Templos

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Templos

Casas – lares ou refúgios – sempre tiveram significado especial para mim. Nos livros, apreciava ilustrações nos mínimos detalhes… A do Sítio do Pica-pau Amarelo, de João e Maria, da Bruxa Má da Floresta… Não tinha pelas personagens e suas aventuras o interesse que as casas em geral, me despertavam. O tempo passou e me apaixonei pelos chalés de Thomas Kinkade, o pintor americano falecido ano passado, autor do “Fox Glove Cottage”cuja reprodução não canso de olhar… (foto)

Chego à proeza de rever filmes apenas para ver os detalhes de uma casa simpática. Quem resiste ao casarão em ruínas, sendo reconstruído com amor e suor em “Sob o Céu da Toscana”? E que chalezinho maravilhoso o de “O Amor Não Tira Férias”? A linda casa no abismo de “O Fantasma Apaixonado”, deliciosa comédia romântica de 1947?

A sala de Gertrud Stein em “Meia Noite em Paris” também foi encantadora. Voltei ao cinema para ver detalhes.

Palacetes não me encantam; detestei a arquitetura da mansão de “A Casa de Vidro”; já em “Irina Palm”, fiquei curiosa com o predinho suburbano de Londres.

Casa é ninho. É identidade e carapaça; o exoesqueleto que nos protege. Morei em casas e apartamentos  que não me pertenciam e os tratei como se fossem. Arrumei-os, melhorei pisos e instalações, retoquei pinturas e limpei restos das anteriores. A cada mudança, fiz questão de deixar tudo absolutamente limpo, cheiroso e agradável; afinal, aquelas paredes haviam acolhido a mim, minha família e minhas emoções – e isso bastava. E paredes falam; bem ou mal…

Nem sempre as pessoas cuidam do seu refúgio. Certa vez, fui visitar alguém que não via há muito tempo e percebi que ela devia estar mal consigo mesma. Roupas amontoadas nos encostos das cadeiras, pilhas de caixas de uma mudança ocorrida há pelo menos quatro anos e, num canto, uma árvore de natal desbotada jazia com lampadinhas e bolas empoeiradas… E era agosto.

Minha amiga estava como todo o resto, precisando de cuidado. O cabelo sem corte, a tintura adiada aparecendo nas raízes alvas… O semblante pesado, a ausência daquela alegria que vem da alma; tudo nela lembrava a parede encardida onde um quadro esmaecido permanecia torto, sabe-se lá desde quando.

Casas e pessoas precisam não só de higiene, mas de carinho e alegria. Vida.

Também não consigo imaginar como se pode viver sem plantas para regar. Sem alguns vasinhos para lembrar, a cada broto, que a vida está seguindo – e pode ser maravilhosa, inclusive na simplicidade. Adoro a surpresa de uma nova flor.

Cuidar do casulo não é questão de capricho e sim de auto- estima. Minha casa (ainda) sou eu.

Não passo dedo nos móveis, pois quem procura, acha. Poeira, inclusive. Mas não sei viver – ou trabalhar – sem harmonia e aconchego; bagunça e desleixo seria um castigo!

Dizem que sou fanática por reformas. Não chego a tanto, mas gosto. Recentemente acabamos – Verena, Natália e eu – mais uma. O antigo apartamento dos meus pais ressurgiu lindo, limpo, iluminado e alegre. Exatamente como nossas recordações. Agora sim, outra família poderá ser feliz como fomos um dia.

O que parece exagero é vocação: recuperar coisas, tentar torná-las um pouco mais acolhedoras…

Mansões? Não. Definitivamente apartamentos ou simples casinhas, que abraçam feito útero; templos onde nada ruim deveria nos acontecer.

Casas vibram na frequencia de quem as transforma em lar – ou não. Adoro perceber o que cada uma tem de melhor para abrigar gente feliz, de bem com a vida e com suas moradas.

Tive um amigo que repetia, brincando, “Assim como são as pessoas, são as criaturas.” O certo – e sem piada – seria “Assim como são as pessoas, são suas casas.”

Repare e depois me conte. Bom dia!

