Isola, pé de pato…

…Mangalô três vezes!

De repente, no melhor daquela festa ma-ra-vi-lho-sa, você fica mal humorada, implicando com tudo e todos, e nem se dá conta da razão.

A ‘melhor amiga’, está melhor do que devia. Quitou o apê, trocou o carro e ainda emagreceu uns quilinhos; não bastasse, circula no modelito que você tanto namorou mas não conseguiu “casar”. Que ódio!

Você começa a encontrar os defeitinhos da festa, como se a vida fosse uma eterna competição. “Os nossos Bem-casados estavam mais saborosos!” sentencia, tentando marcar um gol, meia década depois da “sua” festa.

Aliás, você estava cheia dessa Pollyana, que ri de tudo, parece muito bem, obrigada.

(Sabe-se lá de onde vem essa grana, que ela torra com roupas!)

Deu até vontade de derrubar o ponche, no vestidinho “nude” que a infeliz estreou, ofuscando a sua legítima Fendi – que ninguém notou. Ficou na vontade, mas foi difícil controlar. E ainda teve a co-ra-gem de dizer que você tem “um rosto tão bonito…”. Só gordas escutam isso, cretina! Cretina é forte, eu sei, mas ela é, e você tem certeza.

Um dia, ah, ela que aguarde, você ainda vai plantar uma notinha bem maldosa numa coluna beeem lida, vai ver só!

Dava para perdoar tudo, mas “isso”, never!

Sente-se melhor imaginando uma vingança.

Vingar-se de que, mesmo?

(Como? Você? Reconhecendo isso?)

Provavelmente a vodka tenha reanimando até recordações mais remotas, de uma época em que a outra era apenas aprendiz e você brilhava em espetáculo solo.

Nas brincadeiras de casinha, nos passeios de bicicleta e nas quedas naquele rinque de patinação, a amiga estava lá, pronta para rir das suas piadas, dar uma força quando o mancebo da vez não ligava. “Fazer o papo”, era assim que se dizia.

O que aconteceu com ela? Ela?

Na verdade, o que aconteceu com você, pensa com o coração apertado, uma vontade enorme de chorar quando alguém teve a infeliz ideia de colocar “Just Way You Are” para tocar. Que saudade de si mesma.

O que aconteceu com você, com a felicidade que queria tanto e não sabe onde perdeu?

Invejosa? Você? Imagina, santa!

A Inveja é um dos sete pecados capitais que a Igreja Católica identificou no Concílio de Trento (1545 a 1563), com o objetivo de estabelecer valores a serem adotados pelos católicos, ameaçados pelo crescimento do protestantismo.

O Papa Francisco, o mais “antenado” que já se viu, chamou atenção sobre o hábito de “fofocar”, que é um dos frutos (ou sintomas) da inveja.

Mas… Se você nunca sentiu inveja, ainda não nasceu.

O problema acontece quando ela comanda nossas emoções e nos torna pequenos, mesquinhos, incapazes de reconhecer que alguém que pode parecer (ou ser) ‘mais’ em algum momento.  A inveja cega – e mata. E é tão difícil livrar-se dela.

Aceitação incondicional é coisa para quem confia em si mesmo, mas nem sempre estamos seguros ou bem-resolvidos. (Já notou que ninguém pode melhorar sem levantar suspeitas?)

Ter como amigo quem consideramos ‘menos’ é mais confortável. Menos bonita, menos rica, menos educada, menos estudiosa, menos brilhante, e que preenche a nossa solidão na medida certa, ou seja, ‘menos’. Ela (ou ele) não incomoda.

Olhar de igual para igual, perceber que a garota sem graça se tornou um mulherão e continua sendo amiga leal; que o outro passou naquele concurso de primeira e continua um bom-companheiro… Isso não é para qualquer um não, baby!

Há que se ter tutano, autoconfiança, acreditar nos sonhos que sobreviveram e esquecer os impossíveis.

Ou vai continuar se roendo, cada vez que achar que ela, a “oportunista”, roubou alguns dos seus flashes?

