Inesquecível!

Inesquecível

Todo final de ano é aquela lenga-lenga das listas intermináveis de “coisas” a fazer que, para chegar até a metade, você precisaria nascer de novo. Desisti desses sonhos mirabolantes depois de verificar que, de cinco “decisões para o ano novo”, quatro eram as mesmas desde 2008. Melhor seguir a vida e tentar reinventar-se aos poucos, sem cobranças e,  francamente, não conheço ninguém que tenha emagrecido ou deixado de fumar por conta de uma decisão de fim de ano.

Se já não faço promessas, olhar para trás e avaliar o desempenho é essencial para colocar a cabeça em ordem. Valorizar o que foi bom e tentar aprender com o que foi, digamos, nem tanto. E 2014 para a cronista não foi bom; foi ótimo, sob todos os aspectos.

O melhor, todos sabem: tornei-me avó das gêmeas e blá, blá, blá. De quebra, estou livre da neura de tentar manter a juventude a qualquer preço, crivar a testa de botox e coisas do tipo. Sou avó, meu colo é confortável e estamos conversadas.

Uma das lições que esse ano memorável – apesar da seleção, da Dilma e da enorme quadrilha que vem acabando com o país – me ofereceu, foi justamente no jogo em que soubemos o que é “levar uma surra”, de fato. No 7X1 que ficará feito tatuagem em nossas lembranças, os atletas (eles, sim.) alemães usaram a melhor pelica que se pode encontrar nos dias de hoje. Tão elegantes e contidos em sua vitória que, lá pelo quinto gol era fácil perceber o constrangimento pela humilhação que os arrogantes donos da casa (e da bola) estavam sofrendo. Dependesse deles e não dos nossos craques de araque, o escore teria sido menos aviltante. Gente de primeiro mundo, sabe como?

Quem dá por certa a vitória e cede à arrogância do “já ganhou” sempre se dá mal. Está anotado no meu caderninho.

Foi um ano em que, mais uma vez, percebi o quanto devemos ser cada vez mais seletivos ao eleger quem pode fazer parte do círculo especial que chamamos de amigos. Existe um mito que diz que “amigos podem tudo”, até passar “anos sem se ver”.  Desculpe, mas justamente esses é que não podem “tudo”. Não podem faltar ao casamento de uma filha sua, sem informar que estarão ausentes em tempo hábil para você substituí-los. Não podem passar um ano sequer, sem tomar conhecimento se você superou aquele problema ou mudou-se para Cochabamba. Conhecidos ou colegas (que você vê com frequencia, mas não têm lá grande importância) até podem (mas não deveriam) fazer esse tipo de coisa. Amigos? Jamais!

Amigo não fica calado quando atacam sua reputação. Se for impossível defender, levante-se e vá tomar ‘uma fresca’.

Então anote aí: esperar menos, confiar menos, escolher mais.

Esse ano, em que quase faltou tempo para mim, também aprendi que você “vai” e o resto (casa, filhos, reformas, sofás que precisam de novo estofamento, máquinas que param de funcionar no pior momento…) fica.

Muitas vezes dormi mal pensando que não havia arquivado as contas do mês, que não fazia ideia do que faltava ou sobrava na dispensa, que não tinha o que vestir no casamento de sábado. Tantas que cheguei à conclusão – óbvia  – que preocupar-se é tempo jogado fora. Se não dá para resolver, relaxe e durma um pouquinho mais, você ficará menos mal humorada. De resto, casas ficam meio bagunçadas de vez em quando e ninguém morre.

Dormir mais, rir mais, cobrar-se menos.

No ceia de Natal, fiz questão de ter uma determinada batata palha à mesa. Tive que convencer a fornecedora a fritar mais um pouquinho, para atender a antiga cliente. Satisfeita, voltei-me para o que faltava, quantas rabanadas para cada, todas no mesmo tamanho… Mil detalhes!

No dia 26, encontrei o pacote de batatas, intacto. Não foram servidas e ninguém sentiu falta!

Na vida é mais ou menos a mesma coisa. Você padece sob a pressão do que reputa como importantíssimo – o vestido do casamento, meio milímetro de cabelos brancos, três anos a mais no “scotch” da festança. Depois é que percebe que o importante era muito, muito mais sutil.

