A última D.R.

A última DR

Vigésimo quinto réveillon juntos. Quem poderia imaginar o que sentem, na verdade? Ninguém. Nem mesmo vocês conseguem falar sobre esse poço de mágoas que só aumenta.

Como os vinhos, pelo menos os bons, os casamentos deveriam melhorar com o tempo. Mas o amor só amadurece sem se transformar em ódio quando permite nascer a mais leal das amizades. Parceiros que, mais que amantes, se transformam nos melhores amigos que se pode ter. Casais que conversam demorada e francamente sobre tudo, que têm os mesmos interesses e fazem coisas juntos, inclusive um bom sexo. (Bom para os dois.) Que respeitam as pequenas ausências e torcem um pelo outro. E nem são, via de regra, parecidos. O tímido doutor que faz qualquer coisa pela esposa atleta. A workaholik que compreende o marido quieto, afeito à leitura e à boa prosa. A esposa ativa que aguarda o marido gourmet preparar sua mais recente criação. Ou o casal que viaja pelo mundo esbanjando cumplicidade. Isso é muito mais que amor ou paixão, que geralmente acaba mal. Esses, a gente reconhece e inveja; amadureceram como os bons vinhos. Outros, não servem sequer para temperar um assado ordinário.  O azedume se espalha no ar, deixando o clima deprimente. Casais que nem se falam, que não se olham “nos olhos”, que podem até fazer aquele sexo insosso e datado, compromisso para fingir que o casamento existe, mas no fundo, anseiam a ausência um do outro.

Se existe fidelidade, é cega e obrigatória; não há a lealdade, a tietagem, a alegria pelo outro existir, simplesmente.

Francamente, é muito difícil reanimar um casamento nesse estado vegetativo. Em vez de ciúme, quase alívio. Não há companheirismo, nada é realizado efetivamente a dois. Ele vai aos compromissos com a esposa para evitar falação. Ela, nem isso. Mulheres conseguem dizer “não vou, não estou a fim, pode ir nos representando” quando lhe convém. Homens aceitam, além de não terem outra saída, a possibilidade de alguns momentos “desavec”, como diria um amigo, é uma tentação. Poderão estacionar em qualquer lugar sem preocupação com saltos altos. Não precisarão procurar uma mesa “em evidência”e poderão juntar-se aos avulsos e falar de futebol, da Dilma ou das gostosas da vez, tanto faz. Poderão afrouxar as gravatas e guarda-las no bolso, enquanto cumprimentam velhas conhecidas sem ter que responder um interrogatório. Não serão obrigados a dançar La Bamba nem Anita.

O mais triste é perceber que seu casamento está a um passo dessa realidade. Que a vida está cada vez menos risível e o mais interessante raramente inclui o cônjuge.

E por que diabos vocês não se separam?

Porque dá muito trabalho.

Primeiro, alguém tem que propor e aí a coisa complica. Poucos aceitam, mesmo aflitos pela solteirice, que o parceiro tome a iniciativa.

Segundo, quem vai para onde? Tem a partilha e os rendimentos. Tem os filhos e os netos. Tem o cachorro.

Os carros. A casa de Salinas. Ah, e o casamento da caçula, daqui dois anos? Tem a pensão, que ele jamais vai querer pagar. Finalmente, a viagem marcada com outros dois casais há mais de um ano. O que se diz numa hora dessas?

Divórcio é como parto, exige certa preparação. E isso é praticamente impossível. Ou acontece algo para resolver a parada ou as coisas se arrastarão até que dois inimigos acabem indo a festinhas, à missa e aos velórios dos amigos.

Quando os fogos estouraram, ela fechou os olhos pedindo  que algum milagre os transformasse nos apaixonados de vinte e cinco anos atrás. Era genuína a vontade de conseguir amar novamente aquele homem por quem já foi capaz de qualquer coisa. Queria se sentir amada novamente.

Há quantos anos não se beijavam como naqueles tempos em que podia sentir sua língua fazendo cócegas no céu da boca? Tanto que já nem sabia ao certo.

