Manual da Máquina de Pão Tuttipanni

Máquina de Pão – Manual

Belas, recatadas e do lar (ou nem tanto)

 

A matéria sobre a nova primeira dama deixou dúvidas se era definição, elogio ou piada. Ou tudo isso, a gente adora criticar!

Em tempos em que se espera que machismo seja considerado crime e que a humanidade se posiciona contra sociedades que permitem que a mulher seja discriminada, não sei se era para rir ou chorar.

Todas nós sabemos como é desvalorizada a função de quem, por circunstância ou opção, não trabalha “fora”. Nesse “emprego” não ganhamos salário, não temos folgas e nem sempre somos reconhecidas.

Depois de décadas de pouco caso,  ser “do lar” virou condição elogiável? Não se engane, querida, as razões (questionáveis) foram outras. Quantas (além das teúdas e manteúdas que proliferam no planalto) podem optar por não encarar outra jornada? Gente comum (como eu e você) certamente não tem escolha. Marcela não é uma coisa nem outra, talvez seja mesmo apenas uma garota à moda antiga. Seria mais ou menos a mesma coisa se Kate Midelton tivesse casado com Charles. (Que parece muito mais velho que Temer, mas é sete anos mais novo!)

As redes sociais reverberaram o tema, com fotos eventualmente inspiradas ou em pura gozação. Surgiram imagens da (ex?) jornalista Cláudia Cruz, a esposa improvável de Eduardo Cunha, com “bela, remunerada em dolar” na legenda. Brasileiro não perde o bom humor, mesmo sendo roubado, que coisa. (Fico me perguntando quando é que, finalmente, estenderão as punições às esposas desses bandidos, que conheciam a origem da fortuna que torravam animadamente, sem crises de consciência. Mulher de bandido é bandida. Ponto.)

A pastora Elisete Malafaia publicou sua imagem envergando avental ao lado do fogão, convocando mulheres a postar fotos lavando as louças para “mostrar que têm família e se orgulham de cuidar do lar”. Que vergonha, madame! Primeiro, é nisso que dá mulher de pastor virar pastora, como se igreja fosse patrimônio conjugal, ou como se essa vocação pudesse ser “adquirida” do cônjuge. (Sabemos que não é.) Segundo, parece que a senhora não entendeu nada, “nadica” mesmo. Que papo mais antigo é esse, pastora? Postar sua indignação por conta das aproveitadoras que orbitam em torno de corruptos em geral – políticos e pastores, dentre outros – não lhe passou pela cabecinha?  Seu marido deve ter-lhe passado um pito, bem no feitio do casamento que a senhora faz apologia. Volta para o tanque, Elizete!

Mulheres “do lar” merecem reconhecimento e, acima de tudo, respeito. É essencial, entretanto, salientar que as demais também zelam pela família, inclusive pelo arroz com feijão de cada dia. Mas isso é coisa com que Dona Elizete não se preocupa. É por essas que muita gente garante que as mulheres são suas maiores inimigas.

A matéria sobre os atributos de Marcela Temer revela facetas do seu casamento incomum não só pelos quarenta e três anos de diferença do Presidente Temer. Ela é tão “discreta” que nem para seu próprio perfil deu qualquer declaração. A ex-miss Paulínia foi ao primeiro encontro acompanhada por mamãe (mais jovem que o genro). Mais recatada, impossível.

Marcela empresta jovialidade e complementa a elegância do marido.  Depois de uma primeira dama sem modos e sem noção, depois de uma presidenta que dispensa comentários e de outra “ex-miss” que postou fotos no melhor estilo “periguete” ao lado do marido ministro do Turismo de Dilma (por quinze dias!) com cara de você sabe o quê, pelo menos a postura do casal é um alento.

Suzanna Vieira, que sempre nos redime nessas ousadas uniões, perdeu por pouco para o charmoso Presidente Temer. Seu marido mais recente era mais jovem apenas quarenta e dois anos!