No mais, além de livrar da inveja, tente manter distância dos invejosos. Por mais que você nem esteja “se achando”, lembre que o invejoso não quer o que você tem – ou é. Ele não quer que você tenha – ou seja. Simples assim.

Isola, pé de pato e… Bom dia!

Água

Um balde de água

O primeiro elemento que temos contato é líquido.Morno e acolhedor, nutre e protege.

Isso talvez explique a enorme fascinação – e respeito – que a água me inspira desde meus primeiros anos, da mais tenra infância até hoje.

Ao beber um gole, curto quando assume todas as formas e espaços do interior da minha boca; quando estou numa piscina, admiro minha mão, absolutamente rodeada por ela, como se fizesse um molde de mim.

Nem o ar – tão essencial – me causa tamanho prazer e contemplação.

Hoje, um dia extremamente quente, preparei-me para mais um delicioso banho. Dizem que os paraenses são os brasileiros que mais se banham, que saem com cabelos molhados sem nenhum problema e,  quando chove, mal apressam o passo, como se aquele fosse o habitat natural: água.

Adoro ouvir o ruído da espuma do xampu caindo sem cerimônia, espalhando o aroma de Tília. Quem me conhece sabe que tenho algumas manias, o ritual (ou seria o roteiro?) do banho, não seria diferente.  Mas hoje, ele foi interrompido por um pensamento aterrorizante, longe de ser apenas imaginação.

E se, por alguma razão, eu simplesmente não pudesse tomar esse banho, refrescante e revigorante? A sensação de permanecer mais tempo suada, com a roupa grudando ao corpo e o cabelo pesado de suor quase me causou pânico –  principalmente porque, nesse exato momento, milhares de brasileiros (nem precisamos ir até a África seca e extenuada) estão tomando banho com canecas e toalhas úmidas. Nordeste? Que nada, na capital financeira do país, uma amiga moradora do bairro da Lapa está com apenas um tonel de água, faz cinco dias. Usa descartáveis, só aciona a descarga três vezes ao dia, a roupa de cama, antes trocada duas vezes por semana, aguada dez dias antes de ir para a lavanderia.

Tente imaginar quem tinha como hábito usar roupas uma só vez – de manhã até a noite – ter que se conformar em deixá-la “respirar” num cabide, para repeti-la dias depois.

Para quem vive literalmente cercado de água, isso parece absurdo; na Europa, é normal. E achávamos que se tratava de problemas com higiene.

Quando Suas Altezas, o Imperador Akihito e Imperatriz Michiko do Japão estiveram em Belém em 1997, recebidos pelo Governador Almir Gabriel, tive a honra de recepcioná-los, como Chefe do Cerimonial do Governo. E uma de suas conversas mais interessantes, que acompanhei graças ao intérprete, o médico paraense Dr. Fernando Teiichi, foi exatamente sobre a maior de todas as riquezas do planeta. “Sobreviveremos sem petróleo, jamais sem água.”, considerou o Imperador, especialista em Ictiologia e ambientalista desde sempre. Na época, enquanto cortávamos o Rio Guamá, a frase me pareceu pessimista demais.

Akihito pode não ter o “dom” que o atualmente falido Ike Batista gabava-se de ter: poder ler hoje, o jornal de amanhã. Mas essa é outra história.

Sem água, morremos em três dias.

Há dez anos, a ESA (Agência Espacial Europeia) lançou no espaço uma nave que carregou o módulo de pouso Philae que, distante 510 milhões de quilômetros da Terra, pousou na quarta-feira, quase suavemente, no cometa 67P – o Chury. O mundo inteiro comemorou o sucesso de umas das mais longas missões espaciais.

Um cometa é formado, na maior parte, por rocha e água congelada, que “reflete” a luz do sol quando chega mais perto do astro rei.