 

 

Marombeira

 

“Você tem um rosto tão lindo… Por que não malha?”… Pois é. O que se pode dizer para uma criatura que acha, no meio de uma tarde ensolarada em você estava até com a “pele boa” (e como!) que pode dizer-lhe o que fazer? Melhor rir, para não matar. Tive vontade de perguntar por que não mandava retirar aquele sinal horrendo, que parecia uma mosca. Mas não. Por obra do Divino Espírito Santo, engoli em seco e sorri… Deus proverá… Deus proverá inclusive uma generosa dose de paciência.

O pior é que SEI que deveria ter uma atividade física constante, mas não resisto às loucuras que podem acontecer numa academia. Desde que entro, só penso em sumir dali… Antes que comece a gostar.

Para começar, onde estão os gorduchos e sedentários como eu?  A coisa mais difícil é encontrar com quem se possa ter alguma empatia, que possa avaliar quanto de coragem uma academia me exige! Querem saber? Foi mais fácil estar no palco com “As Gatosas”, com tanta gente me olhando, do que ficar com aquele cartão (que não enxergo) nas mãos, procurando o que é um… Só reconheci a piscina com cabelos e a esteira que, por obra de Santa Rita, ficava bem ao lado da TV. Com sorte (e se eu não caísse) poderia tentar ler os lábios da Fátima Bernardes, que ótimo!

As tribos das academias são material interessantíssimo para qualquer antropólogo. Ou psiquiatra.

Algumas jovens passam direto para o vestiário, onde retocam maquiagem e perfume, ui. (Hã?). Uma, tirou uma “pocket-chapinha” da mochila e esticou a franja, mais uma vez, antes de ir pular na mini-cama elástica, silicones para cima e para baixo, ufa!

E que diabos são essas meias de lã, esticadas? Já sei, precisam aquecer os gambitos, mas a verdade é que as moças adoram tudo que pareça fetiche.

Dois grupos disputam espaço: os que querem malhar, mesmo; e os que vão socializar – muuuito. Daí a fila do supino cresceu, a extensora ficou engarrafada e eu, tola, fiz um “pit-stop” na lanchonete, onde quase tudo tem gosto de papelão e a conversa… O papo não tinha nada a ver comigo, mal entendi algumas palavras do “fitguês”. Senti-me perdida num planeta hostil.

Outras famílias, digamos assim, dão ares de suas graças. Há as que capricham na “fit fashion”, tudo combinando, calcinha-enfiada-você-sabe-onde com estampa todo-mundo pode-ver-do-quê, tênis com DNA, RG e prontuário. E cabelão, solto; dá para acreditar? No outro extremo, “fashion killers” malhando com abadá laranja desespero, de 2007.

(Ei, moço! Seu suor está chuviscando em mim!)

Muitas parecem gostar tanto, mas tanto de academia, que passam o dia inteiro naquele uniforme; vão ao banco, fazem compras, buscam crianças na escola, que coisa! Imagino que não tenham aroma agradável, enfim.

Não podemos esquecer os coroas divorciados, com camiseta “mamãe sou forte”, deixando rastro adocicado de colônia pós barba. Perdoai-os, Senhor; eles não sabem o que fazem!

(Olha aí que você não passou álcool direito nesse leg-press!)

Um grito de “uhuuu- ahaaa” quase me fez cair daquele troço onde a instrutora achava que eu conseguiria subir e descer, trocando pés, meia volta, pancadinha no quadril, mãos atrás da nuca, tudo isso ao mesmo tempo, acompanhando a J.Lô! Tenha juízo, minha senhora!

Da próxima vez que alguém insinuar que devo preferir refrigerantes cheios de aspartame e outros venenos, que é hora de começar a malhar e que existe vida inteligente nas academias… Vou concordar! É verdade, sim!

Eu é que desaprendi a coordenar pernas e pulinhos; mas já estou à procura de academia onde existam alças de segurança, os aparelhos tenham nomes legíveis (grandes, percebe?), o som não seja tão alto…

“SPão” de Santo Antonio?… Olha o respeito, moleque!