Ah, essa mulheres… Tão parecidas com seus homens, cada qual com seu cada qual.

Entre outras coisas mais importantes, resta-nos torcer para que o novo (?) governo seja um tanto mais “adequado”. Pior, Miss Bumbum Estados Unidos – ou a ex-quase-primeira-dama-do-turismo – nos deixou a certeza que será impossível. O Camaroti (Globo News) está exausto, ô gente que dá trabalho!

 

 

 

 

Socorro, o gerente sumiu!

 

Atualmente, em muitos estabelecimentos de Belém sente-se falta de alguém que “coloque o bloco na rua” como se diz.

Até um passado recente, o gerente era tão importante que só pelo andar notava-se a autoconfiança que transmitia a melhor das mensagens: aqui o cliente fica satisfeito!

Gerentes tinham poder de resolutividade e representavam, de fato e de direito, a empresa. Em muitas, eram olhos e ouvidos “do dono”.

Os tempos mudaram e os gerentes também. Pelo menos a maioria. Provavelmente o salário tenha se tornado pouco atraente para quem é capaz de gerenciar com a aplicação e sutileza de um maestro. A gerência competente não “aparece” e sim a equipe afinada, apesar de tão peculiares quanto uma orquestra em que violinos e bate-latas se harmonizam.

Talvez a distância entre a direção e o gerente tenha aumentado tanto, que este se sente mais próximo dos “colegas” do que da administração na qual está, pelo menos em tese, inserido. Essa proximidade dificulta exercer a liderança com mão firme na disciplina, na orientação, no atendimento. Gerentes precisam inspirar equipes!

Instituições que contam com pessoas vocacionadas e qualificadas, deviam distingui-las por meritocracia. Conheci uma empresa que facilitou a aquisição do primeiro carro de um jovem e promissor gerente. Não se tratou de “generosidade” e sim de investimento no profissional que tinha empatia com a equipe (o que é valioso!), mas precisava de distinção. É impressionante como temos “pudores” para tratar de hierarquia, como esse tipo de coisa não combinasse com uma “boa pessoa”. Ouvi de alguém que (estranhamente) trabalha em RH (Recursos Humanos) que “quem tem chefe é índio”. Tolice, barcos necessitam de comandantes. Ou chefes, ou líderes, tanto faz. Competentes e prestigiados.

Na lanchonete em que um só cafezinho é acompanhado por até oito sachês de adoçante, no atendimento da editora que exige falar com o assinante titular apenas para reenviar o exemplar extraviado, no bufê cujo garçom não sabe se o salgadinho é de camarão, no laboratório cujo recepcionista me chama de “meu amor”; em todos falta uma gerência eficaz (faz a coisa certa) e eficiente (faz da maneira certa).

Disciplina exige muitos exemplos e algumas vítimas. Os rapazes que vociferam palavrões no supermercado certamente teriam modos mais adequados se alguns já tivessem sofrido, pelo menos, uma advertência seguida de punição. Mas o gerente “coleguinha” dos seus comandados terá dificuldade em tomar uma atitude que o faça parecer antipático.

Certa vez um gerente de banco varreu, meticulosamente, a área dos caixas e, a seguir, instalou um cesto de lixo ao lado de cada um. Pareceu bobagem, mas o chefe limpando a bagunça deve ter tido algum tipo de efeito. Desde então, não titubeava em determinar que arrumassem “a casa”. Na semana seguinte, um funcionário iniciou os trabalhos com a camisa suja e amassada. Eu havia descoberto, num treinamento, que ele a deixava na gaveta do arquivo, durante até duas semanas, já que “odiava” mangas compridas e gravata. Como o gerente resolveria a questão, se, até recentemente, era um “deles”? A conversa deve ter sido tensa, o rapaz deixou a agência e, por algumas horas, foi substituído pelo chefe. Retornou ainda mal-humorado, a fim de encerrar o expediente e “bater o ponto”. Não o vi mais com camisa suja ou amarrotada.

