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Certa vez comentei com uma terapeuta que, ao contrário da maioria das pessoas, aceitava as mudanças que a vida nos impunha e até gostava da oportunidade de tirar tudo dos armários, separar as inutilidades e guardar com mais cuidado o que realmente me era caro.
Ela me disse que um dia eu entenderia melhor certos códigos.
Bom, mais de vinte anos depois, continuo gostando de mudanças; na realidade, elas me fascinam. E já decifrei claramente o meu código pessoal no que diz respeito à reparos e ajustes, de rota inclusive.
A oportunidade de experimentar novos lugares, de rearranjar móveis antigos e novas aquisições, de dispensar o excesso de bagagem é uma experiência recompensadora.
Minha mãe sempre faz observações sobre minhas manias, em especial a de levar meus sapatos para ‘manutenção’, de revisar roupas a procura do que precisa de um ponto ou um ajuste. Como já me conheço um pouco, nem tento explicar nada.
Quando quebrei uma peça de cristal de grande valor sentimental, embrulhei os cacos, e, contrariando o feng-chui e as crenças de outros, deixei o pacote numa gaveta, uma espécie de ritual de passagem, sem velório. Um dia peguei o embrulho e coloquei no lixo. Simples assim, exatamente como tudo o mais na minha vida. Se não é o momento, eu espero.
Essa semana resolvi arrumar, pela centésima vez, armários e closet.
De óculos e sob a claridade de um dos poucos dias de sol, me surpreendi com o amarelado de algumas peças que certamente, só estavam ocupando espaço ou aguardando que estivesse pronta para dispensá-las. Sou maníaca por ‘dar’ coisas que não estejam em uso e acredito que essa prática abre uma possibilidade cósmica para que novas cheguem aos meus domínios. Algo como ‘quem partilha, tem’, enfim.
Dessa vez meus descartes foram um tanto dolorosos. Uma calça jeans, tamanho 42 (uau!), linda-linda-linda, cheirosa, dobrada num canto, esperava por mim, pela aceitação de que isso não me pertence mais e que é hora de aceitar as coisas como são, inclusive um manequim menos enxuto. Uma bolsa juvenil demais para meus cinqüenta, uma saia de lã e um casaquinho de cashmeare, quentes demais para o nosso eterno verão e pequenos demais para esperar pela minha próxima viagem para algum inverno qualquer.
Fiquei imaginando para quê tantas bolsas, tantos bordados e adereços que jamais usarei. Eu agora queria espaço livre, gavetas quase vazias e isso sim me parecia urgente.
De repente, grande parte das minhas coisas parecia não ter nenhuma importância, eu estava pronta para andar por aí com uma bagagem mais leve, sem ligar a mínima se entendem ou não. Quem sabe fosse a tal da maturidade ?
Enfim. A verdade é que na ‘vida real’ as coisas são mais ou menos assim. A gente pensa que não sobreviveria sem isso, aquilo ou aqueles. Aos poucos, descobre que nada nem ninguém é insubstituível, que uma amizade ou um amor que nos façam sofrer talvez fiquem bem melhor numa foto de um álbum qualquer. Que um emprego ruim pode ser tão nefasto quanto emprego nenhum e gente chata é sim, bem pior que estar só e m paz. Aprende-se até que lamentar o tempo perdido é bobagem, geralmente se trata de investimentos, alguns com mais retorno que outros mas nenhum que não tenha lá seu valor.
Depois de toda a arrumação lembro do meu livro, adormecido no décimo segundo capítulo, aguardando que decida o destino da minha heroína escrachada e nada convencional.
Fiquei pensando se estou realmente mudada, ou se, qualquer hora dessas não vou chegar em casa com dois jeans super apertados, para usar ‘depois da dieta’ ou decidir que é hora de arrumar tudo de novo.
Não sei. E de que adiantaria saber?
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