Abriu os olhos. Ele estava conferindo o whats app. Abraçou-o e ofereceu-se para um beijoardente que tanto desejava e  ganhou uma bitoca e um abraço com tapinhas nas costas.

-Vamos? Já está tarde…

Tarde? Lembrou-se quando o réveillon acabava em divertidos cafés com amigos amontoados na cozinha…

Por Deus, ela queria voltar ao passado, queria muito as bobagens que havia perdido em algumas das curvas que a gente ultrapassa e nem vê.

Quando ele adormeceu virado para o outro lado, teve vontade de abraça-lo, de dizer que o amava, que queria ser amada, abraçada, beijada. Que queria voltar a jogar mau-mau com os amigos,  comer cachorro quente depois do cinema… (Há quanto tempo não assistiam a um filme?).

Teve vontade de pedir-lhe socorro.Tocou-o de leve e ele resmungou alguma coisa como “vai dormir”; ela encolheu-se, engoliu um Rivotril, abraçou o travesseiro e imaginou estar nos braços de um homem que lhe fazia juras de amor.

Quando acordou ele já havia saído, droga de Rivotril.

Ao tomar o café, ela imaginou por quanto tempo mais poderia adiar aquela conversa. Do jeito que estava, não dava mais. Quem sabe dessa vez ele a entendesse, em vez de dizer que ela deveria procurar “alguma coisa com que se ocupar”.

Precisava organizar as ideias e não sabia com quem falar. A terapeuta era conhecida por convencer mulheres ao divórcio, mesmo as que não tinham a menor condição de sobreviver. A mãe, diria que era tudo culpa dela, como sempre. Os filhos… Filhos querem que a gente deixe tudo “pra lá”. “Isso passa, mãe”, disse o mais velho. “É uma fase”, arrematou o caçula. Seu melhor confidente era Boris, o cabeleireiro que, ao contrário do que se podia esperar, é fidelíssimo às amigas. E tantas vezes ele já a havia aconselhado a abrir o coração… Falar dos seus sentimentos, tentar fazer o marido entender que ambos precisavam ser felizes, antes que fosse tarde demais.

Preparou-se para a conversa. Que a Deus abençoasse aquela última tentativa. Só para garantir, daria uma passadinha no Boris.

Junho

(Belém, 01 de junho de 2015)