 

 

 

Salve, simpatia!

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Salve, simpatia!

Sabe aquela pessoa que ignora seus cumprimentos e permanece olhando o display dos andares do elevador, como se este, de alguma forma, fizesse trajeto diferente? Pois é.

Sabe aquela senhora com quem você cruza no corredor, incapaz de retribuir aos seus “bons dias”? Então.

Recentemente uma pesquisa concluiu que esse tipo de gente é o que mais precisa de esforços para conseguir sucesso pessoal. Como se a gente já não soubesse, não é mesmo?

Outro dia ouvi uma pessoa vangloriar-se de não precisar – e não querer – ser “simpática”. “Coisa de incompetentes!” concluiu, equivocada.

Uma das qualidades mais valorizadas no restrito mercado dos bem sucedidos é a simpatia. Em MBAs, um dos conselhos para quem pretende chegar a CEO de alguma grande empresa, é ser simpático – sempre e para sempre. Quem não nasceu assim, aprende; da mesma forma que se aprende boas maneiras, português (pelo amor de Deus), inglês, música, informática… Sim, simpatia é uma arte.

Alguns abençoados por Deus e pela natureza (como a saudosa Zilda Arns) nasceram com um jeito especial de tratar os outros e se tornarem bem vindos, onde quer que seja. Outros, espertos, aprendem com esses e com especialistas. Finalmente (e infelizmente) existem os que parecem nem perceber o quanto são… ásperos. José Serra é o tipo que pede voto no mesmo tom com que passa um pito. Em algumas ocasiões, conheci a antipatia do então Ministro da Saúde, cujo mau humor e carranca eram famosos. Era um alívio quando partia, enfim. (Talvez explique alguma coisa; enfim de novo.)

Na prática, faz diferença ser simpático? Muita! Primeiro, os simpáticos conseguem tudo, inclusive ajuda, com menos esforço que os toscos, digamos assim. Não é ótimo?

Está comprovado que líderes simpáticos conseguem desenvolver outra qualidade fundamental na gestão de pessoas: empatia. Em suma, chefes agradáveis se colocam mais facilmente no lugar dos demais.

Até num momento difícil, (se você conseguir se controlar) a simpatia lhe será útil. Se for impossível, ajudará no pedido de desculpas.

Empresas consideradas “as mais simpáticas do ramo” têm em comum o hábito de “enxergar e ouvir” o cliente na venda e manter pós vendas atenciosos – a isso se chama “atender”, algo muito mais difícil que vender, mas que fideliza, realmente, o cliente. Quem não gosta de simpatia?

Durante alguns anos, participei de trabalho muito interessante com servidores de um banco local. Um dos nossos melhores momentos foi “aprender a ser simpático”- sem ser artificial ou chato, afinal, para tudo se tem medida, inclusive para a simpatia. ( “Puxassaquice” é outra coisa, argh!)

Primeiro, enxergue (de fato) as pessoas em sua volta. Cumprimente a todos; “bom dia!” não custa nada e rende muito. Faça disso um hábito e insista com resistentes. “Todos” quer dizer to-dos: porteiro, guarda, sua empregada e a do vizinho que está no elevador. O cara com quem você cruza no corredor da repartição todos os dias. Bom dia!

Uma das primeiras palavras que o ser humano escuta é o próprio nome, por isso memorizá-los é muito, muito importante. Pelo menos daqueles com quem se relaciona; repita seus nomes durante a conversa, escreva-os nos bilhetinhos… Como você, todo mundo adora ouvir o próprio nome… Num tom agradável, é o céu!

Não se furte a elogiar o que lhe agrada, de fato. Seja um corte de cabelo, uma pasta, um parecer… Todos têm algo bom a ser notado, mas o mundo parece insistir no negativo, já notou?

Tente ouvir, mais que falar. Um bom ouvinte é sempre bem vindo.

E nunca (nunca, ouviu bem?) “derrube” quem quer que seja onde este convive e pode ouvir – ou ficar sabendo. Já passei por isso e foi horrível ouvir a pessoa falando de mim (sem me conhecer!) sem perceber que eu estava presente; os outros, pálidos e atônitos…

Horrível, imperdoável e inesquecível.

