>Mesmices e paparicos

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Comprei meu primeiro carro – um fuscão – aos dezoito anos. Como brinde, tapetes e um chaveiro de quinta. Trinta e quatro anos depois, a diferença é que custam muito mais e a oferta é bem maior; as montadoras fazem promoções e as concessionárias, bem, elas entregam a mercadoria. O que vende mesmo é marca e preço, o serviço é quase igual, quando existem concorrentes.
Não consigo entender que alguém continue vendendo carro assim, sem criatividade; café de garrafa, os tais tapetes e um chaveirinho. Hoje os carros trazem todo tipo de inovação tecnológica mas estranhamente tapetes são opcionais, ou brinde, que coisa.
Certa loja de modulados oferece um suco de uva de tomar rezando, um cappucinno delicioso, e a gente guarda uma boa lembrança, da gentileza, da hospitalidade e isso ajuda na escolha. Quem gasta dinheiro quer ser paparicado, sim.
Lembro que uma montadora fazia uns comerciais incríveis, com uns bichos muito loucos. Foi mais quem procurou saber se vinha um, nos carros. Não, não vinha.
Certamente não é preciso lá muita imaginação para fazer com o que o cliente se sinta mimado. Que tal um cd em mp3 (pen drive ou memory card!) com sucessos musicais, desejando momentos de prazer ao volante? Como diria minha avó, para a fábrica, isso é “pinto”. Se a loja fosse minha (quem me dera!) eu entregaria o carrão com uma toalhinha personalizada, uma mini-necessaire com escova, pasta e fio-dental, afinal, “nós pensamos muito em você!”. Fácil, baratinho, e muito, muito gentil.
Outra coisa irritante e emblemática do quanto pode ser miserável essa relação com o cliente, é gastar tanto e sair com dois litros de gasolina. Fala sério, isso é muita pobreza; ou será que o valor do tanque cheio iria levar a empresa à falência? Essa providência deveria ser comum e não apenas na época das vacas magras, quando querem vender até patinete.
Mulheres geralmente são muito mais eficientes nessas coisas de mimar e fidelizar relacionamentos. Se vender cozinhas, é capaz de editar um livro de receitas para a nova feliz cliente. Uma butique onde gastamos bem menos, é cheia de pequenas grandes gentilezas e até a água é servida num copo elegante, como julgam que seus clientes sejam. Não esqueço que, dias depois de ter comprado um vestido de festa, a vendedora telefonou perguntando se tinha feito sucesso. Isso é simpático, como os votos de que você seja muito feliz ao usar uma nova jóia. Que construtora se dá ao trabalho de enviar uma cesta de café da manhã, no dia seguinte a sua mudança? Difícil? Que nada, fazem coisas muito mais complicadas.
Certa vez, num natal, recebi uma agenda super-feminina de uma loja onde não ia a tempos. Perfumada, menor que as demais, com dicas de moda e etiqueta, espaço para aniversários, fresca como todas nós deveríamos ser, pelo menos metade do tempo. Sinto-me acolhida até hoje e claro, se for gastar, será com quem me trata bem.
Não ser criativo na venda seria desculpável se o cliente fosse realmente atendido. A maioria esquece que existe grande diferença entre vender e atender; ainda assim, tempos atrás minha filha recebeu o carro novo, instalou som e películas e rodou por dez dias com um carro que simplesmente não era o dela! Acredite que só quando o Detran liberou o plaqueamento é que o despachante “descobriu” que o número dos chassis era outro, e que o entregue era o de uma cliente de Paragominas, coitada. Alguém já conferiu chassis com nota fiscal na hora da entrega? Nem eu, ora.
A falta de qualidade no atendimento foi tamanha, que quando recebemos o carro “certo”, verificamos que a película tinha sido aplicada por cima de uma propaganda da marca. É pouco? Novo reparo, novo aborrecimento: ao puxar a película, os filamentos desembaçantes saíram grudados. Depois de dois meses, finalmente trocaram o vidro traseiro. O gerente, se achando cheio de razão, fazia cara de mau, feito o pica-pau. Desculpas? Nem pensar. Nem tapete ou chaveirinho.Quer saber? Acho que eu deveria mudar de ramo. Ou parar de reclamar
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