>Maria Traíra

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Foi correligionária de carteirinha e vale transporte.
Capaz de gestos significativos, partiu com uma enorme cesta de café da manhã para estar mais próxima de um figurão, que passava por momento delicado.
Queria ter fama de útil e íntima de poderosos.
Não havia data especial em que não sacrificasse a família para estar ao lado daqueles a quem servia, com a lealdade de um cão pouco confiável.Comparação injusta, cães não votam, não traem, enfim.
Oferecia as iguarias favoritas de cada um, tentando agradar aos amos, que esses eram vários, sempre.
Aos poucos, desenvolveu a paranóia que estaria sendo vigiada, por causa das suas tarefas tão importantes. Ela sabia demais!
Ouvia clics no celular e identificava uma respiração ofegante no telefone. Tudo estava grampeado!
Era capaz de rasgar uma carta e distribuir os pedaços por dez lixeiras diferentes, e não achava isso nem um pouco estranho. Fazia a mesma operação com cartões de crédito fora da validade. Um pedaço na lixeira da sala, outro no banheiro…os demais, ía espalhando pela Arterial 18.
Durante a disputa eleitoral, listava os simpatizantes da oposição, para informar sabe-se lá a quem. A verdade é que ninguém deu-lhe muita importância ou atenção, nem aos seus relatórios estratégicos, que se multiplicavam em pastas transparentes, todas numeradas.
Quando as urnas elegeram a tal da oposição, ela surtou de vez. Acusou as amigas de corpo mole e caçou culpados. Repetia histórias mirabolantes de sabotagens e perseguições.
Parecia a doida de carteirinha da crônica do Ed, mas sem aquele charme e nenhuma veia artística. Essa era uma maluca muito chata.
Gaguejava constantemente e passava dias rasgando papéis inúteis, que chamava de documentos sigilosos.
Uma tarde, ao carregar a bandeja até a casa de um dos seus tutores, descobriu que lá já não havia ninguém, há mais de mês.
A família tinha viajado para Fortaleza, onde já estava instalada na praia de Iracema, sem deixar o novo telefone.
Sentiu-se órfã, de repente.
Não haviam dito até logo, obrigado ou qualquer coisa simpática.
Logo com ela, que era quase da família. Mas “quase” é que faz a diferença, queridinha!
Ficou uma semana em estado catatônico, até que amanheceu com um novo gás, uma nova energia e um brilho estranho no olhar de Pedro Collor.
Achava que Deus havia lhe enviado “sinais” e que agora sim, ela entendia todos os acontecimentos.
Colocou uma camiseta branca sobre o jeans e rumou para a loja de cds, buscando um exemplar de “Vermelhão”. Na volta, procurou o livro da Marilena Chauí e do Frei Leonardo Boff. Na agenda, os contatos dos companheiros.
As lentes cor de hortênsia foram para a gaveta, junto com quilos de correntes douradas e os escarpins de salto agulha. Ela agora era uma nova mulher. De tênis.
Sabia tudo sobre distribuição de renda e pretendia fundar a ONG Mulheres Abandonadas Empreendedoras do Jurunas e a Associação dos Comerciantes da Rua do Arame com Passagem São Benedito.
Deixou de freqüentar o La Vie en Rose e tornou-se íntima da muqueca da Apinagés, sempre despojada, com o look “crédito universitário”, brinco de pena e cordinha sebosa no tornozelo.
Na última vez que a vi, estava provando um terninho branco, com camisa vermelha.
A filha comentou que parecia o Zeca Pagodinho.
Mas ela suspirava, “Vou para Brasília, minha filha, me aguarde”.

COMENTÀRIOS ORIGINAIS:
26 de Setembro de 2007 20:57
tania_guimaraes3 disse…
Vera, achei essa sua “Maria Traíra” muito parecida com algumas muitas de nossas conhecidas… rsrsrsrsrs!!!
Mas independente de qualquer coisa, vc está de parabéns! É a primeira vez que acesso seu blog e já virei freguesa assídua viu?!
Beijos, beijos…

Tânia Guimarães

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