>Minha amiga perdeu um filho

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Alto, forte e belo, aos vinte e um anos quedou-se numa rajada de balas -o que poderia lembrar aquela música que cantamos tanto,“ Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”. Mas o enredo dessa morte não foi épico.
Minha amiga perdeu esse filho várias vezes; viu-o passar pela morte durante anos até despedir-se de seu corpo maltratado, rogando aos céus que descansasse na eternidade. Na dor desse pranto, há certo alívio por saber que o sofrimento do ser amado é findo; o que a faz roer-se em remorsos, imaginando o que poderia ter feito e, sem forças, não fez – como muitos outros pais.
Minha amiga viu o filho morrer desde a primeira vez que o flagrou com drogas e acreditou que era apenas uma fase e, mãe amorosa, pediu a Deus por sua criança. É da humanidade das mães preferir não acreditar. Das drogas leves às pesadas, aos furtos, roubos, tráfico e gangues armadas, foram apenas três anos. O seu bebê desapareceu, dando lugar ao traficante, capaz de roubá-la, ameaçar a irmã e surrar a namorada.
Na internet circula o artigo de uma “Carla Kristine, Psicóloga Clínica”. Verdadeiro ou não, o texto – apesar de tendencioso e superficial – provoca discussões oportunas, inclusive sobre a postura equivocada –e comum – de condenar pais pelos erros de filhos, como se fossem culpados pelas escolhas que seus rebentos farão vida a fora. Não por acaso, minha amiga me encaminhou uma cópia e um pedido, para que tocasse nesse difícil tema: a banalização das drogas, a culpa que pais carregarão, e a sociedade, fingindo que está tudo bem… Muitos desses pais aflitos foram os adolescentes da geração “paz-e-amor”; alguns até, eventuais consumidores da erva; na época, quase um movimento intelectual – e que jamais imaginaram enfrentar esse tipo de problema, com os próprios filhos. A paz e o amor se foram – e os sonhos viraram quase agonia.
Entre tantos equívocos, o primeiro é achar que traficante é alguém pobre, horroroso, mal vestido e que mora na periferia. Ele – ou ela – pode estar no seu sofá, comendo seus sanduíches e pedindo que lhe coce as costas. E continuará sendo o seu bebê. E aí? O que se faz numa situação dessas? Não sei, de verdade.
Essa poderia ser parte da história de tantos jovens, cujos pais seriam capazes de qualquer coisa para escrever outro final; mas tenho certeza que nenhum que tenha perdido um filho em circunstâncias decorrentes do uso de drogas, se prestaria a vender sua memória como um herói urbano a ser cultuado – como a psicóloga retrata a vida de Cazuza e a relação com os pais.
Como se não bastasse assistir a agonia de um filho dopado e surdo aos apelos e ao sofrimento da família inteira, ainda existe quem venha dizer que a culpa é do pai super protetor ou da mãe ausente, que crueldade!
Que pecado os pais de Cazuza cometeram, que qualquer um de nós não cometeria? Que pai não ajudaria o filho talentoso a gravar seus poemas? Que mãe não afaga um filho que se cura de uma ressaca? Criticarão pais de uma forma ou de outra, sempre; a omissão dificilmente é intencional, talvez seja apenas uma última e silenciosa oração, pedindo a Deus que “não seja verdade”, implorando que a Virgem olhe por mais um filho perdido… Exatamente como você faria, doutora.
Tenho certeza que a maioria que assistiu ao filme sobre o Cazuza, ou ao inquietante “Meu nome não é Johnny”, sabe separar alhos de bugalhos. Existem dois Cazuzas; o talentoso artista e o ser humano, vítima de si mesmo e do sistema com o qual jamais soube lidar. Os filmes mostram sim, o drama das escolhas – malditas escolhas – de seus protagonistas. Idolatra-se o artista; já o drogado, promíscuo e infeliz nos serve de exemplo, infelizmente.
Como haveremos de manter crianças longe das drogas, com essas versões caolhas daquilo que mais tememos e não temos segurança (ou conhecimento) para, sequer, explicar? Cazuza não foi um herói. Foi marginal, sim; inspirado, lírico, mas marginal. Como o filho da minha amiga, como o desconhecido que aterroriza o Guamá ou a Rocinha.
O mundo é louco, minha amiga, e não sei como passar por ele, incólume.
Até um tempo atrás, a gente acreditava que oração, amor e atenção – e boas intenções- bastavam. Mas não bastam. E honestamente… Não sei como ou o que será.