Que nesse ano você possa anotar as melhores recordações e esquecer o que não faz jus às suas memórias. E que esteja sereno o bastante para que 2015 possa surpreendê-lo!

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais uma de Natal

Então é Natal!…

…Que chega antecipando despedidas, tornando-se mais especial ainda.

No Shopping lotado, procuro uma camiseta do Homem Aranha e só encontro tamanhos infantis. “Compra qualquer coisa”, sugere o colega. Como assim?

Presentes – mesmo as lembrancinhas – são exatamente isso, algo que se escolhe especialmente para alguém. Tem que ter “a ver”; se possível, ser “a cara”.

Confiro a lista que esbarrou em 60 nomes, entre familiares, amigos e colegas. Muitos é verdade, mas meu coração está em festa; se possível fosse, incluiria outros mais. Como o senhor que me cumprimenta alegremente todas as manhãs e disse que pediu ao filho para mostrar-lhe minhas netinhas no Facebook. Tem gentileza maior? Incluo o S. Antônio, tentando pensar em algo que ele gostasse, e que coubesse nesse orçamento.

Existe quem não perceba a presença de Jesus Cristo nessas comemorações; dizem até que Papai Noel é mais lembrado que Ele. Tolice.

Em tudo que acontece está o Seu toque. Nesse aperto no coração, nessa vontade de ligar para alguém apenas para dizer “Sinto falta de você”.

Nesse banzo que nos faz ter certeza da provisoriedade da vida e de tudo o mais.  Ah, se o tempo voltasse atrás e, como o Super Homem na canção, tivéssemos a chance de mudar não só o rumo da história, mas das nossas escolhas?

É Natal, fenômeno que transforma pessoas, toca corações com generosidade e nos faz elos de correntes do bem. O Natal nos faz solidários.

Penso no que poderia desejar para mim mesma… Constato que nem as viagens que ainda não fiz, fazem parte de desejos ardentes.

Esse foi um ano especial sob todos os aspectos. Todos.

Sem falsa modéstia ou temor dos olhos gordos que possam me enxergar, fui muitíssimo feliz e estou satisfeita comigo mesma. Bom isso, não é? Bom não, é ótimo!

Profissionalmente, venci desafios, aprendi muito e conquistei (graças a uma equipe dedicada!) os melhores resultados que poderíamos alcançar.

Pessoalmente, recebi a bênção de me tornar a avó coruja (e daí?) e agradecida de duas preciosidades: Clara e Maitê.

Amanhã a casa estará iluminada, com a minha pequena e amada família em volta da mesa onde o que mais importa, não é decoração ou cardápio repleto de frutas e coisas que farão estágio na geladeira antes de serem descartadas.

Estaremos todos unidos na esperança de que cada um conquiste a graça de receber o que lhe falta, seja saúde ou um bem material. Principalmente, estaremos juntos para celebrar e agradecer, trocando não presentes, mas afagos embrulhados em papel brilhante e fitas coloridas.

Vamos saborear o bacalhau da mamãe, as rabanadas da Sandra, lembrar que o peru que minha irmã faz é imbatível e sentir a falta, no fundo de nossos corações, dos ausentes.

É nosso primeiro Natal com as gêmeas e gostaria que meu pai – chamado por todos de “Vôzinho”- pudesse tê-las conhecido e compartilhado da bênção de amor que elas trouxeram. Amor que se renova a cada sorriso.

Sinto um aperto no peito, vontade de chorar como criança, mas tento confortar-me com a certeza que ele as conheceu antes mesmo que soubéssemos que viriam.

Acomodo-me para um café, esperando que o nó na garganta me deixe respirar. Em frente, o rapaz toma um chope lentamente, olhos tristes e úmidos fiscalizando o relógio. Parece decidir dar ao tempo mais uma chance.

Depois de pensar na vida, sinto a serenidade tomando conta de mim. Como é bom estar em paz.

Desisto do Homem Aranha e procuro o presentinho ideal para o Seu Antonio; de quebra, acrescento o André, sempre atencioso. Algo que signifique que eu não os esqueci, quando o Natal tocou meu coração- só isso.