Junho

Enquanto tento enxergar a linha “invisível” para costurar dezenas de laços nas pequenas saias de babados, minha imaginação voa, visitando algumas das festas de S. João da minha infância.
Sempre amei o mês de Junho. Nossa casa exalava o aroma do mungunzá, o leite de coco inebriante. O bolo de macaxeira era anunciado por outro perfume que me despertava imediatamente. Adoro bolo quente, recém-saído do forno… Meus olhos marejam com tanta saudade.
Moramos muitos anos ao lado da Tia Carmélia, irmã do meu pai. Crescemos como uma família única, que aumentava com a família de minha mãe. No dia de S. João, na Dr. Moraes, todos colocavam mesas e cadeiras nas calçadas – e muitos quitutes. Havia uma tímida fogueira, bandeirinhas, bombinhas, estalinhos. Podíamos experimentar as delícias sem constrangimento.
Definitivamente, em Junho eu era totalmente feliz.
Na escola, me esforçava para não dar vexame na coreografia da quadrilha. Hoje percebo a razão de ter sempre mais amigos meninos que meninas. Eu era (desde sempre) a gorducha da turma, mas por alguma razão, entre eles isso não era problema. Eu era quase um deles. E me sentia acolhida.
Enquanto fardas e vestidos estavam sempre impecavelmente engomados, os meus eram meio amassados; em vez de sapatos com saltinhos disfarçados, preferia o Bamba cano alto. Por pouco tempo tive cabelos longos, o “Joãozinho” me caía bem, por conta das “danações”. Mas em junho, não. Eu ganhava as duas trancinhas mirradas de um chapéu que passava o resto do ano no fundo do armário. O vestido era enfeitado com retalhos, bordado inglês e laçarotes e eu me sentia o máximo, mas nunca o suficiente para candidatar-me ao “Miss Caipira” – que tinha sempre as mesmas concorrentes: as cinco meninas mais lindas da escola. Como sonhei com aqueles votos vendidos!
Penduro os dois pequenos vestidos e penso que elas serão duas princesas, exatamente como sentia-me naqueles dias em que a saia farfalhava e eu podia rodar, rodar…
As festas que mais deixaram saudade foram promovidas pela “Turma”. Colegas de meu pai reuniam-se em animados encontros, todos os meses. (Quem ainda faz isso?) e por três ocasiões incluíam os filhos: Dia das Crianças e Natal (no Jardim de Alah, na casa do Dr. Canuto Brandão), e na festa Junina, no sítio do Dr. Rainero Maroja, na Br.
Lembro de uma, muito especial. Enquanto nossos pais divertiam-se com a dupla dos Drs. Libório e Canuto, crianças e adolescentes brincavam no fundo do quintal, próximo à fogueira e a um muro, que constituíam nossos limites. Eu não era nem uma coisa nem outra, e tentava entrosar-me.
Lá pelas tantas, joguei-me na grama e olhei aquele céu, velho companheiro das noites do Marajó. Um azul intenso, nenhuma nuvem e a lua, majestosa, prateava tudo, inclusive nossos rostos. As estrelas pareciam ter vindo espiar.
Pela primeira vez, agradeci a Deus por estar viva, o peito estufado de tanta felicidade. Levantei-me, ajeitei saias e anáguas para que a grama soltasse e corri para a fogueira, onde esperava saltar e realizar o meu pedido.
Coloco os dois vestidos das minhas netas lado a lado. Ficaram lindos, perfeitos para que comecem a amar esse mês tão especial.
Quem sabe, um dia, possam olhar o céu e agradecer tamanha felicidade. Tanta que quase dói. Tanta que dá para dividir e sobrar um bom bocado.

“Olha pro céu meu amor
Veja como ele está lindo
Olha pra’quele balão multicor
Que lá no céu vai sumindo

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O teu coração
O céu estava
Todinho em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o seu olhar
Que incendiou meu coração.”

(Olha Pro Céu Meu Amor

José Fernandes e Luiz Gonzaga)

Canção para Fernanda

(Belém, 6 de julho de 2015)