O grande objetivo é verificar se a água congelada é compatível quimicamente com a da terra – e se as rochas possuem resquícios de microrganismos. Os cometas podem explicar a origem da vida na Terra – e da falta dela, em Marte, por exemplo, onde imagens do que parecem ter sido rios e mares nos apavoram, quase dizendo “eu posso ser você amanhã”.

Para a comunidade científica, o principal é a certeza que existe – ou existiu – água fora do grãozinho de areia cósmica que habitamos.

Para visionários criadores do cinema, não será difícil imaginar um cometa sendo rebocado para um local árido, aonde derreteria até salvar – novamente – nossos rios e vidas.

Depois de tudo isso, será que é muito difícil fechar a torneira enquanto escovamos os dentes? Ou estamos usando os óculos cor de rosa do Ike que, em vez de mostrar o amanhã, impediram-no de ver o enorme precipício bem a sua frente?

Que cartilha é essa?

Hã?

Francamente, não sei aonde vamos parar. Não tenho “horizontes limitados”, como disse uma professora à mãe evangélica que procurou a direção de uma escola no sul, escandalizada com a cartilha “Adolescência sem filhos é muito mais legal!”.

Para começar, ninguém discorda de um título desses. Se a gravidez precoce é uma ameaça que tira a paz dos pais, imagine quão mais ela se torna pesadelo das mães menos favorecidas, que frequentemente criam filhos sozinhas.

Nas redes sociais algumas postagens de adolescentes – locais, inclusive –  são preocupantes. A exacerbação da sexualidade, banalização das drogas (especialmente da maconha) e vulgarização das relações são frequentes.

No vídeo gravado nos fundos de uma escola, duas meninas e dois meninos, fumam maconha e ridicularizam “os caretas” que não “matam” aulas nem “puxam um fumo”. Noutro, a menina faz sexo com um colega no banheiro escolar, enquanto um terceiro filma.

Nas imagens do encontro de adolescentes no clube de um condomínio, meninas beijam-se na boca sem nenhum temor às câmeras de celulares que transformaram o mundo num reality: atrocidades, emoções, transgressões; vida e morte nos pixels do planeta. O que está acontecendo?

Alguém haverá de dizer, precipitadamente, que a culpa é da desatenção das escolas públicas. Bem… Vamos combinar que muita coisa deixa a desejar, mas se você conhece seus filhos, se confia na educação que lhes dá, certamente eles não participarão de um fato desses exatamente porque aprenderam que isso não se faz, e não por causa da vigilância da escola (que deve ser eficiente, sim!).

A impressão que tenho é que os jovens estão com muita raiva. Do mundo, dos pais, de si mesmos. Que outra explicação se pode dar para a loucura de quatro estudantes, que registraram imagens de uma prática perigosíssima, em pleno corredor de uma escola tradicional, facilmente identificada pelo brasão das camisas? Uma menina, franzina, ampara-se na parede e expira, enquanto um colega, bem mais forte, comprime-lhe o diafragma com o punho cerrado, empurrando o estômago até que, tonta, desfalece por alguns segundos. Ele retira a pressão, ela inspira com dificuldade e os quatro riem.

Hã? O que falta aos jovens endinheirados, com seus “aifones” e jeans que custam mais que o salário de quem lhes serve o almoço? O que têm em comum com os colegas da escola  pública?

Esse tema daria tese para sociólogos e psicólogos. Na minha visão leiga, mas interessada, arrisco dois pontos: tédio e pais um tanto desatentos.

Sou do tempo em que se conversava com os filhos, com amigos dos filhos e, quando necessário, supervisionava-se mais de perto. Atualmente a “bisbilhotice familiar” ( necessária!) é muito mais fácil. Jovens não se contentam em “fazer”,  para eles para metade do planeta, o importante é “mostrar”; não é a toa que a maioria dos pais está terminantemente proibida de navegar nas mesmas águas. Ou seja, “nada de ser minha amiga no Face”. Então tá; vamos conversar quando tiverem os próprios filhos.