Enquanto recolho as sacolas, olho para a mesa em frente. O homem dos olhos úmidos levanta-se e recebe uma jovem com um longo abraço. Ele estava chorando, sim.

Alcanço o corredor lotado imaginando quantos estarão dando ao tempo mais uma chance porque é Natal.

Adoro esse clima de filme de Frank Capra. Pessoas sorrindo um pouco mais, perdoando um pouco mais, amando um pouco mais.

E nisso tem muito de Jesus Cristo. Amém.

Feliz Natal!

Quando se ama tanto…

Da distância e do amor

Pretendia escrever sobre o Natal, confraternizações e amigos ocultos, mas um assunto me chamou atenção, talvez porque o clima natalino favoreça essas conversas sobre o coração e seus caminhos; as andanças que um bater mais rápido pode nos causar.

Nem sempre o amor é fácil. Ou vizinho.

Se a tecnologia nos deixou mais próximos, favoreceu relacionamentos que julgávamos impossíveis. A moça do Pará, casando-se com um jovem de Dubrovnik. “Du”… onde?

Croácia, querida. Um lugar lindo, do outro lado do planeta, distante várias escalas e conexões!

O casal resolveu a questão da distância. E quem não consegue essa façanha, faz como?

Numa conversa entre mulheres, a amiga me perguntava se a distância sentencia o amor à morte.

Como poderia ser sincera, sem desanimar uma relação que pode até, dar certo?  A ausência é o veneno que mata qualquer relação, aos poucos, quase sem que a gente perceba. E o outro pode morar ao lado, tanto faz.

Já não sou a melhor pessoa para falar desses amores que muito precisam enfrentar; o tempo nos faz menos crédulos – e mais práticos.

Não conheço paixão que tenha sobrevivido à maldade da distância por muito tempo, e mesmo o amor – mais calmo e determinado – requer que a distância, se existir, tenha prazo certo (ou quase) para terminar. Amor gosta de rotina, de convivência.

Ao contrário, sei de vários enredos que acabaram se perdendo, como garrafas ao mar.

O que se pode dizer à bela mulher que vive – nasceu, cresceu, consolidou a carreira, teve filhos e netos – aqui e, por esses caminhos que só a internet explica, “conheceu” um homem que parecia “seu número”, não fosse o fato de morar do outro lado do Atlântico. Teria um final feliz?

Depende.

Nossa heroína pode enamorar-se, mas jamais voltará a ser a mocinha que casou de véu e grinalda. O que ela espera dessa relação?

A maioria das mulheres perde – um pouco – do romantismo dos tempos primaveris, mas continua esperando um amor que a complete, sob todos os aspectos. Um homem que saiba amá-la e a valorize com gestos e palavras, ampare quando a vida não for tão boa e tenha mais qualidade naqueles momentos que os mais jovens costumam julgar pela quantidade.

Um homem maduro, interessante, com quem o assunto pareça interminável. Que goste da mesma música.

Como superar a distância sem que um dos dois abra mão da própria história, que saiba transplantar a vida como se fosse a muda de uma árvore adulta e – o mais importante – que jamais lhe cobre o esforço dessa mudança?

É bom lembrar que a relação vivida “aos intervalos” sempre parece muito mais interessante e harmônica do que aquela em que a convivência inclui não só os bons, mas os maus momentos. Será que depois de “casar” tudo continuará um mar de rosas?

Ninguém sabe – e é por isso que as paixões, os amores, são tão envolventes. O imponderável. Esse mago hipnotizante.

Com riscos ou não, as tais borboletas no estômago não têm preço. E quando você encontra a outra banda… Como manter a racionalidade e desistir?

No começo, a adrenalina é tanta que tudo, até os voos mais longos, parece fazer parte de uma vida mais emocionante.

Os jantares são especiais. As saídas, programadas e muito aguardadas. Tudo é excitação enquanto é novidade.

Lá pelas tantas, ir e vir já não é tão fácil. Num certo momento, você precisava dormir abraçadinha ou apenas conversar “olho no olho”. Resta o skype, ou “olho na tela”. Quem já não teve problema com uma frase escrita, que não carregava o tom de voz que mudaria todo o sentido?

