>História de mulheres: Teté.

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Pérolas falsas
Ethel era uma mulher quase fina. Não que fosse rica, mas era sempre lembrada como uma pessoa discretíssima e educada, que cumprimentava todos com aquele ‘bom diiia, como vai? E a irmãzinha?’. Ela ainda acreditava num chanel retão com pontas viradas pra dentro, e a tintura, louro escuro, era a mesma desde 81, quando resolveu disfarçar uma mecha branca.
Para complicar, usava uma volta de pérolas miúdas -falsas, claro- mas achava que era ‘salt-sea’ e pronto. Usava sapatos mocassim de paupérrimos saltos cinco, e sempre escolhia um ‘conjunto’; decididamente Ethel era quase uma chata.
Mas se existia alguém muitíssimo bem intencionada, era ela. Tão cheia de boas intenções que dava ódio. Não havia amiga que gripasse que ela não visitasse, com um chazinho inglês ou um bolo -inglês, claro- que Ethel não era de bombons de cupuaçu e esses regionalismos que jamais combinariam com o chanel retão.
Um dos seus orgulhos era só usar jóias ‘verdadeiras’; um brinquinho solitário, aliás desesperadamente solitário, só uma fagulha, uma lasquinha em cada orelha que nem brilhar brilhavam.
Todos os recém nascidos e os recém defuntos contavam com a solidariedade de Ethel, que era figura conhecida nas maternidades e na igreja onde quase todas as missas de sétimo dia aconteciam.
Até que um dia, a nossa contrita amiga errou o local de um almoço de mulheres e por essas coincidências que só o coisa ruim pode ter armado, acabou no salão onde rolava uma festinha pra lá de animada.
E ela viu, lá no fundo, o Praxedes, o corretíssimo marido que fora seu namorado nove anos antes que noivasse por mais seis; dançando com a gravata de Mickey amarrada na testa, de microfone na mão, declarando-se apaixonado por uma tal de Shirley, loura falsa, de peitões e bunda redondinha, com calça apertada e camiseta de oncinha.
Ethel ficou em estado de choque. Jamais, em toda sua santa existência imaginaria o marido numa cenas daquelas. E como toda santa tem seu dia de mingau, aboletou-se num canto, pediu quatro cubas (ela era do tempo da cuba libre) e entornou todas sem perdão.
Como era de se esperar, Ethel resolveu vingar-se do marido e do mundo e arrebentou o fio de pérolas. Ela cometeria todos os pecados, agora que conhecia a vida como ela é, tudo seria diferente. Comeria um pacote inteirinho de biscoito recheado de chocolate, compraria uma bolsa verdadeira e deixaria o carro sobre a calçada. Saiu zonza e entrou no salão de beleza. Depois de cortar os cabelos naquele modelito da Victoria Beckham, partiu para o cubículo de depilação e pediu uma ‘total’. Total, mesmo?, perguntou a Odacy, incrédula, depois de vinte anos depilando nada mais que a virilha-sobrancelhas-buço da ex comportada cliente. Total, sim! Frente e fundos! Mais explícito, impossível.
Dali pra loja de lingerie da Braz foi um pulo. Fio dental! Ela iria chegar em casa com uma daquelas calcinhas que entram onde quase nada deveria estar. Trocou lá mesmo.
A pele recém depilada lhe oferecia outras sensações. Talvez fosse coisa da sua cabeça, mas quase teve certeza que o barbudo que vinha pela Serzedelo sabia exatamente o que ela tinha feito. Sentiu um rubor nas faces, o resto já estava ruborizado faz tempo. Na esquina, ao atravessar a rua, o motorista do Sienna prata também sabia que ela estava de fio dental por baixo do novo jeans. Não perguntem como, ela tinha certeza!
Caminhou sentido-se um tantinho mais poderosa e lá se foi, meio cansada, as quatro (ou teriam sido sete?) cubas sendo metabolizadas e o restinho de juízo querendo voltar.
Entrou e viu o Praxedes, num cochilo, esparramado no sofá de xadrez. Olhou o terno preto e a gravata cinza sobre a cadeira e farejou o aroma, esperando encontrar uma mistura de whisky, cigarro e perfume. Mas o que sentiu foi a colônia que comprava a anos para o marido. Gravata cinza? Onde ele tinha enfiado o Mickey?
Enquanto pulava para baixar as calças, ele entrou no quarto e ficou boquiaberto…
-Teté…? O traseiro alvo da mulher resplandecia entre a calcinha cavadíssima e o jeans apertado. O cabelo parecia tê-la rejuvenescido dez anos.
-Tetê…? Ela não precisou de muito esforço para perceber que o Praxedes estivera ali a tarde toda e que, sabe-se lá como, ela o tinha confundido com o outro gordinho da gravata de Mickey. -Teté…você está deliciosa…!
Duas horas e muitos amassos depois, Ethel tomava uma ducha tentando entender o que havia acontecido, a cabeça pesada não ajudava. E as pérolas?
Bom, elas não combinavam mesmo com aquele cabelo.
No quarto, Praxedes ainda olhava a calcinha balbuciando ‘Adorei, Teté!…Adorei!’
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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Nanda Assis.
    jul 01, 2008 @ 23:00:00

    >adorei seu jeito de falar das coisas. muuuiitooo inteligente!bjoss…

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