O gerente precisa saber como agir com o público interno e externo. Precisa ter a exata noção do que é “atender” e como transmitir conhecimentos e ordens. Ter currículo, formação superior ou ser “parente do dono” não indica ninguém para essa função que pode determinar o sucesso ou o fiasco de um negócio.

Infelizmente, o que se vê em Belém é que, em muitos, não existe ninguém a quem tenha se atribuído autoridade para resolver problemas ou questões simples. Outros, dedicados e competentes, não parecem ser prestigiados. Os poucos que têm a felicidade de trabalhar com quem reconhece o valor do “maestro” despontam, para felicidade geral da clientela na qual me incluo.

Bom dia!

Ainda precisamos conversar sobre isso.

 

Se é que uma tragédia pode ter alguma consequência positiva, o infame episódio do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro serviu para que o país debatesse essa vergonha nacional. A tal “cultura do estupro” foi discutida até quase a exaustão, sem que ninguém conseguisse, de fato, entender o que levaria homens a acreditar que determinada mulher “deseja” (ou espera) ser estuprada.

Semana passada, escrevi sobre esse lado da questão, em especial como estamos educando nossos meninos e porque esquecemos de adverti-los que não é não e acabou-se.

A crônica de hoje trata das (potenciais) vítimas de abusos sexuais. Permito-me deixar de lado o caso da jovem carioca, cuja vida tem sido marcada por tragédias desde cedo. Até mesmo pessoas esclarecidas consideraram que, no fundo, ela tinha “alguma” responsabilidade pelo próprio infortúnio. Partindo dessa premissa, sua filha querida, que nunca subiu o morro para relacionar-se com gente de má reputação nem foi mãe aos treze, não corre nenhum risco. Será mesmo?

Condição social não exclui nem vítimas nem agressores. O que acontece?

Estamos de acordo que nada justifica a violência, mas precisamos falar de algo que talvez ajude jovens – rapazes e moças – a decifrar e compreender seus códigos.

Pássaros exibem a plumagem diante das fêmeas que, caso aceitem a corte, reagem com determinado gestual. Machos de certa espécie de focas inflam as narinas como um grande balão, numa demonstração de virilidade. O mundo animal é rico em demonstrações do tipo. E entre humanos, o que acontece? Também temos nossos rituais. Reconheço quando uma mulher – não importa a idade – está “interessada” num homem. Ela mexe mais nos cabelos e diz-se até que é um gesto pré-histórico, para que as axilas exalem feromônios sexuais. Algo tipo “estou a fim”.

Algumas passam a língua nos lábios, umedecendo-os, como se estivessem diante de um chocolate. Ou de um milk-shake de açaí. Se eu sou capaz de entender essas mensagens subliminares, o que dizer das jovens que dançam, malemolentes, acariciando o próprio corpo, colocando o dedo na boca e revirando os olhos, ao som de músicas (?) cujas letras pedem para a “novinha dar uma sentadinha” ou repetem “eu quero é tu”, numa rima grosseira e imoral?

Exagero? Não, apenas uma festinha em que o DJ executa o que pedem, e adultos assistem complacentes, às garotas “sensualizando”, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Mas não é. Esses funks de letras dúbias ou explícitas são uma apologia ao escracho, um incentivo à vulgaridade. Desconfio até que essas meninas se exibam mais umas às outras, do que aos rapazes. Vivem uma fase competitiva e podem demonstrar o “empoderamento” de maneira equivocada. O que deviam ser alertadas é que estão emitindo sinais cujas mensagens provavelmente não sejam as que queriam, de fato, transmitir.

Não estou, de forma alguma, tentando justificar o injustificável. Apenas me coloquei no lugar do garoto que assiste àquelas danças, cujos apelos são explicitamente sexuais (por mais que papai e mamãe se neguem a acreditar) e precisa buscar maturidade sei lá onde, para saber que ela pode estar “apenas” dançando e que não quer nada com ele.