Por outro lado… Voltemos à “vaca fria”, ou melhor, à cartilha do MEC (pois é!) que prometia aulas de educação sexual – métodos anticoncepcionais, sexo seguro, DST e coisas assim.  Que surpresa teve a mãe paranaense ao ser inquirida pela filha de dez anos, sobre “ponto G” e como seria possível masturbar-se desde os 3 anos! Isto está na cartilha, além de um relatório sobre “FICADAS” e outros absurdos.

Que aula eu perdi? Desde quando esse tipo de esclarecimento é dado “em classe”, com professora mandando guris de dez anos abraçarem-se para saber o que sentiram? As descobertas fazem parte do amadurecimento de cada um, que é pessoal e indevassável. Crianças não precisam de orientação grupal (que pode ser mal conduzida), perdendo a individualidade, como se estivessem numa aula de culinária infantil.

Que tipo de governo promove esse tipo de coisa?

Dos enganos e acertos

A avó que  me tornei.

Não sou do tipo que acha que idade é “psicológica”. Idade é músculo. É aptidão psicológica e física, pouco adianta tentar me convencer do contrário. “Vira-brotos” vivem dizendo isso enquanto tentam esticar as peles dos joelhos – o que é im-pos-sí-vel, cara senhora. Pescoço, mãos e joelhos não acreditam em Freud, só em Isaac Newton, se é que me entende.

Beirando os sessenta, em vez de infarto ganhei netas. Duas de uma vez. Eram esperadas, minha filha queria há tempos e sempre sonhou em constituir família, como antigamente.

Fiquei pensando nessa determinação, ela sempre quis trocar fraldas, dar banhos e ser vomitada de vez em quando; eu mesma jamais desejei algo tanto assim. Para ser franca, minha vocação para a maternidade teve um foco: queria ser mãe dela, especificamente dela e pronto. Eu sempre conheci a criança que um dia iria gerar, e sabia que ela estava lá, separadinha, esperando que um anjo muito sábio, escolhesse quando eu estaria pronta. Devo ter feito alguma coisa boa nessa minha vida comum e pouco exemplar.

E agora minhas netas chegaram. Colocaram minha vida de pernas para o ar, desmontando qualquer projeto para os próximos meses e, do nada, senti vontade de trocar fraldas, conferir temperaturas, ser alvo de golfadas. Era como se jamais tivesse esquecido como cuidar de um bebê; desejei acalentar esse choro que dilacera o coração, quis descobrir o inventor das cólicas para trucidá-lo diante de uma plateia de mães aliviadas. Durante dez dias  isolei-me do mundo, virei uma eremita nos corredores da maternidade, dormindo num sofá onde qualquer condenado expiaria sua pena. Mas como sou avó, poderia dormir numa cama de pregos, nada me demoveria da missão de livrar minhas netas dos perigos do mundo. Das cólicas, da bilirrubina, das fraldas molhadas e de quem acha que neném é maniçoba – todo mundo quer meter a mão. Nada faria diferença desde que estivesse perto o suficiente para ouvir-lhes os suspiros, para ampará-las quando abrissem os braços naquele susto que os bebês têm, como se fossem cair no vazio. Eu poderia dormir equilibrada num galão de tinta, desde elas precisassem de mim. Ou para aquecer-lhes os pés minúsculos, tão magrinhos e tão amados. E eu lhes conferi dedos – um, dois, três, quatro, cinco; contei novamente… Será que já contei os da outra? E troquei seus nomes… Eu troco nomes, sou atrapalhada e muito menos “incrível” que a cronista que me habita; já chamei um José de Luiz durante muito tempo, e nunca sei o nome da música – que canto errado. Às vezes meu pensamento é mais rápido que minha fala rouca e alguém completa a frase, me atrapalhando no que já estava pensando muito além dali. Talvez seja a idade, fiquei lenta? Não, a cabeça é que é cada vez mais rápida… Mas Santa Inquisição, troquei os nomes das minhas netas e elas nem são tão parecidas, além da enorme diferença de meio quilo.  Quem mamou? Quem fez coco? Não tem como confundir, mas eu sou ansiosa, passional; e acima de tudo, completa e irreversivelmente disposta a me doar,  me entregar, e até esquecer meus projetos secretos.