Canção para Fernanda

Pense em água e vinho. Inverno e verão.
Assim somos Fernanda e eu, absolutamente diferentes, mas complementares em tudo.
Vimo-nos as primeiras vezes no Curso de Odontologia, no prédio da Praça Batista Campos. Apesar da simpatia, habitávamos planetas diferentes. Eu vivia a juventude com estardalhaço, ela era centrada e parecia responsável demais, com seus jalecos brancos e muitas apostilhas. Não se assuste, era 1978 e eu achava que teria 20 a vida inteira.
Mas Fernanda, não. Sonhava ser dentista e levava tudo a sério. Eu não sabia o que gostaria de fazer daí um ano e não me concentrava em quase nada. Era muita animação na Belém dos Bailes do Tigre e do Havaí, dos réveillons da “Apê”.
Passei uma temporada em São Paulo e perdemos o contato. Ambas com diploma, ela usando o dela num consultório, eu procurando novos caminhos. O tempo passou até que em meados de 1995 (é meu bem, sou antiga!) a reencontrei para sempre.
Fernanda era odontóloga da Sespa (Secretaria de Estado de Saúde) e eu, assessora na área de cerimonial e comunicação.
Tratávamos da implantação do programa Qualidade Total e, com a simplicidade que é sua característica, explicou-me que não podia mais clinicar por conta da cirurgia para vencer um câncer bilateral de mamas. Foi demitida anos depois por não poder atuar na profissão, apesar da dedicação aos gabinetes que se sucediam. A dentista não podia usar os braços como tal e, mesmo sabendo disso, mandaram-na embora. Enfim.
“Deus preferiu que eu mudasse meus planos.”
Com essa resignação que só seres superiores têm, Fernanda enfrentava idas e vindas que a colocavam à prova, sem duvidar da justiça divina.
Ficara viúva com dois filhos muito cedo e, depois, mãe solteira de mais uma menina. Lutava com uma dignidade capaz de me nocautear.
Viramos colegas de trabalho por alguns anos, mas a amizade tinha o selo da qualidade e da longevidade. Podíamos passar meses sem conversar, mas se precisássemos de acompanhante em alguma internação hospitalar, sabíamos contar uma com a outra. E esse tipo de intimidade que expõe até nossas entranhas não se tem com qualquer um. Só com quem confiamos plenamente.
Estivemos juntas nos bons e maus momentos, que ficaram menos ruins por contarmos com apoio mútuo. Na reconstrução de suas mamas, eu estava lá. Quando a paciente era eu, cuidou de mim. Amparou-me quando perdi meu pai.
E também zelou pelo meu bem estar quando trabalhamos juntas.
Fernanda é assim, de doar-se com boa vontade e amor pelo que faz, pelos seus, por quem precise de sua atenção.
Quando tudo parece dificuldade, além de não queixar-se, é capaz de fazer algo bom por quem quer que seja.
Quando conheci meu marido, ela estava comigo. Chegamos a brincar sobre “arrumar casamento” e ela me disse, emocionada, que havia decidido dedicar-se aos filhos e a Jesus – e que ficaria feliz se eu encontrasse a minha “banda da laranja”. Meses depois era a única, além da minha família, no nosso noivado. Entregou-me uma carta que guardo até hoje. Na doença do meu pai, ofereceu-me a Prece de Cáritas, copiada com letra caprichada e nenhum erro.
Ela adora copiar coisas, orações, mensagens, salmos e oferecer a quem intui estar precisando de uma palavra de incentivo.
Certa vez pensei que Deus, por alguma razão, jamais havia me testado, tantas eram as tribulações que Fernanda passava, sem que a fé em Sua palavra se acanhasse.
Maldade é, sem dúvida, um sentimento que jamais lhe fez nódoa. Penso que Deus – ou o destino – não permite que nada aconteça ao acaso. Conheci Maria Fernanda Lobato do Nascimento para que ela me servisse de exemplo e, através de sua bondade, me tornasse melhor.
Preparo-me para o que pode ser nosso último encontro, num ambiente hostil e frio de hospital. Quero segurar-lhe as mãos e dizer – pois sei que escutará – que foi uma honra ter privado da amizade de uma pessoa tão especial.
Quero pedir-lhe perdão por todas as vezes em que pude ir visitá-la e não fui. E assegurar-lhe que sim, tornei-me uma pessoa melhor por ter sido tocada por Deus, por seu intermédio.
A vida é curta demais. Rápida demais.
(Fernanda faleceu quarta-feira. Durante o velório, o último caderno com suas anotações pode ser lido pelos mais íntimos. Na capa, ela dizia se imaginar sendo recebida por Jesus, em cuja companhia poderia desfrutar de paz eterna.
Voltei para casa triste, mas com a certeza de que ela estava muito bem.

Faz de conta

(Belém, 4 de agosto de 2015)

