>Os monstrinhos de cada um

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O monstro de cada um
Sábio Dr. Adib Jatene, que disse que o que mata não é o colesterol, é a raiva. Preciso lembrar.
Todos nós temos monstrinhos, contidos em celas tramadas pela educação, regras e o olhar fiscalizador dos pais e da sociedade. A gente abafa o grito e a vontade de enfiar a mão na cara de uns e outros; aceitamos que nos digam aonde e como ir, o que dizer e quase o que sentir. Fazemos cara de paisagem, como se tudo estivesse bem; então tá.
Esses bichos que nos habitam são capazes de fazer qualquer anjo passar para o lado negro da força, alimentados com os sapos que empurramos goela abaixo. A obrigação de ser culta, rica, magra, loura e interessante; viagens não feitas ou mal feitas; gente chata que pede atenção constante, potes de vontade de ser amada e emocionalmente equilibrada; e o pior dos combustíveis: essa estupidez que agora virou comportamento comum. Ninguém diz obrigado, pede licença para passar trombando na gente, ou responde com gentileza perguntas banais. Quase ninguém dá passagem no trânsito (principalmente mulheres), muitos acham que é só ligar o carro e acelerar (principalmente homens) sem olhar quem vem passando. A maioria distribui patadas por qualquer bobagem e assim galopa a humanidade.
Dizem que a gente deve arejar “a jaula” de vez em quando; meu sótão é vizinho do teclado, um perigo: posso até engolir, mas vou acabar escrevendo…
Às vezes nem precisa ser uma coisa assim, muito importante. Meus monstrinhos se alvoroçam com miudezas e me obrigam a um esforço enorme para mantê-los longe de cristais e cristaleiras.
Algumas amigas também têm problemas com seus instintos, nas mais diversas situações. Até a Jô -uma criatura que só não é santa porque é evangélica – foi mais uma das vítimas da “Nazista do Bufê”.
A famigerada mocinha, além de servir, por muito favor, uma (e só uma!) colher (modesta) de camarão (só o entulho) ainda tirou sarro. A mesa estava vazia, minha amiga veio “na contra mão” e não viu as plaquinhas com o nome dos pratos… “O que é?”, perguntou toda animada. “Bacalhau, não está vendo?”, rosnou a dita, apontando a identificação com a colher. Humilhada, Jô ainda foi cordata: “Desculpe, achei que era peixe”. A resposta veio mais atravessada: “Que eu saiba, bacalhau é peixe!”.
Jô conteve os monstros, não as lágrimas. O que era festa virou aguaceiro.
Confesso que só de ouvir, alguns macaquinhos pularam. Como assim, cara pálida?
Indaguei um maitre sobre esse costume antipático. Acho que a garçonete deveria estar gentilmente à disposição de quem precisasse de seus préstimos. Peixes inteiros são difíceis de servir com rapidez, concordo. Sem titubear, ele me disse que o problema é que os convidados “são muito mal educados e catam os camarões e o bacalhau”. Como é?
Mal educados? Agora é assim, qualquer um acha que nos pode “educar” e ainda dar uma palmadinha? Que tipo de educação tem quem não respeita os convidados? Espera aí, que fiquei bege. Só em Belém a gente atura essas coisas… Enquanto tomo maracugina, imagino como se sentiria o dono da festa, que gastou horrores, sabendo que a “mocinha” contou camarões.
Fui levar o carro para trocar óleo, verificar pastilhas e amortecedores. Ligaram, dizendo que era necessário trocar as buchas da bandeja. Ok, podem trocar.
Cheguei as seis e o rapaz me disse que não fizeram o serviço completo porque ainda dava para “aguentar mais um tempo”, que as buchas estavam “no começo do problema”. Em suma: não deu tempo e eles resolveram me enrolar, pois acham que podem. Todo mundo pode tudo, é o caos!
Lembrei do Dr. Adib Jatene. Contive os ímpetos e resolvi fazer o exercício de respiração do Gaiarça. “Que ódia!”.
Dá até certo alívio, saber que não sou a única a ter que segurar a macaca diante de tanta gente que pensa que pode fazer qualquer coisa.
Mas até quando, é que eu não sei.

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