Pode parecer absurdo, mas eu ainda tinha planos, sonhos indevassáveis. Quem sabe conseguisse acomodar algumas coisas numa mochila e tomasse um desses voos diretos para algum lugar; um lugar onde não fizesse calor, pelo amor de Deus.  Onde eu pudesse caminhar pelas ruas e conseguisse escutar-me um pouco, sem ninguém a me chamar? Onde tomasse um café sem pressa, e passasse horas olhando ruas e gente. Ah, é tão bom ser estrangeiro…

Ver velhos filmes de amor.  Adoro filmes de amor, principalmente entre casais maduros, são tão raros.

Eu ainda tinha planos para mim, imaginava alugar um estúdio em Paris, uma casinha na Caparica; tanta bobagem , mas sonhar era manter-me viva. Eu me sentia uma pessoa, e dez dias depois do nascimento das minhas netas, sou uma entidade coorporativa, a avó da Clara e da Maitê, cujo estatuto a vida teima em escrever, apesar de mim e das minhas manhas.

Dez dias de delírio.

Uma amiga demitiu-se de uma função cobiçadíssima, através de um bilhete, onde explicava que não  poderia passar mais um dia sequer, longe do neto, que nascera em Lisboa. Queria liberdade para ir quando precisasse e voltar quando pudesse, caso contrário, morreria pouquinho a cada dia.

Não há como explicar para um homem, para um avô, essa magia que é ver uma filha, a quem já acalentamos, ter os próprios filhos. Ama-se e sofre-se duplamente. De repente nos transformamos em seres capazes de viver sem dormir ou comer, para proteger nossas crias de qualquer perigo, do mosquito ao resfriado.

Mas a vida não é assim. Não somos o centro, estamos lá longe, numa sétima lua.

No meio do turbilhão, fez-se um segundo de claridade e percebi que netos não são filhos. Netos são sangue do nosso sangue, mas não nos pertencem!

Você tem que amá-los, abençoa-los e permitir que vivam sem você – ou apesar de você. Precisa aprender a despedir-se e saber que “até amanhã” pode demorar um pouco mais. E você não vai morrer por isso.

É o que se espera das avós que mantém a sanidade e não querem ser odiadas. Avós que querem ser lembradas com saudade.

Avós precisam voltar para suas casas, trabalhar, sem perguntar se fizeram coco, se comeram, ou se estão saudáveis apesar de 48 horas sem vê-los.

Avós precisam restituir e garantir aos pais, o espaço – salutar – longe delas. E quando avó é você, meu bem, o choque de realidade dói.

Quantas vezes nos perguntamos “Clara já sujou a fralda? Mas que pena, ela deveria ter feito isso desde ontem… E a sua vida passa a ser a espera por um coco – e você adora isso. Um coco abençoado.

Mas que não lhe pertence. São os pais que devem averiguar as fraldas sujas.

Você tem que ser forte e sussurrar “Vovó te ama, até amanhã… Ou depois.”

Os pais precisam de isolamento para, finalmente, criar e manter laços; para entender essa linguagem que une famílias, que vai muito além de quando é manha, quando é fome ou coco. Bendita fralda suja!

E depois virão os dentes… E os pais descobrirão suas próprias orações, seus próprios meios para que tudo que até dez dias era apenas um sonho, se transforme numa jovem família. Que não é mais “sua”.

Essa nova família carrega o seu DNA, mas já não é a sua, exatamente.

E só o amor de avó, que também é de renúncia, pode ceder e deixar que se fortaleça. Você vai rezar para que Deus destrua o demônio das cólicas, banindo-o de todos os berços. E vai saber o que é saudade e a paz do dever cumprido.