Será que estou sendo puritana, logo eu, que sempre me achei meio moderna? Penso que não.

Procurando uma quadrilha junina infantil, encontrei o vídeo de uma festa de escola, em que a adolescente balançava o traseiro empinado diante da câmera e, enquanto o refrão “Vai lacraia, vai lacraia” se repetia,  colocava as mãos… Você sabe como.

Cheguei à conclusão de que cometemos muitos enganos. Ainda precisamos conversar muito sobre isso, antes que a tal “cultura do estupro” seja, de fato, alguma coisa com que tenhamos de lidar de uma forma, ou de outra, em casa ou numa delegacia.

Bom dia.

A última D.R.

A última DR

Vigésimo quinto réveillon juntos. Quem poderia imaginar o que sentem, na verdade? Ninguém. Nem mesmo vocês conseguem falar sobre esse poço de mágoas que só aumenta.

Como os vinhos, pelo menos os bons, os casamentos deveriam melhorar com o tempo. Mas o amor só amadurece sem se transformar em ódio quando permite nascer a mais leal das amizades. Parceiros que, mais que amantes, se transformam nos melhores amigos que se pode ter. Casais que conversam demorada e francamente sobre tudo, que têm os mesmos interesses e fazem coisas juntos, inclusive um bom sexo. (Bom para os dois.) Que respeitam as pequenas ausências e torcem um pelo outro. E nem são, via de regra, parecidos. O tímido doutor que faz qualquer coisa pela esposa atleta. A workaholik que compreende o marido quieto, afeito à leitura e à boa prosa. A esposa ativa que aguarda o marido gourmet preparar sua mais recente criação. Ou o casal que viaja pelo mundo esbanjando cumplicidade. Isso é muito mais que amor ou paixão, que geralmente acaba mal. Esses, a gente reconhece e inveja; amadureceram como os bons vinhos. Outros, não servem sequer para temperar um assado ordinário.  O azedume se espalha no ar, deixando o clima deprimente. Casais que nem se falam, que não se olham “nos olhos”, que podem até fazer aquele sexo insosso e datado, compromisso para fingir que o casamento existe, mas no fundo, anseiam a ausência um do outro.

Se existe fidelidade, é cega e obrigatória; não há a lealdade, a tietagem, a alegria pelo outro existir, simplesmente.

Francamente, é muito difícil reanimar um casamento nesse estado vegetativo. Em vez de ciúme, quase alívio. Não há companheirismo, nada é realizado efetivamente a dois. Ele vai aos compromissos com a esposa para evitar falação. Ela, nem isso. Mulheres conseguem dizer “não vou, não estou a fim, pode ir nos representando” quando lhe convém. Homens aceitam, além de não terem outra saída, a possibilidade de alguns momentos “desavec”, como diria um amigo, é uma tentação. Poderão estacionar em qualquer lugar sem preocupação com saltos altos. Não precisarão procurar uma mesa “em evidência”e poderão juntar-se aos avulsos e falar de futebol, da Dilma ou das gostosas da vez, tanto faz. Poderão afrouxar as gravatas e guarda-las no bolso, enquanto cumprimentam velhas conhecidas sem ter que responder um interrogatório. Não serão obrigados a dançar La Bamba nem Anita.

O mais triste é perceber que seu casamento está a um passo dessa realidade. Que a vida está cada vez menos risível e o mais interessante raramente inclui o cônjuge.

E por que diabos vocês não se separam?

Porque dá muito trabalho.

Primeiro, alguém tem que propor e aí a coisa complica. Poucos aceitam, mesmo aflitos pela solteirice, que o parceiro tome a iniciativa.

Segundo, quem vai para onde? Tem a partilha e os rendimentos. Tem os filhos e os netos. Tem o cachorro.

Os carros. A casa de Salinas. Ah, e o casamento da caçula, daqui dois anos? Tem a pensão, que ele jamais vai querer pagar. Finalmente, a viagem marcada com outros dois casais há mais de um ano. O que se diz numa hora dessas?