Faz de conta

Pensando na minha própria infância, descobri que nada sei sobre o que minha mãe e minhas avós viveram nessa fase mágica da vida.
Como seriam as brincadeiras? Como e quando aprenderam a arrumar a própria bagunça? Será que escovavam os dentes pelo menos duas vezes por dia?
Por que nunca conversaram comigo sobre essas coisas, justo eu que sempre adorei uma boa conversa?
Subitamente temi não ter oportunidade de contar às minhas netas sobre quanto fui feliz, num tempo que, para elas, será praticamente um passado muito distante.
A geração que ora dá os primeiros passos, não terá conhecido o mundo sem o HIV, sem informática, sem celulares capazes de tudo. Não lembrarão a época em que se morria de tuberculose e diarreia. Não terão recordações de cidades limpas, cidadãos mais educados e cadeiras nas calçadas. Nem imaginarão que vizinhos trocavam fatias de bolo e dois dedos de prosa.
Fui tomada pela necessidade de colocar “no papel” (será que ainda usarão cadernos de oito matérias?) minhas melhores e mais distantes lembranças. Não se trata de um tratado sobre a antiguidade recente, mas um pequeno apanhado das melhores coisas que uma garota feliz, viveu.
Pense no que passa pela cabeça de uma menina de cinco anos, chacoalhando a bordo de um “teco-teco” pilotado por um tio-avô maluco, pousando na praia da fazenda no Marajó? Era uma aventura! Mal conseguia dormir, imaginando os passeios pela areia, catando tesouros que o mar trazia. Conheci isopor muito tempo antes que fosse comum utilizar uma embalagem desse material. Boias de vidro azul, pedaços de cordas e madeira.
A noite, na minha rede, fingia estar num barco à deriva, inspirada pelos achados do dia. Sacudia para um lado, para outro, olha a onda enorme… “Vera, sossega e dorme!”, determinava minha mãe.
Era uma menina que comia jacaré, marreco, tamuatá e que adorava usar a cartucheira.
Durante o dia, andava pelas redondezas depois de tomar leite “mugido”, espumante e morninho. A horta, onde meu avô cultivava amendoim, algodão, feijão manteiguinha e outros, de vez em quando era coberta pela água do igarapé, inundado nas marés mais altas. Pela manhã, via extasiada, os caboclos tirando caranguejos dos buracos que tinham se formado. Durante muito tempo acreditei que vovô Delmar plantava caranguejos. E jurava que o fim do mundo era depois de um velho muro que restava na horta.
Como não contar que dediquei dias a fio a cavar um buraco, querendo chegar ao Japão, para me livrar das implicâncias que sempre aconteciam entre as crianças?
Que vimos algo cair do céu, passando perto da varanda (onde cantávamos sobre uma caixa, tendo um cabo de vassoura como microfone) flamejante, iluminando o trajeto até cair no mar?
Como descrever a emoção ao descobrir os ninhos das tartarugas na areia do lago? Ou da honra de alimentar Tola, uma bezerra que se tornava vaca, com uma mamadeira de garrafa de cerveja?
Dá para esquecer a satisfação de saber subir numa árvore, sozinha, arranjar uma forquilha segura e confortável e sonhar com uma casinha lá no alto, onde ninguém me importunasse e vivesse minha vidinha em paz?
Na história de João e Maria o que me encava não eram os doces, mas poder me mudar para a casinha da floresta.
Será que toda criança tem essa fase em que sonha fugir de casa, ser astronauta, aeromoça ou viver na ilha do Robinson Crusoe?
Não sei se os pequenos mudaram, ou se sonham agora com os astros, mas o que tenho certeza é que não posso deixar desaparecer essa criança curiosa e feliz que um dia fui e que continua, sabe-se lá como, sobrevivendo num cantinho qualquer da minha existência.
Ela precisa de ar e espaço, para contar a outros meninos e meninos que ser feliz é quase tão fácil quanto imaginar que uma rede singra mares revoltos

Livre, leve e solto

(Belém, 10 de agosto de 2015)

