, (todos os dias são belos!) sem que ninguém tenha perguntando se estava pronto, desligam o fio – o seu fio – da tomada. Em um segundo, apaga-se tudo; o que era vida se transforma em inércia, em nada.

Não entendo e acho revoltante; a morte por si só, é uma enorme burrice, uma estupidez colossal.

A vida, sim, é tudo. Desejos, planos, sorte ou azar, amores ou desamores; estar vivo e poder desejar uma rosa ou uma Ferrari, o por do sol no Mosqueiro ou em Bali, isso sim, é o que importa.

Se já era difícil (praticamente impossível) aceitar que inevitavelmente morreremos um dia, o que dizer de quem desiste da vida? De quem desiste de sonhar, de desejar bobagens e coisas improváveis, de acordar amanhã e pensar em tudo que poderia fazer – ou não?

Desistir de um dia enfiado na cama, cortinas fechadas e muita preguiça. De uma manhã ensolarada, caminhando na praia. Desistir de si.

Enquanto alguém desistia, outros foram tragados da vida contra a própria vontade, apesar dos planos para as próximas décadas.

Robin Williams desistiu; Eduardo Campos e mais seis pessoas foram levados pelo acaso ou pelo destino, tanto faz. De qualquer maneira, a morte é estúpida.

Essas tragédias alheias deveriam nos fazer pensar um pouco mais sobre nossas vidas, o quanto de atenção estamos dando a nós mesmos, a cada dia que tivemos a graça de poder viver.

Desperdiçamos tanto com insignificâncias! Brigas inúteis, fofocas, deslealdades. Quanta bobagem!

 

Ô Excelência!

Senhores Candidatos

Honestamente, tinha outra coisa em mente para essa terça.

Pretendia contar as histórias de uma senhora dada a peraltices que sempre se saia muito bem, quando pega “no flagra”. Fica para a próxima, só não vale perguntar quem é e estamos conversados.

Podia falar de uma receita de bolo que vem passando de mães para filhas por mais  de sessenta anos. Fôfo, não é?

Fofuras a parte, como  resistir ao mais hilário e revoltante humorístico dos últimos tempos? O horário político é, sem dúvida, uma pequena amostra do desrespeito da população com ela própria. Quase um “Balança, mas não cai”, programa de rádio que divertia minhas manhãs.

Não. Desculpe. O “Balança” era bem melhor.

Se você é um candidato sério, respeitado, com propostas razoáveis,  essa conversa não é com você; pode voltar lá para o seu comitê (todo candidato tem que ter, pelo menos, seis ) e vá distribuir seus “santinhos”.

Antes de tudo, tenho convicção que legislar exige formação intelectual. Varrer ruas, no Rio de Janeiro, exige as quatro primeiras séries do nível fundamental  e concurso. Trocando em miúdos, Tiririca pode ser deputado federal, mas não tem condições para varrer o sambódromo. Não é um absurdo? Pois é.

Vamos ficar aqui na terrinha, mas não pense que no sul maravilha o nível dos candidatos é melhor. Não é.

Dá até pena constatar como os partidos usam a ingenuidade de uns e a maluquice de outros, para compor seus quadros nas eleições. Você vai  dizer que sou elitista , que esse mosaico representa a população e blá blá blá. Meu bem, que outra função exige conhecimentos tão amplos quanto a do legislador? E vamos lá: quantos desses candidatos, sabe exatamente o que faz um deputado? Uma parcela ínfima, acredite.

Ontem, assisti, constrangida, um senhor prometendo cuidar da “inducação”, da segurança, da casa “pópria”. Outro prometia “mais dinheiro para o trabalhador”. Como assim, Bial?

O deputado cria, emenda e propõe leis, fiscaliza as ações e contas do governo, cria comissões parlamentares de inquéritos ( as famosas CPIs que podem acabar em pizza ou não) e tem outras atribuições. Seria fundamental que os candidatos soubessem um mínimo do que podem ou não prometer. O que querem dizer, exatamente, quando enumeram “educação, saúde, moradia e segurança” como suas metas “prioritárias”.  O que podem fazer a esse respeito?

Poucos , muito poucos, saberiam descrever o “caminho das pedras”. Não fazem ideia do que é a Assembleia Legislativa ou a Câmara Federal. Você pode argumentar o que quiser a respeito da pluralidade e da democracia; legislar exige preparo –  que assessoria nenhuma substitui.