A ausência é tão cruel que nos acostuma com a “não presença” do outro. E como essa história continua?

Só sei que ninguém nasce para viver sozinho, nem que exista um mar no meio, cheio de garrafinhas indo e vindo.

Aproveite, amiga, enquanto durar. Quem sabe como será?

Isola, pé de pato…

…Mangalô três vezes!

De repente, no melhor daquela festa ma-ra-vi-lho-sa, você fica mal humorada, implicando com tudo e todos, e nem se dá conta da razão.

A ‘melhor amiga’, está melhor do que devia. Quitou o apê, trocou o carro e ainda emagreceu uns quilinhos; não bastasse, circula no modelito que você tanto namorou mas não conseguiu “casar”. Que ódio!

Você começa a encontrar os defeitinhos da festa, como se a vida fosse uma eterna competição. “Os nossos Bem-casados estavam mais saborosos!” sentencia, tentando marcar um gol, meia década depois da “sua” festa.

Aliás, você estava cheia dessa Pollyana, que ri de tudo, parece muito bem, obrigada.

(Sabe-se lá de onde vem essa grana, que ela torra com roupas!)

Deu até vontade de derrubar o ponche, no vestidinho “nude” que a infeliz estreou, ofuscando a sua legítima Fendi – que ninguém notou. Ficou na vontade, mas foi difícil controlar. E ainda teve a co-ra-gem de dizer que você tem “um rosto tão bonito…”. Só gordas escutam isso, cretina! Cretina é forte, eu sei, mas ela é, e você tem certeza.

Um dia, ah, ela que aguarde, você ainda vai plantar uma notinha bem maldosa numa coluna beeem lida, vai ver só!

Dava para perdoar tudo, mas “isso”, never!

Sente-se melhor imaginando uma vingança.

Vingar-se de que, mesmo?

(Como? Você? Reconhecendo isso?)

Provavelmente a vodka tenha reanimando até recordações mais remotas, de uma época em que a outra era apenas aprendiz e você brilhava em espetáculo solo.

Nas brincadeiras de casinha, nos passeios de bicicleta e nas quedas naquele rinque de patinação, a amiga estava lá, pronta para rir das suas piadas, dar uma força quando o mancebo da vez não ligava. “Fazer o papo”, era assim que se dizia.

O que aconteceu com ela? Ela?

Na verdade, o que aconteceu com você, pensa com o coração apertado, uma vontade enorme de chorar quando alguém teve a infeliz ideia de colocar “Just Way You Are” para tocar. Que saudade de si mesma.

O que aconteceu com você, com a felicidade que queria tanto e não sabe onde perdeu?

Invejosa? Você? Imagina, santa!

A Inveja é um dos sete pecados capitais que a Igreja Católica identificou no Concílio de Trento (1545 a 1563), com o objetivo de estabelecer valores a serem adotados pelos católicos, ameaçados pelo crescimento do protestantismo.

O Papa Francisco, o mais “antenado” que já se viu, chamou atenção sobre o hábito de “fofocar”, que é um dos frutos (ou sintomas) da inveja.

Mas… Se você nunca sentiu inveja, ainda não nasceu.

O problema acontece quando ela comanda nossas emoções e nos torna pequenos, mesquinhos, incapazes de reconhecer que alguém que pode parecer (ou ser) ‘mais’ em algum momento.  A inveja cega – e mata. E é tão difícil livrar-se dela.

Aceitação incondicional é coisa para quem confia em si mesmo, mas nem sempre estamos seguros ou bem-resolvidos. (Já notou que ninguém pode melhorar sem levantar suspeitas?)

Ter como amigo quem consideramos ‘menos’ é mais confortável. Menos bonita, menos rica, menos educada, menos estudiosa, menos brilhante, e que preenche a nossa solidão na medida certa, ou seja, ‘menos’. Ela (ou ele) não incomoda.

Olhar de igual para igual, perceber que a garota sem graça se tornou um mulherão e continua sendo amiga leal; que o outro passou naquele concurso de primeira e continua um bom-companheiro… Isso não é para qualquer um não, baby!

Há que se ter tutano, autoconfiança, acreditar nos sonhos que sobreviveram e esquecer os impossíveis.