Livre, leve e solto.
Nos primórdios acumulávamos alimentos, temendo invernos e disputas. Mais tarde, as guerras causaram desabastecimento, e a população armazenava até água potável.
Recentemente, comprar mais que o necessário está mais ligado a questões psicológicas. Carentes de afeto dão-se presentes, insatisfeitos com o peso, com a vida em si, compram. E o mais inquietante é que o distúrbio acontece, inclusive, entre pessoas de baixo pode aquisitivo que simplesmente guardam tu-do! E isso incomoda muito. Entre os efeitos colaterais estão insônia, baixa autoestima e depressão, entre outros.
A sensação é reconhecida entre homens e mulheres, no entanto, sabemos que elas são mais afeitas a pensar nessas coisas da vida, suas razões e efeitos.
Aos poucos você sente um peso esquisito, misto de culpa e impotência. A princípio, não identifica a razão – ou talvez não queira identificar.
A maturidade – independente da idade – pode nos preparar para um processo necessário para se viver melhor. Para mim o desapego tem sido uma das melhores coisas dos últimos tempos.
Você evita arrumar armários, não encontra aquela travessa que lembra vagamente ter comprado, e, finalmente, compra uma peça absolutamente igual? A casa vira um clone seu, arrumada por fora, mas em desordem interior. Meses de procrastinação, empurrando quase tudo para depois. Depois de quê, só Deus sabe.
O melhor a fazer é encarar a difícil missão de tornar sua vida mais leve – livrando-se do que não serve, não usa, não gosta ou não funciona – antes que desconfie ter certa vocação para acumulação patológica. (É só brincadeirinha.).
“Magica da Arrumação” de Marie Kondo, (especialista em organização) proporciona uma boa dose coragem; apesar de cansativo, o tal “desapego” tem sido um mergulho de autoconhecimento, libertador e, em alguns momentos, divertido.
Quem não comprou uma roupa linda que não servia, com preço de ocasião, jurando emagrecer para usá-la? Eu tinha um enxoval de vários manequins, alguns que talvez me coubessem aos 15 anos.
Para que, diabos, eu precisaria de um quimono? Um não, dois! E outras esquisitices dariam algumas crônicas.
Os exageros incluíam 100 forminhas de empadas, cafeteiras, das tradicionais às turcas, de ebulição, globinho, filtro de papel e alguns velhos e eficientes coadores de pano. Redes? Várias.
O desperdício que a acumulação causa tem muitas explicações que constituem um capítulo a parte. Imagine o quanto poderia ter viajado com o valor investido em tantas inutilidades?
Mulheres acumulam mais que homens, mas eles têm lá seus maus momentos. Conheço alguém que guarda centenas de publicações rurais – incluindo suplementos de diversos jornais – que pretende usar um dia. Detalhe; não tem fazenda, sítio ou quatro metros quadrados de terra. Outro guarda parafusos, chaves e toda sorte de tranqueiras e acha que é um colecionador.
Para que serve guardar todos os convites que recebe? Ou fotos que não lhe trazem alegria?
O momento em que se percebe o quanto “pesa” viver num ambiente com coisas que não são úteis e apenas lhe tomam espaço, é libertador.
Marie Kondo usa uma expressão que pode desestimular o processo: jogar fora. Pensar que o que guardou tanto tempo pode virar lixo impede que muitos se desapeguem. Pessoalmente, acho muito mais interessante separar o que deve ser descartado e o que pode ser doado – para pessoas ou entidades que mantém brechós para financiar parte de suas ações. Um destino nobre para minha calça jeans lindíssima e pequena demais, que hibernou no meu closet por mais de dez anos.
A crise que enfrentamos também está nos obrigando a pensar no que realmente precisamos para viver bem, sem lastro “morto”.
Você sabia que se pode reconhecer um acumulador pelas malas? Mas isso é assunto para a próxima terça. Bom dia!
(Continua)

Voando na van

(Belém, 27 de agosto de 2015)