O ignorante precisa ser representado por alguém que tenha maior conhecimento;  nada a ver com  castas ou pobres e ricos, mas sim ignorância e conhecimento. Ignorantes não me representam, mas isso não significa nada, se no interior ou na periferia, o Seu Zé do Açougue ou o Joca da Loja de Tecidos (que imaginam poder empregar a família inteira) têm mais conhecidos dispostos a elegê-los que o meu candidato, que é sério e tem um currículo respeitável.

Os absurdos são tantos que tem candidato prometendo, até, ressuscitar o “Onze Bandeirinhas”, garantindo vencer o Campeonato Nacional , quiçá a Libertadores! Como assim, autoridade? Campeão por projeto de lei, pode?

Os programas eleitorais estão se tornando um acinte. O finado Abdon fez seu humor trash, mas parecia tão inocente quanto um palhaço mambembe, curtindo seus 15 minutos de fama e felicidade, num circo.

Não diminui o ultraje local, mas só para você ter uma ideia da baderna, veja alguns candidatos de outras regiões: Jacky Chan da Motinha, Mão Branca, Kaboco de Ferro, Dengue, Barack Obama (sério!), Paulo da Maçã do Amor, Homem Aranha… Melhor parar, não é?

Ah, antes que esqueça, só para registrar: sonoro treme pernas e bundas aos domingos, é imperdoável. Im-per-do-á-vel, viu pretendente a excelência?

 

O manual

Tive um amigo que sempre falava da falta que faz um manual para entender as mulheres; enquanto outro completava que não existe manual porque nem o fabricante sabe, realmente, o que se pode esperar de uma mulher.

Essa é a única verdade  absoluta: ninguém entende as mulheres – nem elas próprias.

Você nunca sabe exatamente o que responder, ou se deve responder; mas se ela estiver “uma fera”, permaneçam calados. Mas não pode ser um silêncio qualquer; precisa certa veia dramática, uma relação feliz (pelo menos tranquila) exige arte, sensibilidade e talento para fazer parecer o que nem sempre é. Nessas ocasiões em que ela está “nos cascos” o silêncio não pode dar a entender que você a está ignorando, mas a mudez da quase humilhação, aquela que promete que você jamais  dirá ou fará aquilo de novo e que ela tem, sim, razão. Basta não dar chance para ela iniciar uma nova (e longa) discussão.  O que menos importa é a verdade, meu amigo.

Esse amigo revelou-me que, quando escuta a mulherada falando em igualdade de direitos, sente vontade de retrucar, já que eles é que precisam recuperar direitos garantidos desde o nascimento. Eles é que querem igualdade.  Direito a espaço na bancada do banheiro, no closet que sempre é 80% delas, na escolha do cardápio, da cor das paredes… Que privilégios ainda queremos se decidimos praticamente tudo?

Decoração, por exemplo.  Ele reclama não poder dar  “teco”; além de não ser consultado, provavelmente  estaria ultrapassado.

Certa vez, conta-me ele, a esposa escolheu  adesivos para decorar a parede da sala. Passou horas equilibrada num banquinho aplicando o que deveria ser uma árvore seca, com o vento leste levando-lhe as folhas;  um negócio esquisito, que estava em quase todos os consultórios reformados em 2010.   Os galhos e folhas no vendaval pareciam persegui-lo: no restaurante , no barbeiro, em todo lugar havia uma versão mais ou menos feia que aquela, que o assombrava em frente ao sofá, todas as noites.

Ela perguntou-lhe, esperando a resposta que desejava ouvir: “E aí, amor, não ficou lindo?”.

Ele garantiu que estava bonito, mas isso não basta para uma mulher. Durante bom tempo ela voltava ao assunto, que o marido não gostava de nada que ela fazia e blá blá blá. Diz ele que só queria que ela entendesse que uma sala  roxo-cará com um esqueleto de árvore descabelada não era o que esperava ver diariamente. Mas resistiu, bravamente.

Até que semana passada, acordou na madrugada e a encontrou no banquinho, descolando a árvore maldita, folha por folha, com uma pinça de sobrancelhas.  Ela havia trocado móveis pesadíssimos de lugar.  Ele  prefere estar viajando quando ela tem essas crises e muda tudo de um cômodo para o outro. Não sabe quando ou se deve  elogiar; o certo é que é assim que a amada e complicada esposa alivia o estresse e ele respeita, como um bom marido deve fazer.

Disse-me que até gostaria de conversar e minimizar suas aflições, mas nos 20 anos de convivência, aprendeu que ela não quer sua opinião, quer ter certeza que está certa.