Alto, forte e belo, aos vinte e um anos quedou-se numa rajada de balas -o que poderia lembrar aquela música que cantamos tanto,“ Era um garoto, que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones”. Mas o enredo dessa morte não foi épico.
Minha amiga perdeu esse filho várias vezes; viu-o passar pela morte durante anos até despedir-se de seu corpo maltratado, rogando aos céus que descansasse na eternidade. Na dor desse pranto, há certo alívio por saber que o sofrimento do ser amado é findo; o que a faz roer-se em remorsos, imaginando o que poderia ter feito e, sem forças, não fez – como muitos outros pais.
Minha amiga viu o filho morrer desde a primeira vez que o flagrou com drogas e acreditou que era apenas uma fase e, mãe amorosa, pediu a Deus por sua criança. É da humanidade das mães preferir não acreditar. Das drogas leves às pesadas, aos furtos, roubos, tráfico e gangues armadas, foram apenas três anos. O seu bebê desapareceu, dando lugar ao traficante, capaz de roubá-la, ameaçar a irmã e surrar a namorada.
Na internet circula o artigo de uma “Carla Kristine, Psicóloga Clínica”. Verdadeiro ou não, o texto – apesar de tendencioso e superficial – provoca discussões oportunas, inclusive sobre a postura equivocada –e comum – de condenar pais pelos erros de filhos, como se fossem culpados pelas escolhas que seus rebentos farão vida a fora. Não por acaso, minha amiga me encaminhou uma cópia e um pedido, para que tocasse nesse difícil tema: a banalização das drogas, a culpa que pais carregarão, e a sociedade, fingindo que está tudo bem… Muitos desses pais aflitos foram os adolescentes da geração “paz-e-amor”; alguns até, eventuais consumidores da erva; na época, quase um movimento intelectual – e que jamais imaginaram enfrentar esse tipo de problema, com os próprios filhos. A paz e o amor se foram – e os sonhos viraram quase agonia.
Entre tantos equívocos, o primeiro é achar que traficante é alguém pobre, horroroso, mal vestido e que mora na periferia. Ele – ou ela – pode estar no seu sofá, comendo seus sanduíches e pedindo que lhe coce as costas. E continuará sendo o seu bebê. E aí? O que se faz numa situação dessas? Não sei, de verdade.
Essa poderia ser parte da história de tantos jovens, cujos pais seriam capazes de qualquer coisa para escrever outro final; mas tenho certeza que nenhum que tenha perdido um filho em circunstâncias decorrentes do uso de drogas, se prestaria a vender sua memória como um herói urbano a ser cultuado – como a psicóloga retrata a vida de Cazuza e a relação com os pais.
Como se não bastasse assistir a agonia de um filho dopado e surdo aos apelos e ao sofrimento da família inteira, ainda existe quem venha dizer que a culpa é do pai super protetor ou da mãe ausente, que crueldade!
Que pecado os pais de Cazuza cometeram, que qualquer um de nós não cometeria? Que pai não ajudaria o filho talentoso a gravar seus poemas? Que mãe não afaga um filho que se cura de uma ressaca? Criticarão pais de uma forma ou de outra, sempre; a omissão dificilmente é intencional, talvez seja apenas uma última e silenciosa oração, pedindo a Deus que “não seja verdade”, implorando que a Virgem olhe por mais um filho perdido… Exatamente como você faria, doutora.
Tenho certeza que a maioria que assistiu ao filme sobre o Cazuza, ou ao inquietante “Meu nome não é Johnny”, sabe separar alhos de bugalhos. Existem dois Cazuzas; o talentoso artista e o ser humano, vítima de si mesmo e do sistema com o qual jamais soube lidar. Os filmes mostram sim, o drama das escolhas – malditas escolhas – de seus protagonistas. Idolatra-se o artista; já o drogado, promíscuo e infeliz nos serve de exemplo, infelizmente.
Como haveremos de manter crianças longe das drogas, com essas versões caolhas daquilo que mais tememos e não temos segurança (ou conhecimento) para, sequer, explicar? Cazuza não foi um herói. Foi marginal, sim; inspirado, lírico, mas marginal. Como o filho da minha amiga, como o desconhecido que aterroriza o Guamá ou a Rocinha.
O mundo é louco, minha amiga, e não sei como passar por ele, incólume.
Até um tempo atrás, a gente acreditava que oração, amor e atenção – e boas intenções- bastavam. Mas não bastam. E honestamente… Não sei como ou o que será.

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