Boas empregadas e bons patrões.

Legal: Boas empregadas e bons patrões.

 

A semana correu sob o impacto da aprovação da emenda constitucional que amplia direitos de uma categoria da qual dependemos desde sempre: as domésticas. Eu dependo, assumida e feliz. Dou emprego – bom – a duas pessoas, ambas registradas, com todos os direitos respeitados. Elas têm plano de saúde, uma está conosco há 18 anos e não – vamos deixar de hipocrisia! – não são “como se fossem” da família – ou seriam minhas herdeiras. São boas empregadas que têm bons patrões- simples relação de emprego – e troca. As manchetes apresentaram a grande ameaça para brasileiros que (ainda) não sabem cuidar da própria casa, como se manter uma doméstica fosse um luxo (ou crime) absurdo, uma ocupação desumana… Quantas famílias são mantidas com o trabalho – duro, é verdade – de domésticas? A economia é azeitada com esses salários que chegam ao mercado, pagando parcelas em todo tipo de comércio. O que revolta é que ainda tem quem as explore, exigindo jornadas sem folgas (ou que são cumpridas carregando pimpolhos o domingo inteiro). Carteira assinada, então, é ficção. (O pior é que a maioria tem dinheiro… Mas como dizia um amigo, um dia “o pau te acha”!) Voltando ao pacote… Partindo do princípio que você registra sua fiel escudeira e paga tudo direitinho; francamente, R$54,24 para o Fundo de Garantia, fará diferença no seu orçamento? Quanto a gente gasta num almocinho básico, no shopping? Pois é. (Se fizer diferença, melhor encarar a situação e procurar outra solução, não acha?) O que não nos faz tanta falta, pode significar um alento, no momento em que uma doméstica fica desempregada, já que, convenhamos, é impossível guardar “algum”, com um salário desses. A PEC das Empregadas é um avanço social enorme ( que deve se ajustada à realidade, para que as que dormem no emprego não sejam dispensadas!) e veio trazer para essa relação algo que já existe em nossos trabalhos: regras. Para nós e para elas, pois é salutar ter hora para entrar e sair. Se você tem, por que não ela, que torna possível sua carreira? Apesar da trabalheira inicial – toda mudança é traumatizante – logo estaremos adaptadas ao fato de que nossa casa é, na verdade, uma empresa familiar que não deve causar prejuízos. O livro de ponto, com entrada, descanso do almoço e saída, vai fazer parte do dia delas, exatamente como a maioria de nós, que “bate ponto”. As que faltam constantemente, verão o emprego de outra maneira. Em casa, optamos por 44 horas semanais divididas de segunda a sábado. Nesse caso, só podem trabalhar sete horas e vinte minutos ao dia, mais uma hora para refeição. Conclusão? Elas trabalhavam menos, antes da lei – que agora nos obriga a respeitar pelo menos uma hora de descanso. Aliás, sobre essa pausa, não há discussão, nós e elas temos que cumprir e estamos conversadas. Passado o trauma, haverá uma reorganização no setor. Mantendo a franqueza, a única coisa que acho injusta – mesmo – é a multa na demissão sem justa causa, no caso, 40% do valor depositado no FGTS, ou seja, R$260,35 a cada ano (a multa). Sabe-se que nem sempre é possível manter uma empregada… Como será essa justa causa? Justa para quem? Falta grave, atrasos, enfim, quem consegue caracterizar justa causa, a não ser com polícia no meio? E se o patrão perder o emprego? Não é uma causa mais que justa? A hora extra (R$3,10 para salário mínimo, diurna) é justa. Para não pagar demais, basta adequar a jornada e compensar. A noite, acrescenta-se o adicional noturno e, ainda assim, acredite, vai sair mais barato que a velha e boa gratificação. E você, amiga, queria uma babá pro netinho , acordando a noite inteira…de graça? Cuida você, do pimpolho! Bem… Esse é preço, não é mesmo? Mantenha uma poupancinha para quando chegar o dia (e ele chegará!) em que você sabe que precisa desse divórcio (sim!), ainda que assuste começar (ensinar) tudo de novo. Você sabe como é. P.S. Dona Dilma, só falta o SUS funcionar para atendê-las. Que tal?