É mais fácil deixar que arraste a cristaleira durante a madrugada e, pela manhã, dizer com convicção que ficou ótimo.

Mauro conta que  ficou chateado quando o  “50 tons de cinza” fez sucesso entre as mulheres do nosso círculo. Elas comentavam detalhes, com risinhos comprometedores e olhares sorrateiros. Joca,  gaúcho meio tosco, pegou corda. “Mas como agora parece que todas  gostam de levar “umas tapas”? Bah, guri, podiam ter dito isso há mais tempo…” Na surdina,  leu os três volumes e depois de muito matutar,  revelou sua grande descoberta: se Chystian Gray fosse pobre e brasileiro, a mocinha o teria enquadrado na Lei Maria da Penha. E encerrou o assunto: “ Tanto tempo convivendo com uma, eu tenho mais que obrigação de entender as mulheres”.  Pelo menos um pouquinho.

Em azul

 

Ando sem tempo para nada – ou quase. Escrever, inclusive.

Sei que é apenas uma fase e que, com alguma sorte e uma boa dose de determinação, conseguirei colocar “em dia” minhas pendências.

Como toda pessoa que tem mania de organização (arrumar, classificar, ordenar, listar…) senti-me pressionada. Um pedreiro largou a obra pela metade, o eletricista deixou um cabo atravessando meu caminho, os documentos amontoados precisando ser arquivados; enfim, ao acordar já sentia o cansaço de quem foi dormir “devendo”. Num desses dias, li o João Carlos (Pereira) e seus Ipês, que eu não notei, mesmo morando no Marco. Percebi que não passo pela Almirante faz muito, sempre cumprindo os mesmos trajetos: casa da filha, da mãe (raramente, reconheço!) e do shopping (para resolver algo correndo, ou para uma refeição fora de hora) e, diariamente, para o trabalho – que é logo ali.

Eu mesma já escrevi que só não tem tempo que tem muito tempo à perder. Ou que tempo é algo que só os que não têm, conseguem encontrar.

Escrever frases de efeito é muito mais fácil que resolver problemas, de fato. Segundo estatísticas, “a sensação de falta de tempo” é uma das causas mais comuns da depressão. Aquela percepção arrasadora de que o dia está chegando ao fim e não se fez “nada”. Nada como?

Isso vira hábito e logo você não tem tempo nem para viver.

Ser feliz é uma decisão (sim!) pessoal que deve prevalecer, inclusive (e principalmente) nos momentos de crise.

A capacidade de regozijar-se pelo que tem – mesmo que queira sempre mais, pois é a roda que move o mundo – resulta naquela felicidade que certas pessoas simples têm, e a gente não sabe como. Não seríamos mais felizes se esperássemos menos, dos outros e de nós mesmos?

Recolhi sugestões dessas revistas que trazem alguma solução pronta para tudo (dieta e autoestima, sempre!) e decidi separar meus problemas como quem “faxina” a casa. Listar coisas a fazer traz certo alívio, pelo menos você não fica exausto de lembrar-se que “precisa”  isso e aquilo. Numa folha, está o que posso resolver até a próxima semana, na outra, o que consumirá um mês e, finalmente, o que provavelmente não consiga, tão cedo. Ufa, que alívio.

Quando atribuímos prioridades, dá para achar que nem é tão ruim assim; eu posso ser feliz novamente, sem me sentir culpada. Empurrando com a barriga? Que seja, pelo menos ela terá alguma utilidade.

Deixando as brincadeiras de lado…

Otimistas encontram saídas para manter a alegria e o prazer de viver, mesmo quando as setas indicam-lhe o pântano. Essa aptidão é a tal “inteligência emocional”.

Já os pessimistas, encontram muitas e muitas razões para não curtir o que a vida (ainda) tem, de bom. Revivem brigas antigas, nunca estão satisfeitos consigo e com os demais, não conseguem sonhar – nem mesmo algo mirabolante que ficará, um dia, numa dessas listas rabiscadas para amanhã, semana que vem ou nunca.

O risco dos sonhadores é não serem levados a sério. Mas quem liga? Minha mãe, certa vez, me perguntou o que estava inventando “agora”, numa clara alusão ao meu cacoete de sonhar em voz alta – ou mudar de sonho. No entanto, olhando para trás, percebi que já realizei bem mais que o esperado e que, frustração de fato, praticamente não carrego. Mudar os planos, se adaptar quando um choque de realidade é necessário, também é uma habilidade de quem decidiu ser feliz.