Ou vai continuar se roendo, cada vez que achar que ela, a “oportunista”, roubou alguns dos seus flashes?

No mais, além de livrar da inveja, tente manter distância dos invejosos. Por mais que você nem esteja “se achando”, lembre que o invejoso não quer o que você tem – ou é. Ele não quer que você tenha – ou seja. Simples assim.

Isola, pé de pato e… Bom dia!

Água

Um balde de água

O primeiro elemento que temos contato é líquido.Morno e acolhedor, nutre e protege.

Isso talvez explique a enorme fascinação – e respeito – que a água me inspira desde meus primeiros anos, da mais tenra infância até hoje.

Ao beber um gole, curto quando assume todas as formas e espaços do interior da minha boca; quando estou numa piscina, admiro minha mão, absolutamente rodeada por ela, como se fizesse um molde de mim.

Nem o ar – tão essencial – me causa tamanho prazer e contemplação.

Hoje, um dia extremamente quente, preparei-me para mais um delicioso banho. Dizem que os paraenses são os brasileiros que mais se banham, que saem com cabelos molhados sem nenhum problema e,  quando chove, mal apressam o passo, como se aquele fosse o habitat natural: água.

Adoro ouvir o ruído da espuma do xampu caindo sem cerimônia, espalhando o aroma de Tília. Quem me conhece sabe que tenho algumas manias, o ritual (ou seria o roteiro?) do banho, não seria diferente.  Mas hoje, ele foi interrompido por um pensamento aterrorizante, longe de ser apenas imaginação.

E se, por alguma razão, eu simplesmente não pudesse tomar esse banho, refrescante e revigorante? A sensação de permanecer mais tempo suada, com a roupa grudando ao corpo e o cabelo pesado de suor quase me causou pânico –  principalmente porque, nesse exato momento, milhares de brasileiros (nem precisamos ir até a África seca e extenuada) estão tomando banho com canecas e toalhas úmidas. Nordeste? Que nada, na capital financeira do país, uma amiga moradora do bairro da Lapa está com apenas um tonel de água, faz cinco dias. Usa descartáveis, só aciona a descarga três vezes ao dia, a roupa de cama, antes trocada duas vezes por semana, aguada dez dias antes de ir para a lavanderia.

Tente imaginar quem tinha como hábito usar roupas uma só vez – de manhã até a noite – ter que se conformar em deixá-la “respirar” num cabide, para repeti-la dias depois.

Para quem vive literalmente cercado de água, isso parece absurdo; na Europa, é normal. E achávamos que se tratava de problemas com higiene.

Quando Suas Altezas, o Imperador Akihito e Imperatriz Michiko do Japão estiveram em Belém em 1997, recebidos pelo Governador Almir Gabriel, tive a honra de recepcioná-los, como Chefe do Cerimonial do Governo. E uma de suas conversas mais interessantes, que acompanhei graças ao intérprete, o médico paraense Dr. Fernando Teiichi, foi exatamente sobre a maior de todas as riquezas do planeta. “Sobreviveremos sem petróleo, jamais sem água.”, considerou o Imperador, especialista em Ictiologia e ambientalista desde sempre. Na época, enquanto cortávamos o Rio Guamá, a frase me pareceu pessimista demais.

Akihito pode não ter o “dom” que o atualmente falido Ike Batista gabava-se de ter: poder ler hoje, o jornal de amanhã. Mas essa é outra história.

Sem água, morremos em três dias.

Há dez anos, a ESA (Agência Espacial Europeia) lançou no espaço uma nave que carregou o módulo de pouso Philae que, distante 510 milhões de quilômetros da Terra, pousou na quarta-feira, quase suavemente, no cometa 67P – o Chury. O mundo inteiro comemorou o sucesso de umas das mais longas missões espaciais.

Um cometa é formado, na maior parte, por rocha e água congelada, que “reflete” a luz do sol quando chega mais perto do astro rei.

O grande objetivo é verificar se a água congelada é compatível quimicamente com a da terra – e se as rochas possuem resquícios de microrganismos. Os cometas podem explicar a origem da vida na Terra – e da falta dela, em Marte, por exemplo, onde imagens do que parecem ter sido rios e mares nos apavoram, quase dizendo “eu posso ser você amanhã”.

