>Bramasole: o que anseia pelo sol

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Sob o sol, na madrugada
A única vantagem de estar eventualmente insone é poder passear por uma enormidade de canais, curtindo uma das minhas paixões. TV é tudo de bom, como diria a amiga Rejane (Barros, claro!). De um episódio da Discovery sobre Henrique VIII – ele foi um atleta, quem diria!- passo pelo fenômeno musical adolescente, o irritante Justin Bieber, o menudo da hora. Tenho ímpetos de dar uns coques no molequinho metido, que aprecia “mulheres mais velhas”; então tá, que falta faz um puxão de orelha ou uma escova, toma tenência, moleque!
Estou inquieta, são duas e meia da madrugada, preciso dormir e ainda tem essa dor de garganta chata… A próxima atração me acalma; vou assistir, mais uma vez, Sob o Sol da Toscana. Poucos filmes foram (e são) tão assistidos quanto o drama açucarado da escritora Frances Mayes (vivida na tela por Diane Lane) que resolve desembarcar de uma excursão pós-divórcio-traumático e arriscar-se na compra de uma casa em ruínas… em plena Toscana. O filme, de 2003, permanece como fonte inspiradora para muitos e mesmo nas incontáveis reprises, é um bom programa; apesar dos entendidos detestarem. Ninguém é perfeito.
Qual a razão de tamanho sucesso? As paisagens – encantadoras – da Toscana não são a única razão. O enredo trata de dar-se uma nova chance, pouco importa quantas. De ousar, de ter coragem de arriscar! Trata do bem querer, entre novos e velhos amigos e, em especial, de buscar antes de um novo amor, um lar – o que é muito mais que um teto… Viver numa casa onde a gente se reconheça e cada detalhe seja fruto de carinho é muito prazeroso – e nem é essencial que ela nos pertença há décadas. (A casa chama-se Brasole… Algo que “anseia pelo sol”.) Como os amores, existem casas que nos conquistam à primeira vista; outras, a gente vai dando um toque aqui, outro ali, muda isso e aquilo até que parece termos vivido lá a vida inteira. Casa é qualquer uma, lar tem a nossa cara.
O filme trata de gente – suas alegrias e tristezas, dúvidas e descobertas. Quem nunca sentiu um desinteresse desesperador pela própria vida? Aquela certeza de não pertencer mais a esse lugar e precisar sair, em busca de um novo porto? Mas quantos podem fazer isso?
Poder resumir a bagagem a algumas caixas com o mais valioso, livros, fotos, só as roupas que usamos de fato; isso sim é deixar para trás o peso morto, para seguir adiante mais leves, de fato. Nos filmes isso é fácil. Na tal da vida real, muito raramente. Somos fiéis depositários de um monte de coisas que recebem um valor muito maior do que possuem. Carregamos lotes de objetos adquiridos à custa de algum sacrifício, como largar tudo assim, de uma hora para outra? Frances sofreu um divórcio extorsivo para chegar à conclusão que podia viver sem a mobília ou tudo que julgava imprescindível. ( Para outros, bastaria esse trânsito, o lixo, a mesmice, a canalhice de alguns que se dizem procuradores dos nossos interesses. Bastaria a propaganda eleitoral. Cadê coragem?)
Numa outra madrugada, assisti “House Hunters International”, série que acompanha a saga de pessoas comuns que procuram um novo lar, em outro país. Um radialista saiu dos Estados Unidos em busca de uma casa na Toscana, depois de assistir diversas vezes ao filme, imaginando se teria coragem… Como trabalhava com as corridas, cujas atividades ficam suspensas durante cinco meses, resolveu que teria outro lar, na Itália. O melhor foi ver que esse não é um sonho tão impossível. Por 45 mil dólares (sim, dólares) arrematou uma casinha com vista espetacular, mas em estado calamitoso, numa pequena aldeia próximo de Abruzzo; mais em conta que a Toscana e bem perto dela. Acompanhou pessoalmente a reforma que consumiu mais vinte mil dólares e, ao final, já tinha uma porta esmaltada de vermelho e vasos de gerânios sob sua janela – com vista para um prado, onde no verão, estariam milhares de girassóis. Por cinco meses em cada ano, o sonho seria realidade.
Ai, ai… Confesso que tenho inveja de quem ousa, de quem tem tanta coragem assim… Tento me conformar, talvez nem precisassem ir tão longe…
A Toscana pode ser qualquer lugar, onde a gente se sinta feliz e em paz, para onde valha a pena voltar, consolo-me… Ou um filme bonito que me faz sonhar durante a madrugada em claro…

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