Conto de Fadosas – as madrinhas das gatosas

Conto de Fadosas (madrinhas de gatosas)

Paixões são sempre assim, ensandecidas e deliciosas; por que haveria de ser diferente com ela?

Estava chegando àquela fase em que tudo na vida é conforto – amores, inclusive. Faltava pouco para aposentar-se – o que faria das oito às dezoito, depois de trinta e cinco anos? – as roupas eram macias e os programas passeavam entre teatro, cinema, shopping e restaurantes. (Muitos restaurantes, aliás.) E, claro, o primeiro e único neto, capaz de fazê-la voar até a Disney duas vezes em menos de dois anos. Os sessenta chegavam e ela vivia essa felicidade feita de liganete e calçados Usaflex: nada de imprevistos, nenhum frio no estômago; uma rotina confortável e quase santa. Quase.

Quem respira ainda não está morto e nossa amiga estava vivíssima algumas camadas abaixo dos tailleurs maravilhosos que traficava de Miami e que a faziam parecer uma elegante jovem senhora – deixando uma possibilidade remota de… Ah, isso ela nem comentava, mas era uma tentação.

Naquela temporada muita coisa mudou, aliás, o mais importante é que havia sido “colocada à disposição”, essa expressão horrorosa que significava mudanças e incertezas, justamente quando tudo estava em seu lugar, previsível e… Chato. Renovou o guarda roupa, passou uns dias no Leblon (viu João Carlos? Le-blon!) onde adquiriu um bronzeado maravilhoso e abandonou o Chanel retão e ultrapassado. Nenhuma mulher deveria morrer sem experimentar ser loura, pensou… Sol é assim, tosta a pele e os miolos, faz com que a gente se sinta mais jovem… E capaz. Capaz de ousar cabelos curtos, um louro quase “Leona”, unhas dos pés esmaltas em azul pavão, uma pequena estrela tatuada no pulso, um chope no Zazá e… Suprema ousadia: sentir-se viva e querendo mais. Mas essa revolução tinha lá uma razão nada romântica, acondicionada em sachets que deveria passar sobre a pele, todos os dias. Quem conhece, sabe; hormônios e sol, uau!  Se as mulheres soubessem o poder que emanam quando “se sentem”, menos solitárias passariam as noites acompanhando aquele “reality” que envergonha qualquer um. Uma pena que poucas saibam que as poderosas convictas são sempre sedutoras.

Nossa amiga prestou atenção num antigo colega que a achava encantadora. Fazia tempo que não se falava em encantos e tudo era fugaz, bastava ficar. (O que lhe seria mais conveniente.)

Quando as conversas evoluíram e os toques eram mais que simples resvalar de dedos, ela se viu diante de uma situação que seu senso absurdamente crítico não perdoaria: Como? Como aparecer sem as vestes sobrepostas, sem o colant segurando-lhe as carnes abundantes? Como ser, sob luzes inesperadas, aquela  que ela só via de olhos bem fechados?

Já tinha ouvido falar no vidro que mostrava o banho como atração extra, no tamanho de toalhas que nada escondiam e espelhos que haveriam de mostrar-lhe (e ao seu “ficante”) aquilo que não queria ver – quanto mais exibir…

Foram dias e noites de angústia e o frio no estômago deu lugar ao calor que a fazia suar, cada vez que pensava que ele, o tal, aguardava uma resposta, uma data, um lugar.

Fantasias são maravilhosas, desde que não se tente realizá-las. Guardou os sachets, esqueceu-se do sol e decidiu que tudo não passava de delírio. Seu encontro maravilhoso e perfeito – sob iluminação adequada, com o figurino ideal e névoas de filme francês – habitariam apenas os sonhos. As Pontes de Madisson eram ficção e na vida real, ela ainda iria trabalhar todos os dias durante anos, até que aposentaria o trabalho e os tailleurs, para usar seus feiosos conjuntinhos e sapatos confortáveis, sem lembrar que no fundo – bem no fundo- uma outra, sedutora, dormitava a modorra da alma… Até quando?

