>Com farinha e açucar

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Com açúcar: o meu crime perfeito
Por algumas horas, a casa é quase só minha. A família está longe e apenas as duas gatas silenciosas me escoltam no corredor vazio. No quintal, a Babi dormita sob o sol escaldante, vá entender os gostos da lustrosa “vira-latas” que aqui é princesa? Que reine, então… Sei que vão me achar uma desnaturada, comemorando a solidão como quem arquiteta um plano mirabolante e disfarça, para não chamar atenção…Mulheres entenderão, de tempos em tempos, estar só é uma dádiva, praticamente um banquete a ser apreciado aos poucos, fazendo com que cada segundo dure uma pequena eternidade; a véspera de uma grande festa, melhor que a própria.
Ligo o ar-condicionado e em meia hora é quase inverno, o piso frio e a pele fresca tornam tudo melhor ainda. Tento esquecer a bagunça e focar no mais importante: a minha grande travessura. Arrumo a mesa acolhedora, toalha antiga de xadrez macio, dessas que carregam anos de histórias familiares em nódoas quase imperceptíveis. Quase.
Uma cumbuca branca, colher de tamanho médio e ponta arredondada, quase sob medida para a boca que prepara o crime. Açúcar alvo e solto, pedras de gelo, fritura salgada e torradinha para tirar o gosto e, na jarra, ele, o meu açaí favorito, geladíssimo. Nem papa que me empapa, nem ralo que encharca as farinhas. Açaí do médio, honesto e saboroso. No ponto exato de sair da jarra, ágil e brilhante, deixando o aroma tomar conta de mim e dos meus instintos. Outras cumbucas guardam as duas farinhas, d’água de Bragança e tapioca miúda; açaí exige detalhes, quase pompas. Nesse momento, viro a cabocla lerda e de poucas palavras lá das bandas do Marajó. Uma quase matuta, descalça, saia recolhida no regaço… Agora não quero papo, telefone não foi feito para se atender a toda hora; que toque, estou tomando meu açaí. A TV, quase sem som, é apenas berço para deitar o olhar e mais nada. O mundo parou, a vida é só aqui.
Num ritual, coloco o açúcar no fundo e deito-o, preguiçoso, para então misturar até que assuma um tom mais fechado, a cor de açaí adoçado. Acrescendo as pedras de gelo, mais para derreterem fazendo contraste de texturas, do que para gelar, de fato. Espalho um punhado da farinha baguda e crocante, que cai como nas cenas da Nigella numa aula de culinária na TV… Sem pressa, vou comendo camadas alternadas das duas farinhas, mal mergulhadas no vinho intenso. De vez em quando, uma pausa para o pirarucu que estala, crocante, e me cobre as papilas com salgado… É-g-u-a da delícia!
Alguém toca a campainha. Não me mexo, se tivesse alguma importância, teriam ligado; para a correspondência, há a caixa; para o resto há o depois; agora, não. Tocam a segunda vez e depois esquecem, não disse que não era importante; alguém talvez quisesse ler um trecho da Bíblia, mas logo agora que estou rezando?
Tomo colheradas lentas e meditabundas, que açaí foi feito para pensar e não falar. Lembro a vida corrida que ficou lá fora e sorrio; o mesmo sorriso de quem acabasse de roubar a Monalisa ou a receita do creme brulèe da Ameliè Pulain. Realmente sou um gênio do mal, capaz de surrupiar as horas e delas fazer uso da maneira mais egoísta do mundo: tomando um solitário e delicioso açaí.
Depois da última colherada, um pouquinho de água gelada; dizem que é para não dar azia; acho que é pura avareza, mas não discuto. No quarto gelado, a rede com cheiro de sol e ares de um não fazer mais nada até Deus sabe quando. Telefones desligados, TV num seriado sobre a história da humanidade; ah, se o homem macaco tivesse tomado açaí, onde estaríamos? E agora, dá licença, por favor, que vou dormir uma sesta. Uma horinha só, no máximo duas, e depois tudo pode voltar a ser como dantes. Por enquanto, não fale, não vou entender nada mesmo e se é por falta de adeus, até logo!

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. F.Aragão
    nov 16, 2010 @ 16:37:26

    >Vera, quanto tempo menina!quanta saudade de nós na redação da Tv Liberal anos atrás…tempo bom, seu Romulo chegando e acenando para nós e tu me aconselhando a fazer luzes em meu cabelo(nunca esqueci) o que realmente funcionou muito bem. Aí minha prima envia tua crônica sobre tomar açaí…linda, perfeita, adorável (como diz meu neto de 5 anos)eu tomo litros de açaí e por causa disto ,hoje ele me disse que pareço uma 'hamster' fofinha!!! adorei. Olha tb tenho um blog e gostaria que visitasses, http://www.osabordaamazonia.blogspot.com que serve para matar saudades de Belém e para não parar de escrever totalmente (me aposentei após um enfarto) e resolvi que ficarei de pernas para o ar!!! olha vou parar aqui, vamos ver se nas proximas vezes (vou bastante)que for a Belém nos encontramos. Amei poder te escrever, beijos da Fátima (ex-Gondim)e já há muito Aragão.

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