Para uma neta


Andei pensando no que diria, com toda a sinceridade, a uma neta que hoje estivesse entrando na adolescência. Porque neta e não filha? Por que hoje, com uma filha casada, já aprendi mais do que sabia quando ela adolescia – na adolescência elas pensam que sabem tudo e o que quer que você imagine para seu futuro – o delas – irá corresponder ao que elas escolheram.
Hoje tenho uma visão muito mais clara do efeito dessas escolhas sobre nossas vidas. Viver é abrir mão.
Não, nem tente me convencer que os mais habilidosos conseguem conquistar “tudo”, encaixar todos os sonhos. Certas coisas são inconciliáveis.

Antes, o dilema de toda mulher era escolher entre família e carreira. Isso sempre me pareceu uma enorme bobagem, afinal, raramente a carreira de quem já havia casado era algo assim, “uma Brastemp”. Sem menosprezar ninguém, qual é o problema entre ser médica e ter marido e filhos em casa? O mesmo que enfrenta a sua doméstica, com a diferença que ela balança quatro horas por dia num busão fedorento e tem grandes possibilidades de encontrar o marido bêbado – ou pronto para uma briga “daquelas”.

Foi-se, há muito, o tempo em que mulheres escolhiam “não trabalhar fora”. Hoje, só as privilegiadas por uma situação financeira confortável, podem escolher administrar a casa e educar os filhos full time. Na verdade, muitas que têm todo o tempo livre, preferem ficar nas academias, nos shoppings e coisa e tal, a acompanhar a vidinha dos filhotes. Sei de mulheres que aturam qualquer coisa das babás e empregadas; tu-do, menos “tomar conta dos filhos”. Enfim, cada qual no seu quadrado.

O que eu realmente gostaria de dizer para uma neta é que ser mãe vale a pena. Mas que se eu soubesse tudo o que sei, teria feito muita coisa antes. Coisas que a maternidade adia ou simplesmente, cancela. Eu queria muito sair de casa e ver o mundo – e achei que casar era o próximo passo. Poderia não ter sido.
Hoje eu teria viajado – muito e mais cedo do que imaginam. Não proporcionei isso à minha filha, além daquelas viagens rotineiras para o circuito Disney e companhia que, culturalmente, quase nada acrescentam. Quando percebi o quanto passar uma temporada na Europa (principalmente) ou nos Estados Unidos (um tanto menos) poderia significar na história de vida, ela já tinha laços afetivos e suas próprias escolhas que não incluíam estar longe daqui.

Por tudo isso, eu tentaria chamar a atenção de uma neta para as coisas que ela teria possibilidades reais de viver – e que, se “focasse” a questão casamento e família, provavelmente jamais teria outra chance. Viajar, viver fora, encarar o modo de viver europeu de pessoas iguais a nós, onde cada um limpa o próprio banheiro e frita o próprio bife. Ter a chance de aprender na prática o quando mais importante é “ser” do que “ter”. Desculpem o trocadilho, mas não tem preço.

Não conheço uma mulher que tenha conseguido ir atrás de sonhos assim, depois de incluírem marido e filhos no roteiro. Aliás, conheci uma, que estava na Itália e encarou uma seleção para coro de uma igreja (ou uma escola de música, não estou certa!), e acabou ficando dois anos na…Toscana!
Ao ouvir essa história, fiquei extremamente feliz, pois mesmo tendo um filho, ela teve a coragem de ousar ficar dois anos longe; claro que isso só foi possível por causa dos avós que ficaram com a criança etc. Mas é difícil encontrar mulheres capazes de escolhas que, para os homens, são corriqueiras.
É da mulher se sentir como os pilares do templo; carregamos tudo às costas: família e companheiros.
Então, diria… Vá, minha criança. Explore o mundo, viaje, aprenda e seja feliz. Um dia, quando escolher a maternidade, será a melhor mãe que puder ser. E ainda assim, não deixe de realizar aqueles pequenos sonhos que às vezes parecem impossíveis. Filhos de mães que sabem soltar as rédeas e têm vida própria são mais felizes, acredite.
Voe, voe muito. E me conte como é o cheiro do mar do Hawaii, a vida naquela ilha da Grécia, o vinho tomado na Ribeira, na cidade do Porto.
Acumule recordações e não tralhas – isso é ser, realmente, rico.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Anonymous
    fev 07, 2011 @ 08:54:30

    >Parabéns pelo ótimo texto. Também compartilho desse sentimento. Como queria ter podido fazer isso, viajar o mundo. Hoje, com as responsabilidades de chefe de família, fica muito mais difícil. Espero que minha filha um dia compartilhe esse desejo de conhecer as coisas, e tenha a coragem que não tive.

    Responder

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