Voando na van

Adoraria oferecer, durante uma daquelas reuniões demoradísimas da cúpula das empresas aéreas brasileiras, um lanche contendo, apenas e tão somente, o que nos servem em seus aviões.
Se quiserem baixar mais ainda o custo do meu lanche de hoje, haveria uma só opção: retirar a diáfana fatia da blanquet de peru, ou da do queijo que compoem um sanduíche frio e compacto, cuja aparência é um tanto cadavérica.
Francamente, no “atacado”, este sandubinha mequetrefe não passa de, no máximo, dois reais e cinquenta centavos. Incluindo 150 ml de guaraná, com cinco reais está paga a minha fatura- com lucro.
Fico impressionada com a falta de cuidado com a imagem da empresa junto aos seus clientes, sem nenhuma preocupação com a fidelização. No solo, o atendimento, algumas vezes, é permeado por má vontade e arrogância. No ar, em especial em vôos domésticos, parecemos estar a bordo de uma van, sem espaço para nossas gordurinhas, sem, sequer, aquela “menta” que refrescava o hálito e lembrava que uma nova aventura estava prestes a começar.
Ninguém é tolo para acreditar que os custos do vôo são fortemente impactados pelo catering, incluída a logística que o envolve.
Combustível, taxas aeroportuárias e impostos são muito mais determinantes.
Com tarifas astronômicas, não é raro aeronaves voando quase vazias; a solução, ao que parece, é aumentar a tarifa mais ainda, e cortar qualquer carinho com o cliente. Talvez cheguem a cobrar para usar ” a casinha”.
Duvido muito que empresas que vendem os lanches bordo cubram os custos , além disso, o que não é vendido, vira lixo. Prejuízo maior.
A questão levantada aqui, não é comer ou viajar com fome e sim a duvidosa decisão de não cativar o cliente.
A verdade: eles não ligam para nós.
Até hoje, brasileiros sentem saudade da Varig – cuja falência teve outras motivações.
Lembro de como era confortável viajar e almoçar um filé de frango com creme aspargos e de sobresa, uma mini Tarte Tatin. Tudo acompanhado de um vinho bem razoável.
Quando ouvia no rádio (em Belém fui a locutora local) às 22hs o “Varig é dona da noite” ( Oito segundos. A cada oito segundos um avião decola de algum lugar do Brasil ou do mundo. Varig…) eu parecia ouvir falar de uma empresa bem íntima, como se funcionasse ao lado da minha casa. Os passageiros tinham uma ligação afetiva com a Varig.
Naqueles bons tempos, aos sábados também era ótimo voar, durante o almoço, pela Transbrasil. A feijoada era deliciosa!
O passageiro se sentia acolhido e bem tratado, viajar tinha outro glamour.
Agora não.
Sinto – me a gorducha na van, sem espaço, sem eira e quase sem beira.
A aeromoça …Ops, são Comissários de Bordo… me pergunta o que quero beber.
Água.
Ela me entrega aquele pacote com aspecto duvidoso e tenho ímpetos de retrucar…”Como você acha que EU vou comer isso, assim, na frente de todos? É quase promiscuidade! Olha bem pra mim, querida!”
Mas a fome é cruel e ela não tem culpa e nem vai ligar se comer ou roer unhas…
Vou comendo meu sandubinha ” a morte lhe cai bem” , sem olhar para os lados, quase constrangida.
Depois, lembro que em outros vôos existe a first class, lá se come melhor e, maravilha dos deuses, dá para reclinar e até dormir sem ficar com a cabeça balançando, como num bólido da Central do Brasil.
Mas a gente vai de econômica, mesmo.
Enfim, faltam só duas horas e meia. E se essa loura me desse outro sanduba morfético, pelo menos eu parava com essa nostalgia toda – e com a fome. ( Bem feito, por não ter almoçado em casa!) Quem sabe ela sirva aquele sachet (pacote é exagero) com nove amendoins, para enganar o tempo?
Mastigando bem, talvez leve aí uns três minutos.
Vasculho a bolsa e acho dois Halls que devem estar no buraco negro desde o carnaval. Quer saber? Não tem tu, vai tu mesmo.
Bom dia!

Desabafo : Aff!

(Belém, 2 de outubro de 2015)

Aff!

Vou dizer uma coisa…
Estou cansada de gente mal educada.
As pessoas esbarram, passam na sua frente, tossem no seu rosto… E são incapazes de dizer “desculpe!”. Apenas isso.
Pulei da cama às 6h para pegar uma fila mais curta na clínica. O sujeito atrás está impaciente, com pernas cruzadas num espaço que mal cabe alguém sentado.
Ele muda de posição e o pé esbarra no meu traseiro. Lê o jornal que roça no meu cabelo.
Não, não é assédio. É grossura mesmo.
Ao lado dois conversam. A palavra mais repetida começa com k e não termina em cebola. Isso me irrita.
Não sou santa, mas palavrão é algo que tem hora e lugar, não suporto quem usa na presença de outros.
Agora chegou o primeiro maluco recalcado, reclamando, aos berros, que os barões são atendidos “na frente”… Tem gente que se sente perseguido até na hora de … Aff.

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