Divórcio é como parto, exige certa preparação. E isso é praticamente impossível. Ou acontece algo para resolver a parada ou as coisas se arrastarão até que dois inimigos acabem indo a festinhas, à missa e aos velórios dos amigos.

Quando os fogos estouraram, ela fechou os olhos pedindo  que algum milagre os transformasse nos apaixonados de vinte e cinco anos atrás. Era genuína a vontade de conseguir amar novamente aquele homem por quem já foi capaz de qualquer coisa. Queria se sentir amada novamente.

Há quantos anos não se beijavam como naqueles tempos em que podia sentir sua língua fazendo cócegas no céu da boca? Tanto que já nem sabia ao certo.

Abriu os olhos. Ele estava conferindo o whats app. Abraçou-o e ofereceu-se para um beijoardente que tanto desejava e  ganhou uma bitoca e um abraço com tapinhas nas costas.

-Vamos? Já está tarde…

Tarde? Lembrou-se quando o réveillon acabava em divertidos cafés com amigos amontoados na cozinha…

Por Deus, ela queria voltar ao passado, queria muito as bobagens que havia perdido em algumas das curvas que a gente ultrapassa e nem vê.

Quando ele adormeceu virado para o outro lado, teve vontade de abraça-lo, de dizer que o amava, que queria ser amada, abraçada, beijada. Que queria voltar a jogar mau-mau com os amigos,  comer cachorro quente depois do cinema… (Há quanto tempo não assistiam a um filme?).

Teve vontade de pedir-lhe socorro.Tocou-o de leve e ele resmungou alguma coisa como “vai dormir”; ela encolheu-se, engoliu um Rivotril, abraçou o travesseiro e imaginou estar nos braços de um homem que lhe fazia juras de amor.

Quando acordou ele já havia saído, droga de Rivotril.

Ao tomar o café, ela imaginou por quanto tempo mais poderia adiar aquela conversa. Do jeito que estava, não dava mais. Quem sabe dessa vez ele a entendesse, em vez de dizer que ela deveria procurar “alguma coisa com que se ocupar”.

Precisava organizar as ideias e não sabia com quem falar. A terapeuta era conhecida por convencer mulheres ao divórcio, mesmo as que não tinham a menor condição de sobreviver. A mãe, diria que era tudo culpa dela, como sempre. Os filhos… Filhos querem que a gente deixe tudo “pra lá”. “Isso passa, mãe”, disse o mais velho. “É uma fase”, arrematou o caçula. Seu melhor confidente era Boris, o cabeleireiro que, ao contrário do que se podia esperar, é fidelíssimo às amigas. E tantas vezes ele já a havia aconselhado a abrir o coração… Falar dos seus sentimentos, tentar fazer o marido entender que ambos precisavam ser felizes, antes que fosse tarde demais.

Preparou-se para a conversa. Que a Deus abençoasse aquela última tentativa. Só para garantir, daria uma passadinha no Boris.

Junho

(Belém, 01 de junho de 2015)