 

Como abelhas rainhas . (Ou O homem que não entendia as mulheres)

Como abelhas rainhas (Ou o homem que não entendia as mulheres)

Quando ela apertou-lhe a mão suada, ele pensou… “Agora me deu medo”- e lamentou não estar num bar, num lugar qualquer onde elas não estivessem para vê-lo corar… Lembrou-se do pai e a imaginação levou-o ao Marajó, terra das melhores férias de sua vida… Saíam cedo, calçando galochas, com garruchas a tiracolo. O pai o permitia acreditar que caçavam num brejo distante. Na verdade, estavam a dez minutos da casa grande, ao alcance dos velhos binóculos da mãe, abatendo alguns marrecos para o almoço. Programa de homens, ela dizia.

Anos depois, o grupo de estudantes se reunia num barzinho “pé sujo” para falar de futebol e de mulheres, em especial, daquelas que jamais teriam. Riam, tomavam algumas a mais e relaxavam, longe das meninas que povoavam suas fantasias. Programa de homens. De quase.

O tempo passou e os tais programas de homens -pelo menos só destes- ficavam cada vez mais raros. Elas, as mulheres, estavam em todo lugar, uma epidemia ruidosa. Apareciam do nada, inclusive no barzinho “pé de chinelo”, no Mangueirão – uma até era árbitro, com cartão vermelho na mão, encarando o artilheiro… Na oficina, outrora reduto masculino, elas chegaram e a graxa, as revistas de mulheres peladas, os pôsteres da Rose Di Primo (que desafiavam o tempo há décadas) e os palavrões, deram lugar a uma sala envidraçada, com ar condicionado, cafeteira e revistas de fofocas. Elas mudam tudo, reclamava.

Não é que não gostasse de mulheres. Gostava e muito, mas sentia falta de alguns momentos longe delas – e da aflição que lhe causavam desde sempre.

Você já foi olhado, “olho no olho”, por uma mulher que lhe devote real interesse? Eram feixes invisíveis ligando um ao outro, permitindo que ela – e somente ela- conseguisse ouvir-lhe pensamentos e descobrir segredos mais recônditos. Ele tinha certeza que ela o queria; as pernas bambeavam, mas um alarme o avisava que poderia não ser bem assim. Depois dessa olhada íntima, desse momento quase carnal, ela poderia simplesmente sorrir e partir, deixando-o sem entender, mais uma vez, como  pensam esses seres encantadores que o deixavam, sempre, sem ação.

Ele precisava estar longe delas de vez em quando.

Após a pelada de sábado (o jogo de pernas de pau, bem entendido), os marmanjos se reuniam para tomar cerveja, contar mentiras, falar palavrões e arrotar, sem que ouvissem reprimenda da mulher amada. Era um oásis, praticamente uma trincheira que os protegia. Até que um deles, justamente o melhor zagueiro, apareceu com uma lourinha de metro e meio, cheio de salamaleques e mesuras. Pronto, acabou-se o que era doce – havia mais um apaixonado – e logo a loirinha estaria levando lanchinho, algumas amigas, e o assunto seria o Facebook – que sina.

Quando simpatizou com a Maçonaria, nem de longe imaginou o quanto teria que estudar até chegar ao Grau 33. Estava satisfeitíssimo. Era membro de uma irmandade tipicamente masculina, onde jamais sentiria aquela insegurança ao falar (será que estou agradando?) ou andar (será que minha roupa está bem?) que o abatia quando se sentia exposto e vulnerável àquele olhar que tanto prometia e nada entregava.

Foi quando a jovem deu-lhe três toques suaves com o indicador na mão nervosa e suada que ele oferecia timidamente, que levantou os olhos desarmados. Como assim, perguntou-se. Como? E eles, os olhos dela, o invadiram, só Deus sabe como. Pediu ao Arquiteto do Universo que ela não sorrisse e jogasse o cabelão para trás, despedindo-se… Que lhe desse, pelo menos, cinco segundos para respirar e dizer qualquer coisa que a fizesse ficar mais um pouco. Sem saber como, conseguiu reunir coragem e balbuciar… “Janta comigo?”