Arrumo minha mala, enquanto meu coração dilacerado me acalenta dizendo que é preciso ser corajosa para perceber o melhor a fazer. Abraço minha filha como jamais a abracei, e digo-lhe que vai dar tudo certo, que me transformarei num anjo, distante, mas atento. Avós, não aparecem sem avisar, não tentam transformar em filhos, os próprios netos, tento não esquecer. Netos não nos pertencem. São filhos com açúcar, mas não uma nova chance para criar os filhos como deveríamos ter feito. Dos netos, só as orações serão nossas para todo o sempre.

Dou um beijo em cada uma, abraço a filha novamente e me retiro, para que um novo ciclo siga adiante, exatamente como tinha de ser.

No peito, uma felicidade diferente se acomoda, como num ninho. Agora eu sou melhor, eu sou avó.

 

E daí?

O que realmente importa

Outro dia ouvi algumas pessoas falando sobre seus desejos. Sem exceção, todos tinham a ver com dinheiro. Muito dinheiro.

Tive a impressão que não dá para ser feliz sem uma grande dívida.

Sou normal e é claro que também desejo coisas que nem sempre poderia realizar, mas meus sonhos são mais modestos. Viajar muito, esse é meu grande desejo.

Mas naquele dia eu estava mais simples que o habitual, e acabei me sentido quase medíocre. Eu apenas queria uns dias em casa, sem telefone, sem celular, um ar condicionado silencioso e potente, minha família perto e, se tudo desse certo, quem sabe  até conseguisse ler um dos livros que me aguardam, acusadores. Com mais um tantinho de sorte, poderia marcar aquele almoço tantas vezes adiado e, grande ironia, ir ao dentista.  Isso tudo, como se diz, “não tem preço.” Da mesma forma que não tem preço a cobertura que a colega tanto sonha, nem o combo lipo+silicone que a outra quer porque quer. Desejos, sonhos, planos. Vida.

Mas afinal, o que importa realmente?

Nos últimos dias a morte vem me rondando como um assunto do qual não se pode fugir. Logo eu, que odeio a ideia e não consigo entender a lógica de vir ao mundo, gostar tanto e, um belo dia, (todos os dias são belos!) sem que ninguém tenha perguntando se estava pronto, desligam o fio – o seu fio – da tomada. Em um segundo, apaga-se tudo; o que era vida se transforma em inércia, em nada.

Não entendo e acho revoltante; a morte por si só, é uma enorme burrice, uma estupidez colossal.

A vida, sim, é tudo. Desejos, planos, sorte ou azar, amores ou desamores; estar vivo e poder desejar uma rosa ou uma Ferrari, o por do sol no Mosqueiro ou em Bali, isso sim, é o que importa.

Se já era difícil (praticamente impossível) aceitar que inevitavelmente morreremos um dia, o que dizer de quem desiste da vida? De quem desiste de sonhar, de desejar bobagens e coisas improváveis, de acordar amanhã e pensar em tudo que poderia fazer – ou não?

Desistir de um dia enfiado na cama, cortinas fechadas e muita preguiça. De uma manhã ensolarada, caminhando na praia. Desistir de si.

Enquanto alguém desistia, outros foram tragados da vida contra a própria vontade, apesar dos planos para as próximas décadas.

Robin Williams desistiu; Eduardo Campos e mais seis pessoas foram levados pelo acaso ou pelo destino, tanto faz. De qualquer maneira, a morte é estúpida.

Essas tragédias alheias deveriam nos fazer pensar um pouco mais sobre nossas vidas, o quanto de atenção estamos dando a nós mesmos, a cada dia que tivemos a graça de poder viver.

Desperdiçamos tanto com insignificâncias! Brigas inúteis, fofocas, deslealdades. Quanta bobagem!

 

Ô Excelência!

Senhores Candidatos

Honestamente, tinha outra coisa em mente para essa terça.

Pretendia contar as histórias de uma senhora dada a peraltices que sempre se saia muito bem, quando pega “no flagra”. Fica para a próxima, só não vale perguntar quem é e estamos conversados.

