>Amando quem não quer ser amado

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Quem nos dera, que na vida real, essa dificuldade fosse resolvida por um mago chinês, que nos desse algumas ervas para “envenenar” a pessoa com quem parece ser impossível conviver, e, nesse processo, a gente amansasse o coração rebelde com doses homeopáticas do amor perseverante. Seria mágico.
Mas não é tão simples. O mestre Fernando Pessoa tem a medida do amor amigo, aquele que gostaríamos, fosse correspondido pelo irmão, pelo parente arredio, pelo colega que não responde; por alguém que se vai sem notar o quanto nos é caro. A fraternidade é cara e dolorosa.
Numa parede qualquer, pertinho do Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, li o “Poema do amigo aprendiz”, que mais parecia um recado ao meu coração aflito:
“Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias.” (Fernando Pessoa)

Sob a sombra das árvores que abrigam quem chega a Torre de Belém, entre ciganos que vendiam echarpes coloridas made in China, comprei um lencinho, com os mesmos versos não me saíam da cabeça. Tomei a coincidência como um sinal; e de vez em quando lembro que faz parte calar – e esperar é uma ciência.
Algumas pessoas – amigos ou parentes – a gente ama incondicionalmente. Pouco importa se é correspondido, ou se não retornam as ligações. Fingem estar viajando ou fazem o possível para não encontrar quem quer que possa ter-lhes carinho ou um vestígio de afeto. É a sina dessa infeliz existência negar-se ao amor, ao melhor amor- aquele que nada pede ou espera em troca. Um amigo muito rabugento me disse certa vez que é mais fácil perdoar uma bofetada que um abraço. Enfim.
Ora, que se danem, diria alguém. Que fiquem sós que eu nem cumprimento, diria outro.
Mas assim estaríamos, também, prisioneiros dessas teias que encarceram vidas quase não vividas. Não! Pouco importa o que eles ou vocês acham!
Deixem-me continuar como os versos de Pessoa, amando na melhor medida que eu puder, calando quando o melhor é nada falar e mais, guardando o que deveria ser dito, inclusive do quanto sinto falta, do quanto amo você.
Há de chegar o dia em que, finalmente, se deixarão amar. Ainda que o medo de perder e de sofrer atrapalhe os dias, eu estarei aqui.
Que falta sinto de você. Como amo você – apesar de você.

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