Tenho uma amiga que tem sobrevivido a duras provações e, apesar de tudo, consegue ser das mais alegres do grupo. Por outro lado, nunca saberei por que algumas pessoas jamais fazem a escolha mais fácil, evitando debater-se para viver melhor, do jeito que der.

João me aconselhou a jamais parar de escrever, mesmo que saísse uma crônica “cinza”. Tentei enxergar alguma sobra do amarelo dos seus Ipês; e eis que surge uma crônica com alguns tons de azul. Exatamente como devia ser cada amanhecer em que a gente se sente incapaz, por uma bobagem qualquer.

Arrume tempo, mude de sonho, perdoe-se, perdoe o mundo…Mas escolha ser feliz!

Bom dia!

 

 

 

No sangue

A proximidade das eleições mexe comigo. Tento imaginar outro tema, procuro no fundo d’alma um resquício de romantismo, uma memória capaz de emocionar.

Descanso o queixo sobre as mãos e me lembro do olhar das minhas netas, olhos de lagoa serena, plácidos como céu dessa madrugada. E aí é que os meus ficam marejados. Como será o mundo que deixarei para elas?

Quantos olhos de lagoa estão sendo ninados nessa noite branca, por mães e avós capazes de tudo por eles? Penso que não deveria buscar outro tema, outra desculpa qualquer que me faça ignorar que nossas vidas –  e as vidas de todos os netos desse país – serão forjadas a partir do que nós decidirmos daqui poucos dias. Como fingir que não temos nada com isso, que tanto faz quem ganhar ou perder, que tudo continuará como sempre foi? Não, nada continua como era depois de qualquer eleição e o que mudar (para pior, ou melhor) passará pela escolha de cada um.

Não dá para fazer cara de paisagem. Ou reclamar “da obrigação” de votar.

Lembro-me da primeira eleição da minha vida. Fui votar na então Faculdade de Odontologia, na Praça Batista Campos e me senti responsável e adulta.

Tive das mais variadas relações com a política. Cheguei a trabalhar efetivamente em várias campanhas, apoiando candidaturas que acreditava ser, de fato, um projeto confiável. E vibrava, cheia de sonhos e ideias, ouvindo quem mais precisava de atenção. De tanto que me indignava, cheguei a imaginar que poderia candidatar-me e fazer a minha parte. É, nunca fui de ficar calada; tomar uma posição me parecia uma obrigação; ainda bem que a ideia passou.

A vida mudou, mudei eu, e atualmente o que mais encontro são desiludidos dizendo que não vão votar, como se isso os eximisse da responsabilidade. “Vou anular meu voto”, diz outro, tentando me fazer crer que se trata de protesto. Como assim?

Você permanece calado diante das atrocidades que se comete; fica em cima do muro a vida inteira e acha que ‘anular voto’ é atitude de macho? Vai lá, aponta o dedo diante da urna e, “valentemente”, anula o voto? Na única oportunidade de registrar sua opinião, solenemente você desiste?

Fico imaginando que, lá pelas tantas, se Deus assim o desejar, provavelmente seja eu a primeira a falar sobre política para minhas netas, repetindo, quem sabe, um texto que li ainda menina, que dizia que quando se compra feijão, no pacote existe um tanto de política. Levei certo tempo para entender que política é a base daquilo que poderia ser resumido como a busca da felicidade plena: viver bem, num país em que a justiça seja igual para todos e as condições essenciais – saúde e educação – sejam direito e não esmola.

Infelizmente, desde crianças ouvimos que política não se discute. Como assim, cara pálida? Nada devia ser mais conversado, esclarecido e discutido que o processo político e seus atores. A política não é suja, alguns que dela se aproveitam é que o são. Livrá-la dos oportunistas é justamente o que as eleições nos oferecem.

Oxalá possa conversar com minhas meninas sobre democracia, algo que os – maus – políticos vivem pisoteando e que nós, a banda boa do processo, até esquecemos os limites; onde começa o seu direito e termina o meu, tolerância e coisas do tipo.

Antigamente, isso era ensinado na escola; em casa, a aprendia-se a não jogar lixo no chão,  dar o assento a idosos e gestantes no ônibus, “bom dia” ao entrar e “até logo” ao sair. Diziam que era “ter berço”.

Hoje, a escola treina alunos para o vestibular, as famílias esquecem-se da educação básica e quase ninguém mais diz, sequer, “obrigado”. Como esperar consciência política, que saibam não só o valor do próprio voto ou que a maioria das promessas dos candidatos é fruto do descomunal despreparo para a função de legislador?