Para a comunidade científica, o principal é a certeza que existe – ou existiu – água fora do grãozinho de areia cósmica que habitamos.

Para visionários criadores do cinema, não será difícil imaginar um cometa sendo rebocado para um local árido, aonde derreteria até salvar – novamente – nossos rios e vidas.

Depois de tudo isso, será que é muito difícil fechar a torneira enquanto escovamos os dentes? Ou estamos usando os óculos cor de rosa do Ike que, em vez de mostrar o amanhã, impediram-no de ver o enorme precipício bem a sua frente?

Que cartilha é essa?

Hã?

Francamente, não sei aonde vamos parar. Não tenho “horizontes limitados”, como disse uma professora à mãe evangélica que procurou a direção de uma escola no sul, escandalizada com a cartilha “Adolescência sem filhos é muito mais legal!”.

Para começar, ninguém discorda de um título desses. Se a gravidez precoce é uma ameaça que tira a paz dos pais, imagine quão mais ela se torna pesadelo das mães menos favorecidas, que frequentemente criam filhos sozinhas.

Nas redes sociais algumas postagens de adolescentes – locais, inclusive –  são preocupantes. A exacerbação da sexualidade, banalização das drogas (especialmente da maconha) e vulgarização das relações são frequentes.

No vídeo gravado nos fundos de uma escola, duas meninas e dois meninos, fumam maconha e ridicularizam “os caretas” que não “matam” aulas nem “puxam um fumo”. Noutro, a menina faz sexo com um colega no banheiro escolar, enquanto um terceiro filma.

Nas imagens do encontro de adolescentes no clube de um condomínio, meninas beijam-se na boca sem nenhum temor às câmeras de celulares que transformaram o mundo num reality: atrocidades, emoções, transgressões; vida e morte nos pixels do planeta. O que está acontecendo?

Alguém haverá de dizer, precipitadamente, que a culpa é da desatenção das escolas públicas. Bem… Vamos combinar que muita coisa deixa a desejar, mas se você conhece seus filhos, se confia na educação que lhes dá, certamente eles não participarão de um fato desses exatamente porque aprenderam que isso não se faz, e não por causa da vigilância da escola (que deve ser eficiente, sim!).

A impressão que tenho é que os jovens estão com muita raiva. Do mundo, dos pais, de si mesmos. Que outra explicação se pode dar para a loucura de quatro estudantes, que registraram imagens de uma prática perigosíssima, em pleno corredor de uma escola tradicional, facilmente identificada pelo brasão das camisas? Uma menina, franzina, ampara-se na parede e expira, enquanto um colega, bem mais forte, comprime-lhe o diafragma com o punho cerrado, empurrando o estômago até que, tonta, desfalece por alguns segundos. Ele retira a pressão, ela inspira com dificuldade e os quatro riem.

Hã? O que falta aos jovens endinheirados, com seus “aifones” e jeans que custam mais que o salário de quem lhes serve o almoço? O que têm em comum com os colegas da escola  pública?

Esse tema daria tese para sociólogos e psicólogos. Na minha visão leiga, mas interessada, arrisco dois pontos: tédio e pais um tanto desatentos.

Sou do tempo em que se conversava com os filhos, com amigos dos filhos e, quando necessário, supervisionava-se mais de perto. Atualmente a “bisbilhotice familiar” ( necessária!) é muito mais fácil. Jovens não se contentam em “fazer”,  para eles para metade do planeta, o importante é “mostrar”; não é a toa que a maioria dos pais está terminantemente proibida de navegar nas mesmas águas. Ou seja, “nada de ser minha amiga no Face”. Então tá; vamos conversar quando tiverem os próprios filhos.

Por outro lado… Voltemos à “vaca fria”, ou melhor, à cartilha do MEC (pois é!) que prometia aulas de educação sexual – métodos anticoncepcionais, sexo seguro, DST e coisas assim.  Que surpresa teve a mãe paranaense ao ser inquirida pela filha de dez anos, sobre “ponto G” e como seria possível masturbar-se desde os 3 anos! Isto está na cartilha, além de um relatório sobre “FICADAS” e outros absurdos.