Podia falar de uma receita de bolo que vem passando de mães para filhas por mais  de sessenta anos. Fôfo, não é?

Fofuras a parte, como  resistir ao mais hilário e revoltante humorístico dos últimos tempos? O horário político é, sem dúvida, uma pequena amostra do desrespeito da população com ela própria. Quase um “Balança, mas não cai”, programa de rádio que divertia minhas manhãs.

Não. Desculpe. O “Balança” era bem melhor.

Se você é um candidato sério, respeitado, com propostas razoáveis,  essa conversa não é com você; pode voltar lá para o seu comitê (todo candidato tem que ter, pelo menos, seis ) e vá distribuir seus “santinhos”.

Antes de tudo, tenho convicção que legislar exige formação intelectual. Varrer ruas, no Rio de Janeiro, exige as quatro primeiras séries do nível fundamental  e concurso. Trocando em miúdos, Tiririca pode ser deputado federal, mas não tem condições para varrer o sambódromo. Não é um absurdo? Pois é.

Vamos ficar aqui na terrinha, mas não pense que no sul maravilha o nível dos candidatos é melhor. Não é.

Dá até pena constatar como os partidos usam a ingenuidade de uns e a maluquice de outros, para compor seus quadros nas eleições. Você vai  dizer que sou elitista , que esse mosaico representa a população e blá blá blá. Meu bem, que outra função exige conhecimentos tão amplos quanto a do legislador? E vamos lá: quantos desses candidatos, sabe exatamente o que faz um deputado? Uma parcela ínfima, acredite.

Ontem, assisti, constrangida, um senhor prometendo cuidar da “inducação”, da segurança, da casa “pópria”. Outro prometia “mais dinheiro para o trabalhador”. Como assim, Bial?

O deputado cria, emenda e propõe leis, fiscaliza as ações e contas do governo, cria comissões parlamentares de inquéritos ( as famosas CPIs que podem acabar em pizza ou não) e tem outras atribuições. Seria fundamental que os candidatos soubessem um mínimo do que podem ou não prometer. O que querem dizer, exatamente, quando enumeram “educação, saúde, moradia e segurança” como suas metas “prioritárias”.  O que podem fazer a esse respeito?

Poucos , muito poucos, saberiam descrever o “caminho das pedras”. Não fazem ideia do que é a Assembleia Legislativa ou a Câmara Federal. Você pode argumentar o que quiser a respeito da pluralidade e da democracia; legislar exige preparo –  que assessoria nenhuma substitui.

O ignorante precisa ser representado por alguém que tenha maior conhecimento;  nada a ver com  castas ou pobres e ricos, mas sim ignorância e conhecimento. Ignorantes não me representam, mas isso não significa nada, se no interior ou na periferia, o Seu Zé do Açougue ou o Joca da Loja de Tecidos (que imaginam poder empregar a família inteira) têm mais conhecidos dispostos a elegê-los que o meu candidato, que é sério e tem um currículo respeitável.

Os absurdos são tantos que tem candidato prometendo, até, ressuscitar o “Onze Bandeirinhas”, garantindo vencer o Campeonato Nacional , quiçá a Libertadores! Como assim, autoridade? Campeão por projeto de lei, pode?

Os programas eleitorais estão se tornando um acinte. O finado Abdon fez seu humor trash, mas parecia tão inocente quanto um palhaço mambembe, curtindo seus 15 minutos de fama e felicidade, num circo.

Não diminui o ultraje local, mas só para você ter uma ideia da baderna, veja alguns candidatos de outras regiões: Jacky Chan da Motinha, Mão Branca, Kaboco de Ferro, Dengue, Barack Obama (sério!), Paulo da Maçã do Amor, Homem Aranha… Melhor parar, não é?

Ah, antes que esqueça, só para registrar: sonoro treme pernas e bundas aos domingos, é imperdoável. Im-per-do-á-vel, viu pretendente a excelência?

