>Com Johny Rivers, Victor e Leo

>O dia dos namorados finalmente havia passado. Não que ela ligasse, aliás, todo mundo sabia que não dava a mínima para essas datas comerciais, criadas por um espertinho qualquer, com a única finalidade de aquecer as vendas do comércio decadente.Ou quem sabe, esse espertinho fosse uma tarado cruel, que sabia exatamente como fazer com que uma mulher maravilhosa, descolada, antenada e cheirosa se sentisse…ultrapassada, sozinha, esquecida, azeda.Não, ela não iria entregar os pontos só porque não entendia como alguém com esse currículo todo, estivesse sozinha, nessa e em todas as outras datas comerciais, que diacho!Humm…Nunca havia notado que “Do you wanna dance’ tinha uma letrinha tão simples. Como quase tudo naquela época em que ela ainda fazia ‘doce’ para ficar com algum bonitão no salão da AP, que ainda tinha aquele clima de coisa fina, sem esse monte de camelôs na calçada; ah, decididamente, naquele tempo ela era mais bem humorada.Johny Rivers dizia tudo que ela queria ouvir em poucas linhas, mas o coração também apertava quando o James Blunt uivava na novela das nove, o mesmo drama de quem quer, muito, um amor qualquer.Como num origami, o seu príncipe (aquele da barba macia, lábios grossos e olhos pidões) havia permanecido numa dimensão qualquer, ali pelos trinta e sete anos…para sempre. E ela continuava procurando e só o que encontrava era um tempo perdido, que não lhe pertencia. Não era ontem, não seria amanhã; era apenas um momento, era tudo e nada mais.Imagina, se ela, a descolada, ia querer cueca na gaveta, escova de dentes no armário? Isso é coisa de mulherzinha. Só uma louca poderia sonhar com essas bobagens de dormir de conchinha, de passar as mãos nas costas do amado até adormecer ou vê-lo adormecido, que meigo.Quanta pieguice, credo!As mulheres estavam se tornando tão, tão, tão…Imagina -repetia- correr para depilação, manicure, banho de lua; fazer escova e estrear lingerie de griffe, só para agradar um marmanjo num dia como outro qualquer…?Já nem sabia desde quando não comemorava essas coisas na data certa…Homens casados têm muita imaginação, geralmente comemoram ‘antes’, claro, só para garantir que suas ‘outras’ estejam saciadas, vestindo um velho moletom macio, vendo TV e comendo pipoca, sem ligar a cada meia hora para o celular…enquanto eles jantam com as esposas felizes.Ora, e ela com isso? Não estava tudo bem? Claro que sim.Era apenas uma questão de tempo. (Perdido, talvez.)E quanta cafonice, Jesus! (Será que alguém ainda fala assim?) Na verdade, paixão era uma das coisas mais bregas que ela conhecia. Pessoas em estado amoroso ficam assim, ridículas, com aquele sorriso ridículo, ouvindo músicas ridículas.Ela nem sabia quando havia comprado aquele CD, Victor e Leo; se o pessoal do escritório a ouvisse cantando “…eu sou o teu segredo mais oculto… teu desejo mais profundo…tua fome de prazer…”, diriam logo que ela estava apaixonada.“Sou teu luar em plena luz do dia…”, ah, até que não era tão ruim…Em que dobra do tempo ele andaria agora, realizando coisas e experimentando tudo que ela já sabia de cor…?Ah, fazer um jantarzinho, deitar no futton, que amantes adoram amar num futton…Tomar cafés de todos os sabores naquelas xícaras enormes e cheias de personalidade, ouvir a Amy Whinehouse antes que ela acabe e cometer essas pequenas e deliciosas breguices do amor…Bastava encontrar aquele menino barroco, eternamente em guerra entre o sagrado e o profano…Longe dela e daquelas datas comerciais.Entre um gole e outro de vinho velho, ela cantarolava com os meninos mineiros e Johny Rivers, num quarteto pra lá de improvável: ‘Do you wanna…’ ‘sou eu em você…’
Postado por Vera Cascaes às 00:12 1 comentários

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