Que aula eu perdi? Desde quando esse tipo de esclarecimento é dado “em classe”, com professora mandando guris de dez anos abraçarem-se para saber o que sentiram? As descobertas fazem parte do amadurecimento de cada um, que é pessoal e indevassável. Crianças não precisam de orientação grupal (que pode ser mal conduzida), perdendo a individualidade, como se estivessem numa aula de culinária infantil.

Que tipo de governo promove esse tipo de coisa?

Dos enganos e acertos

A avó que  me tornei.

Não sou do tipo que acha que idade é “psicológica”. Idade é músculo. É aptidão psicológica e física, pouco adianta tentar me convencer do contrário. “Vira-brotos” vivem dizendo isso enquanto tentam esticar as peles dos joelhos – o que é im-pos-sí-vel, cara senhora. Pescoço, mãos e joelhos não acreditam em Freud, só em Isaac Newton, se é que me entende.

Beirando os sessenta, em vez de infarto ganhei netas. Duas de uma vez. Eram esperadas, minha filha queria há tempos e sempre sonhou em constituir família, como antigamente.

Fiquei pensando nessa determinação, ela sempre quis trocar fraldas, dar banhos e ser vomitada de vez em quando; eu mesma jamais desejei algo tanto assim. Para ser franca, minha vocação para a maternidade teve um foco: queria ser mãe dela, especificamente dela e pronto. Eu sempre conheci a criança que um dia iria gerar, e sabia que ela estava lá, separadinha, esperando que um anjo muito sábio, escolhesse quando eu estaria pronta. Devo ter feito alguma coisa boa nessa minha vida comum e pouco exemplar.

E agora minhas netas chegaram. Colocaram minha vida de pernas para o ar, desmontando qualquer projeto para os próximos meses e, do nada, senti vontade de trocar fraldas, conferir temperaturas, ser alvo de golfadas. Era como se jamais tivesse esquecido como cuidar de um bebê; desejei acalentar esse choro que dilacera o coração, quis descobrir o inventor das cólicas para trucidá-lo diante de uma plateia de mães aliviadas. Durante dez dias  isolei-me do mundo, virei uma eremita nos corredores da maternidade, dormindo num sofá onde qualquer condenado expiaria sua pena. Mas como sou avó, poderia dormir numa cama de pregos, nada me demoveria da missão de livrar minhas netas dos perigos do mundo. Das cólicas, da bilirrubina, das fraldas molhadas e de quem acha que neném é maniçoba – todo mundo quer meter a mão. Nada faria diferença desde que estivesse perto o suficiente para ouvir-lhes os suspiros, para ampará-las quando abrissem os braços naquele susto que os bebês têm, como se fossem cair no vazio. Eu poderia dormir equilibrada num galão de tinta, desde elas precisassem de mim. Ou para aquecer-lhes os pés minúsculos, tão magrinhos e tão amados. E eu lhes conferi dedos – um, dois, três, quatro, cinco; contei novamente… Será que já contei os da outra? E troquei seus nomes… Eu troco nomes, sou atrapalhada e muito menos “incrível” que a cronista que me habita; já chamei um José de Luiz durante muito tempo, e nunca sei o nome da música – que canto errado. Às vezes meu pensamento é mais rápido que minha fala rouca e alguém completa a frase, me atrapalhando no que já estava pensando muito além dali. Talvez seja a idade, fiquei lenta? Não, a cabeça é que é cada vez mais rápida… Mas Santa Inquisição, troquei os nomes das minhas netas e elas nem são tão parecidas, além da enorme diferença de meio quilo.  Quem mamou? Quem fez coco? Não tem como confundir, mas eu sou ansiosa, passional; e acima de tudo, completa e irreversivelmente disposta a me doar,  me entregar, e até esquecer meus projetos secretos.