Ah, tenho muito a conversar com as garotas… Em especial, do quanto me preocupei com o mundo que ajudei a construir, além dessas janelas.

Eu estava lá Ainda que em algumas ocasiões tenha tentado resistir, a cada quatro anos sou tomada pela magia que as Copas do Mundo exercem sobre brasileiros. Minha lembrança mais antiga remonta ao lendário México 70. Pela primeira vez os jogos foram transmitidos a cores, mas quase todos tinham, apenas, TVs em preto e branco. A Embratel colocou telões no Rio, São Paulo e Brasília, os torcedores puderam conferir a seleção de Zagalo que venceu as seis partidas que disputou. Pelé, Tostão, Gerson e outros, fizeram parte daquela que até hoje é lembrada como a mais eficiente das seleções. Recordo o ruído dos chutes de Jairzinho e Rivelino, talentos que atualmente valeriam quantos milhões? Depois da grande vitória por 4 a 1 contra a Itália no dia vinte e um de junho, fomos para a “pipoca” domingueira da Assembleia Paraense. Embaixo, o Porão botava gente “pelo ladrão”. Rima infame, mas era assim mesmo. A partir da transmissão pela TV, gerações de torcedores vêm sendo formadas e hoje a melhor imagem é a de famílias torcendo pelo escrete canarinho. As Copas conseguem trazer para junto dos maridos esposas que detestam futebol durante os outros três anos. Em 2014, mulheres comentam mais que o belo tórax do Hulk; em 70, as (também belas) pernas do Leão eram alvo dos olhares femininos. Só nessas ocasiões eles, os maridos, não reclamam das observações assanhadinhas; finalmente podem torcer sem que as patroas reclamem, estarão juntos nessa aventura e, melhor, elas vão adorar futebol. Pelo menos até treze de julho, mulheres darão palpites, reclamarão da área “descoberta” e garantirão que não houve impedimento, não senhor. Durante as Copas do Mundo, como que por milagre, sabemos quando é (ou não) impedimento, acredite! As Copas conseguem essas façanhas de unir óleo e água, de nos fazer esquecer as sandices da presidente desvairada, os escândalos de mensalões e mensalinhos; transformam cada um de nós nesse ente que representa uma nação inteira: Sua Excelência, o Torcedor. Essa pessoa saudável que sente o peito doer diante da ausência do gol e jura que quase teve um infarto. Que veste com orgulho coisas ridículas e lembra, finalmente, de pedir ajuda aos céus, como se Deus não estivesse sendo invocado – convocado! – pelo adversário. Mas é claro que Ele nos atenderá, afinal, somos nós os brasileiros, o lado certo do jogo. Brasileiros lembram onde estavam ou o que faziam durante praticamente todas as copas depois dos dez anos; algumas trazem recordações especiais. Na da Espanha, em 82, quando a Itália deu vexame e acabou campeã, eu estava grávida da Verena.  Em 2014, na histórica Copa do Brasil, é ela a esperar a chegada de Clara e Maitê que poderão usar verde e amarelo na maternidade (se Deus quiser!) – com o Brasil já sagrado Hexa-campeão! (Se Deus quiser, de novo.) Apesar do Penta, a Copa de 2002, para minha família, é uma recordação triste. Enquanto o Brasil vencia a Bélgica por 2 a 0, nós velávamos meu pai, português naturalizado brasileiro e que torcia como se aqui tivesse nascido. Até a final, o Brasil será uma nação de torcedores, cada um fazendo promessas e mandingas, usando a mesma cueca, a mesma camisa, sentando no mesmo sofá; capazes de tudo para fazer parte da festa até o fim, pois o adeus é a dor de nada mais ter a dizer – ou fazer. Chutaremos a bola no pênalti, seremos como sebo nas canelas do Neymar. E quando tudo parecer quase perdido, virá aquela dor no peito…Deus, onde estás? Quando vi lágrimas brotando nos olhos do Júlio César, percebi que ele precisava de ajuda extra. Clamei por Nazaré e prometi que viveria sem chocolate até 20 de outubro. Deu certo. Mais uma bola… Até o Natal, jurei. Jesus! Eu sabia! Meu chocolate estava todo ali, naquela chuteira que errou e bateu na trave, na energia que tomou conta do Júlio. Ah! Eu sabia! Eu tinha que ajudar!

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