>A banheira

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Uma das coisas que me divertiram ultimamente, foi o resgate de uma banheira. Calma, eu explico.
Há oito anos vim morar em uma casa que tem não uma, mas duas banheiras; confesso que minha escolha foi em parte causada por esse luxo!Depois de arrumar caixas enormes de ‘traquitanas’, resolvi me preparar para um banho digno de nota. Sais, espuma, roupão, música suave e aquela indefectível toalhinha para colocar sobre os olhos, igualzinho eu via nos filmes. Que mico. O tal do aquecedor -que pra mim não passava de uma carcaça cromada na parede- nem chegou a funcionar. A água, provavelmente por causa dos tubos sem uso durante muito tempo, tinha um cheiro esquisito, uma mistura nauseante de ferrugem e coisa velha.
Cheguei a chamar o técnico e, uma pequena fortuna depois, lá estava a carcaça prontinha pra aquecer meu relaxamento; que banho mesmo, a gente toma é no chuveiro.
Repetida a mis-en-scene, na hora ‘h’ ouvi um estalozinho suspeito e a água voltou a jorrar tímida e fria, muito fria.
Desisti. Passei a achar que era um luxo besta, ninguém aproveita banheira em casa mais que um mês e quando passa a novidade, só serve para juntar poeira e cabelos suicidas.
Bom, o tempo passou e elas permaneciam ali, inúteis, desdenhando minha total falta de competência para usufruir qualquer coisa que fuja da rotina.
Nos meus momentos de ‘mulherzinha’, acreditava que um dia, ‘alguém’ (meu marido, minha filha, o Raj ou o canguru da sorte, sei lá!) me surpreenderia com a tal da droga da banheira funcionando, nem que fosse uma só.
Mas o caso é que o tempo passa e as coisas nem sempre mudam. No meu período ‘borocoxô’, a viagem da Verena para Minas onde apresentaria a monografia, fez-me desconfiar que ficaria mais ‘borocoxô’ ainda. Eu precisava, urgentemente, de um desafio, qualquer coisa que me desse ânimo para ‘saltar fora’.
Chovia muito, e fiquei imaginando o quanto poderia ser complicado colocar o ‘elefante negro’ em atividade. Foi quando ouvi aquele ‘ruidozinho’ de pinga-pinga, bem embaixo do banheiro. Um vazamento! Pronto, essa era a razão que faltava para decretar a minha Faixa de Gaza: vamos meter picareta no banheiro!
Bom, pra encurtar, foram quase trinta dias de desordem. Retirei o box que me fazia suar sob a ducha, o ‘túmulo’ da banheira foi reduzido a cacos e tive que chamar um especialista para, entre outras coisas, fazer dois remendos minúsculos na fibra de vidro. Nesse meio tempo, descobri que o ‘ploc-ploc’ vinha da descarga do banheiro vizinho; ou seja, a razão da guerra não era bem aquela. E daí? A independência do Brasil também não foi bem assim.
O novo aquecedor deve ter sido despachado de “Sun Paulo” num jegue manco, levou doze dias para chegar, mas chegou.
Massa preta pra cá, eletricista pra lá, telhas quebradas, acolá. Ti-ti-ti e arranca rabos entre três ‘especialistas’ todos altamente ‘estrelas’…E eu, dando plantão naquela enorme casa de material de construção, ou você já viu pedreiro ou eletricista entregar a lista inteira do material de uma só vez? No final de uma semana, já era íntima da casa. “E aí, D. Vera, já matou quantos na obra?…“Estou providenciando a missa comunitária, Silva!”.“Ainda falta alguma coisa?”, o ‘Seu’ Zé Maria já sabia que faltava, sim, e que eu viria trocar a metade no dia seguinte.
Bom, a ‘obra’ ficou pronta. Casa vazia, limpei e arrumei o velho banheiro recauchutado como a Dilma Russef, um pouquinho mais bonito por fora e a mesma coisa por dentro, enfim. Abri a torneira, sem muito alarde, não queria pagar mico de novo. Hummm…O tal do visor digital era quase em braile, que droga, tomar banho de óculos. Trinta e três graus.
O motor ronronou e a espuma foi tomando conta da água. E haja espuma. Levei uma montanha perfumada e acomodei-me; de fora parecia bem maior, mas estava ótima. No som, Gilmarley Song com o Kid Abelha, e então dei uma enorme gargalhada. Que bobagem, era só uma banheira velha e emperrada, mas estava me sentindo poderosa.
Consegui!
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