 

 

Um pouco de perfume…

 

O domingo está acabando; lá fora, a chuvinha faz coro e embala uma Belém sonolenta e quase silenciosa. Dou uma última olhada no noticiário. Aqui e ali, mulheres são personagens de vitórias, dramas, conquistas, tragédias pessoais… Entre tantas, a certeza maior é que a mulher (ainda) é muito agredida pelo homem que ama – ou pensava amar.

Fico imaginando o que escrever sobre esse Dia Internacional cuja melhor comemoração é lembrar a todos, em especial às mulheres que vivem felizes e satisfeitas, que em algum lugar, outras estão passando por sofrimentos que poderiam ser menos comuns se falássemos dessa nódoa sem pudores. Com a mesma franqueza com que uma atriz revelou “não ter ninguém” há 24 anos, por ter sido surrada pelo marido com tamanha frequência e violência, que, além de nariz, perna e braços fraturados, perdeu três dos filhos que gestou. Certas coisas a gente não devia disfarçar ou fingir que não percebe… Talvez por isso mesmo, o novo mote da Lei Maria da Penha é “em briga de marido e mulher, agora se mete a colher.”

O tempo passa e homens continuam batendo em “suas” mulheres.  Mais frequentemente nas classes menos favorecidas, é verdade. A combinação de temperamento violento, miséria, falta de perspectivas e algumas doses de álcool, colocam a mulher – tida como coisa – na mira de punhos covardes… E na segunda feira, elas saem para trabalhar cabisbaixas, envergonhadas, disfarçando hematomas no rosto e na alma, sem entender o que se comemora dia oito de março… Mas não se engane; pessoas que têm vida economicamente confortável e, pasme, intelectualmente diferenciadas, também estão passando por isso, nesse exato momento. Em comum, o álcool pode ser identificado como o libertador dessas personalidades violentas e covardes. O trânsito, a raiva contida, a arrogância, a impunidade, o ciúme exagerado, os complexos jamais revelados… Enfim, qualquer coisa pode desencadear a ira de quem quer só uma desculpa para a própria insanidade.

Lembro que alguém disse que “mulher só apanha se quiser”. Não é bem assim. Tente se colocar no lugar da mãe de alguns filhos – potenciais vítimas dos mesmos abusos – sem meios para partir e  levá-los consigo. O pavor de abandoná-los à sorte previsível e certa; a falta de apoio de quem acha que “isso passa”.

Não, definitivamente não é bem assim. Muitas reúnem o que lhes resta de dignidade e forças e arrastam-se, procurando abrigo sob as tendas da lei. Chegam praticamente sem nada, sequer uma idéia de como reiniciar a vida por suas próprias contas e riscos – cada qual com seu quinhão de tragédia.

O que podemos esperar do Dia Internacional da Mulher, além do carinho dos colegas, de comemorações oficiais e, quem sabe, um abraço dos familiares? O que muda nessa realidade?

Quem sabe se a gente tentasse transformar em hábito, alguma das muitas campanhas que são lançadas em prol dessas mulheres a quem a sorte parece ter abandonado? Indignar-se com crimes cometidos na Índia ou em Ananindeua, acreditar que um gesto pequeno de cada um pode ajudar muito. E convenhamos, “fazer a diferença” é tão simples! Existem várias instituições que recebem donativos para diversas ações em prol da mulher carente e seus dependentes; basta acrescentar em suas compras, todos os meses,  um único item a mais – sabonete, creme dental, absorventes, qualquer coisa – custa quase nada, mas fará muita diferença para quem precisa  – e mais ainda para sua alma.

Dar um pouco é uma forma de agradecer o que se têm, diz a velha canção. Quantos, dos que a entoam todos os domingos, têm dado a quem nada tem? Honestamente?  Você sabe.

(Maiores informações sobre campanhas, escreva para veracascaes@gmail.com)

 

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