 

O manual

Tive um amigo que sempre falava da falta que faz um manual para entender as mulheres; enquanto outro completava que não existe manual porque nem o fabricante sabe, realmente, o que se pode esperar de uma mulher.

Essa é a única verdade  absoluta: ninguém entende as mulheres – nem elas próprias.

Você nunca sabe exatamente o que responder, ou se deve responder; mas se ela estiver “uma fera”, permaneçam calados. Mas não pode ser um silêncio qualquer; precisa certa veia dramática, uma relação feliz (pelo menos tranquila) exige arte, sensibilidade e talento para fazer parecer o que nem sempre é. Nessas ocasiões em que ela está “nos cascos” o silêncio não pode dar a entender que você a está ignorando, mas a mudez da quase humilhação, aquela que promete que você jamais  dirá ou fará aquilo de novo e que ela tem, sim, razão. Basta não dar chance para ela iniciar uma nova (e longa) discussão.  O que menos importa é a verdade, meu amigo.

Esse amigo revelou-me que, quando escuta a mulherada falando em igualdade de direitos, sente vontade de retrucar, já que eles é que precisam recuperar direitos garantidos desde o nascimento. Eles é que querem igualdade.  Direito a espaço na bancada do banheiro, no closet que sempre é 80% delas, na escolha do cardápio, da cor das paredes… Que privilégios ainda queremos se decidimos praticamente tudo?

Decoração, por exemplo.  Ele reclama não poder dar  “teco”; além de não ser consultado, provavelmente  estaria ultrapassado.

Certa vez, conta-me ele, a esposa escolheu  adesivos para decorar a parede da sala. Passou horas equilibrada num banquinho aplicando o que deveria ser uma árvore seca, com o vento leste levando-lhe as folhas;  um negócio esquisito, que estava em quase todos os consultórios reformados em 2010.   Os galhos e folhas no vendaval pareciam persegui-lo: no restaurante , no barbeiro, em todo lugar havia uma versão mais ou menos feia que aquela, que o assombrava em frente ao sofá, todas as noites.

Ela perguntou-lhe, esperando a resposta que desejava ouvir: “E aí, amor, não ficou lindo?”.

Ele garantiu que estava bonito, mas isso não basta para uma mulher. Durante bom tempo ela voltava ao assunto, que o marido não gostava de nada que ela fazia e blá blá blá. Diz ele que só queria que ela entendesse que uma sala  roxo-cará com um esqueleto de árvore descabelada não era o que esperava ver diariamente. Mas resistiu, bravamente.

Até que semana passada, acordou na madrugada e a encontrou no banquinho, descolando a árvore maldita, folha por folha, com uma pinça de sobrancelhas.  Ela havia trocado móveis pesadíssimos de lugar.  Ele  prefere estar viajando quando ela tem essas crises e muda tudo de um cômodo para o outro. Não sabe quando ou se deve  elogiar; o certo é que é assim que a amada e complicada esposa alivia o estresse e ele respeita, como um bom marido deve fazer.

Disse-me que até gostaria de conversar e minimizar suas aflições, mas nos 20 anos de convivência, aprendeu que ela não quer sua opinião, quer ter certeza que está certa.

É mais fácil deixar que arraste a cristaleira durante a madrugada e, pela manhã, dizer com convicção que ficou ótimo.

Mauro conta que  ficou chateado quando o  “50 tons de cinza” fez sucesso entre as mulheres do nosso círculo. Elas comentavam detalhes, com risinhos comprometedores e olhares sorrateiros. Joca,  gaúcho meio tosco, pegou corda. “Mas como agora parece que todas  gostam de levar “umas tapas”? Bah, guri, podiam ter dito isso há mais tempo…” Na surdina,  leu os três volumes e depois de muito matutar,  revelou sua grande descoberta: se Chystian Gray fosse pobre e brasileiro, a mocinha o teria enquadrado na Lei Maria da Penha. E encerrou o assunto: “ Tanto tempo convivendo com uma, eu tenho mais que obrigação de entender as mulheres”.  Pelo menos um pouquinho.

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