Pode parecer absurdo, mas eu ainda tinha planos, sonhos indevassáveis. Quem sabe conseguisse acomodar algumas coisas numa mochila e tomasse um desses voos diretos para algum lugar; um lugar onde não fizesse calor, pelo amor de Deus.  Onde eu pudesse caminhar pelas ruas e conseguisse escutar-me um pouco, sem ninguém a me chamar? Onde tomasse um café sem pressa, e passasse horas olhando ruas e gente. Ah, é tão bom ser estrangeiro…

Ver velhos filmes de amor.  Adoro filmes de amor, principalmente entre casais maduros, são tão raros.

Eu ainda tinha planos para mim, imaginava alugar um estúdio em Paris, uma casinha na Caparica; tanta bobagem , mas sonhar era manter-me viva. Eu me sentia uma pessoa, e dez dias depois do nascimento das minhas netas, sou uma entidade coorporativa, a avó da Clara e da Maitê, cujo estatuto a vida teima em escrever, apesar de mim e das minhas manhas.

Dez dias de delírio.

Uma amiga demitiu-se de uma função cobiçadíssima, através de um bilhete, onde explicava que não  poderia passar mais um dia sequer, longe do neto, que nascera em Lisboa. Queria liberdade para ir quando precisasse e voltar quando pudesse, caso contrário, morreria pouquinho a cada dia.

Não há como explicar para um homem, para um avô, essa magia que é ver uma filha, a quem já acalentamos, ter os próprios filhos. Ama-se e sofre-se duplamente. De repente nos transformamos em seres capazes de viver sem dormir ou comer, para proteger nossas crias de qualquer perigo, do mosquito ao resfriado.

Mas a vida não é assim. Não somos o centro, estamos lá longe, numa sétima lua.

No meio do turbilhão, fez-se um segundo de claridade e percebi que netos não são filhos. Netos são sangue do nosso sangue, mas não nos pertencem!

Você tem que amá-los, abençoa-los e permitir que vivam sem você – ou apesar de você. Precisa aprender a despedir-se e saber que “até amanhã” pode demorar um pouco mais. E você não vai morrer por isso.

É o que se espera das avós que mantém a sanidade e não querem ser odiadas. Avós que querem ser lembradas com saudade.

Avós precisam voltar para suas casas, trabalhar, sem perguntar se fizeram coco, se comeram, ou se estão saudáveis apesar de 48 horas sem vê-los.

Avós precisam restituir e garantir aos pais, o espaço – salutar – longe delas. E quando avó é você, meu bem, o choque de realidade dói.

Quantas vezes nos perguntamos “Clara já sujou a fralda? Mas que pena, ela deveria ter feito isso desde ontem… E a sua vida passa a ser a espera por um coco – e você adora isso. Um coco abençoado.

Mas que não lhe pertence. São os pais que devem averiguar as fraldas sujas.

Você tem que ser forte e sussurrar “Vovó te ama, até amanhã… Ou depois.”

Os pais precisam de isolamento para, finalmente, criar e manter laços; para entender essa linguagem que une famílias, que vai muito além de quando é manha, quando é fome ou coco. Bendita fralda suja!

E depois virão os dentes… E os pais descobrirão suas próprias orações, seus próprios meios para que tudo que até dez dias era apenas um sonho, se transforme numa jovem família. Que não é mais “sua”.

Essa nova família carrega o seu DNA, mas já não é a sua, exatamente.

E só o amor de avó, que também é de renúncia, pode ceder e deixar que se fortaleça. Você vai rezar para que Deus destrua o demônio das cólicas, banindo-o de todos os berços. E vai saber o que é saudade e a paz do dever cumprido.

Arrumo minha mala, enquanto meu coração dilacerado me acalenta dizendo que é preciso ser corajosa para perceber o melhor a fazer. Abraço minha filha como jamais a abracei, e digo-lhe que vai dar tudo certo, que me transformarei num anjo, distante, mas atento. Avós, não aparecem sem avisar, não tentam transformar em filhos, os próprios netos, tento não esquecer. Netos não nos pertencem. São filhos com açúcar, mas não uma nova chance para criar os filhos como deveríamos ter feito. Dos netos, só as orações serão nossas para todo o sempre.

Dou um beijo em cada uma, abraço a filha novamente e me retiro, para que um novo ciclo siga adiante, exatamente como tinha de ser.

No peito, uma felicidade diferente se acomoda, como num ninho. Agora eu sou melhor, eu sou avó.

 

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