Junho

Enquanto tento enxergar a linha “invisível” para costurar dezenas de laços nas pequenas saias de babados, minha imaginação voa, visitando algumas das festas de S. João da minha infância.
Sempre amei o mês de Junho. Nossa casa exalava o aroma do mungunzá, o leite de coco inebriante. O bolo de macaxeira era anunciado por outro perfume que me despertava imediatamente. Adoro bolo quente, recém-saído do forno… Meus olhos marejam com tanta saudade.
Moramos muitos anos ao lado da Tia Carmélia, irmã do meu pai. Crescemos como uma família única, que aumentava com a família de minha mãe. No dia de S. João, na Dr. Moraes, todos colocavam mesas e cadeiras nas calçadas – e muitos quitutes. Havia uma tímida fogueira, bandeirinhas, bombinhas, estalinhos. Podíamos experimentar as delícias sem constrangimento.
Definitivamente, em Junho eu era totalmente feliz.
Na escola, me esforçava para não dar vexame na coreografia da quadrilha. Hoje percebo a razão de ter sempre mais amigos meninos que meninas. Eu era (desde sempre) a gorducha da turma, mas por alguma razão, entre eles isso não era problema. Eu era quase um deles. E me sentia acolhida.
Enquanto fardas e vestidos estavam sempre impecavelmente engomados, os meus eram meio amassados; em vez de sapatos com saltinhos disfarçados, preferia o Bamba cano alto. Por pouco tempo tive cabelos longos, o “Joãozinho” me caía bem, por conta das “danações”. Mas em junho, não. Eu ganhava as duas trancinhas mirradas de um chapéu que passava o resto do ano no fundo do armário. O vestido era enfeitado com retalhos, bordado inglês e laçarotes e eu me sentia o máximo, mas nunca o suficiente para candidatar-me ao “Miss Caipira” – que tinha sempre as mesmas concorrentes: as cinco meninas mais lindas da escola. Como sonhei com aqueles votos vendidos!
Penduro os dois pequenos vestidos e penso que elas serão duas princesas, exatamente como sentia-me naqueles dias em que a saia farfalhava e eu podia rodar, rodar…
As festas que mais deixaram saudade foram promovidas pela “Turma”. Colegas de meu pai reuniam-se em animados encontros, todos os meses. (Quem ainda faz isso?) e por três ocasiões incluíam os filhos: Dia das Crianças e Natal (no Jardim de Alah, na casa do Dr. Canuto Brandão), e na festa Junina, no sítio do Dr. Rainero Maroja, na Br.
Lembro de uma, muito especial. Enquanto nossos pais divertiam-se com a dupla dos Drs. Libório e Canuto, crianças e adolescentes brincavam no fundo do quintal, próximo à fogueira e a um muro, que constituíam nossos limites. Eu não era nem uma coisa nem outra, e tentava entrosar-me.
Lá pelas tantas, joguei-me na grama e olhei aquele céu, velho companheiro das noites do Marajó. Um azul intenso, nenhuma nuvem e a lua, majestosa, prateava tudo, inclusive nossos rostos. As estrelas pareciam ter vindo espiar.
Pela primeira vez, agradeci a Deus por estar viva, o peito estufado de tanta felicidade. Levantei-me, ajeitei saias e anáguas para que a grama soltasse e corri para a fogueira, onde esperava saltar e realizar o meu pedido.
Coloco os dois vestidos das minhas netas lado a lado. Ficaram lindos, perfeitos para que comecem a amar esse mês tão especial.
Quem sabe, um dia, possam olhar o céu e agradecer tamanha felicidade. Tanta que quase dói. Tanta que dá para dividir e sobrar um bom bocado.

“Olha pro céu meu amor
Veja como ele está lindo
Olha pra’quele balão multicor
Que lá no céu vai sumindo

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O teu coração
O céu estava
Todinho em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o seu olhar
Que incendiou meu coração.”

(Olha Pro Céu Meu Amor

José Fernandes e Luiz Gonzaga)

Canção para Fernanda

(Belém, 6 de julho de 2015)

Canção para Fernanda

Pense em água e vinho. Inverno e verão.
Assim somos Fernanda e eu, absolutamente diferentes, mas complementares em tudo.
Vimo-nos as primeiras vezes no Curso de Odontologia, no prédio da Praça Batista Campos. Apesar da simpatia, habitávamos planetas diferentes. Eu vivia a juventude com estardalhaço, ela era centrada e parecia responsável demais, com seus jalecos brancos e muitas apostilhas. Não se assuste, era 1978 e eu achava que teria 20 a vida inteira.
Mas Fernanda, não. Sonhava ser dentista e levava tudo a sério. Eu não sabia o que gostaria de fazer daí um ano e não me concentrava em quase nada. Era muita animação na Belém dos Bailes do Tigre e do Havaí, dos réveillons da “Apê”.
Passei uma temporada em São Paulo e perdemos o contato. Ambas com diploma, ela usando o dela num consultório, eu procurando novos caminhos. O tempo passou até que em meados de 1995 (é meu bem, sou antiga!) a reencontrei para sempre.
Fernanda era odontóloga da Sespa (Secretaria de Estado de Saúde) e eu, assessora na área de cerimonial e comunicação.
Tratávamos da implantação do programa Qualidade Total e, com a simplicidade que é sua característica, explicou-me que não podia mais clinicar por conta da cirurgia para vencer um câncer bilateral de mamas. Foi demitida anos depois por não poder atuar na profissão, apesar da dedicação aos gabinetes que se sucediam. A dentista não podia usar os braços como tal e, mesmo sabendo disso, mandaram-na embora. Enfim.
“Deus preferiu que eu mudasse meus planos.”
Com essa resignação que só seres superiores têm, Fernanda enfrentava idas e vindas que a colocavam à prova, sem duvidar da justiça divina.
Ficara viúva com dois filhos muito cedo e, depois, mãe solteira de mais uma menina. Lutava com uma dignidade capaz de me nocautear.
Viramos colegas de trabalho por alguns anos, mas a amizade tinha o selo da qualidade e da longevidade. Podíamos passar meses sem conversar, mas se precisássemos de acompanhante em alguma internação hospitalar, sabíamos contar uma com a outra. E esse tipo de intimidade que expõe até nossas entranhas não se tem com qualquer um. Só com quem confiamos plenamente.
Estivemos juntas nos bons e maus momentos, que ficaram menos ruins por contarmos com apoio mútuo. Na reconstrução de suas mamas, eu estava lá. Quando a paciente era eu, cuidou de mim. Amparou-me quando perdi meu pai.
E também zelou pelo meu bem estar quando trabalhamos juntas.
Fernanda é assim, de doar-se com boa vontade e amor pelo que faz, pelos seus, por quem precise de sua atenção.
Quando tudo parece dificuldade, além de não queixar-se, é capaz de fazer algo bom por quem quer que seja.
Quando conheci meu marido, ela estava comigo. Chegamos a brincar sobre “arrumar casamento” e ela me disse, emocionada, que havia decidido dedicar-se aos filhos e a Jesus – e que ficaria feliz se eu encontrasse a minha “banda da laranja”. Meses depois era a única, além da minha família, no nosso noivado. Entregou-me uma carta que guardo até hoje. Na doença do meu pai, ofereceu-me a Prece de Cáritas, copiada com letra caprichada e nenhum erro.
Ela adora copiar coisas, orações, mensagens, salmos e oferecer a quem intui estar precisando de uma palavra de incentivo.
Certa vez pensei que Deus, por alguma razão, jamais havia me testado, tantas eram as tribulações que Fernanda passava, sem que a fé em Sua palavra se acanhasse.
Maldade é, sem dúvida, um sentimento que jamais lhe fez nódoa. Penso que Deus – ou o destino – não permite que nada aconteça ao acaso. Conheci Maria Fernanda Lobato do Nascimento para que ela me servisse de exemplo e, através de sua bondade, me tornasse melhor.
Preparo-me para o que pode ser nosso último encontro, num ambiente hostil e frio de hospital. Quero segurar-lhe as mãos e dizer – pois sei que escutará – que foi uma honra ter privado da amizade de uma pessoa tão especial.
Quero pedir-lhe perdão por todas as vezes em que pude ir visitá-la e não fui. E assegurar-lhe que sim, tornei-me uma pessoa melhor por ter sido tocada por Deus, por seu intermédio.
A vida é curta demais. Rápida demais.
(Fernanda faleceu quarta-feira. Durante o velório, o último caderno com suas anotações pode ser lido pelos mais íntimos. Na capa, ela dizia se imaginar sendo recebida por Jesus, em cuja companhia poderia desfrutar de paz eterna.
Voltei para casa triste, mas com a certeza de que ela estava muito bem.

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