Lembretes (crônica)

Todo mundo já foi assim, um dia...

Cansada, ela pensou em como a vida havia mudado. Onde se perderam? Quando preferiram calar durante horas, em vez de puxar conversa, aquela coisa simples de “como foi seu dia?”… Não lembrava quando o ciúme dera lugar à curiosidade, à vontade de experimentar, de variar… De sentirem-se vivos, capazes de inspirar alguém – ou a si mesmos. Aos poucos, os planos deixaram de ser a dois e a rotina era vivida a três, quatro…

Enquanto separava “o que é seu, do que é meu”, ela entendeu que a partilha era o espólio do seu casamento. Morto por inanição, sufocado por pequenas rusgas que se acumulavam em brigas homéricas. Crueldades íntimas que ceifaram risos e conversas animadas; noites de trocas amorosas sepultadas, lado a lado com o desejo e a rara vontade de voltar para casa.

Entre os destroços desse amor, havia uma caixa de fotografias e recordações da época em que adoravam registrar as bobagens que fazem a vida feliz. A pedrinha em forma de coração catada numa praia em Nice, na primeira e única viagem à Europa, numa excursão barata… A vela do batizado da caçula, com um minúsculo Espírito Santo em biscuit. A foto da lua de mel, numa barraquinha do Atalaia… Sorriu ao ver que sorriam. Quando haviam parado de sorrir? Espalhada na cama estava a história de duas pessoas que se amavam – e talvez tivessem esquecido.

Ela não conseguiu escolher o que era de cada um, ou teria que rasgar fotografias pelo meio, como nos filmes italianos, e nem assim, estariam separados. Em vez disso, saiu e comprou porta-retratos, fez ampliações e pôsteres, e espalhou a parte feliz daquela história pelas paredes; beijos em quatro cantos e o melhor de todos, no quarto. Na porta de vidro, resplandecia translúcida, a imagem do pedido de casamento; uma cena ensolarada, com o mar de Salinas por testemunha. Depois de alguns retoques, ali estava o casal, olhos nos olhos, cheios de promessas. Como puderam esquecer o quanto era essencial beijar? Beijo de verdade, de entrega de corpos, almas e línguas… Teve saudade.

Uma amiga sentenciou: A foto na porta, era cafona. Pois felicidade é a cafonice mais gostosa que existe, e lá ficou o beijo, aguardando o marido.

Propôs saírem “apenas” para conversar – justamente o que não faziam há muito – e permitiu-se ouvir o quase ex-amado, encantar-se com o jeito dele contar uma bobagem qualquer… Como antigamente.

Pediram-se muitos perdões. Por todas as noites em que, para vingar-se dele, ela negava-lhe sexo e ele virava para o lado e sonhava com a amiga cúmplice e solidária. Pelos dias em que ele não foi ao cinema, já que ela também não aceitava a pelada com amigos. Pelos discos dele, que foram rebaixados à “tralha”. Por todas as ocasiões que ela cortou o cabelo e ele não notou. Pelos aniversários das gêmeas que viravam mega eventos, todo ano. Pela conversa com amigas no telefone, no Messenger, no Twiter, no corredor do shopping. Pelas horas que ele passava no computador… Finalmente perdoaram-se pela falta de carinho, de lealdade, de paciência.

Felicidade não tem efeito imediato ou garantido, mas tem lá suas manhas. Ela acreditava que lembrar momentos felizes ajudava a recuperar – e manter – boas perspectivas. Por isso espalhava as fotos dos melhores momentos, tentando semeá-los.

Ao lado dos perfumes na penteadeira, a imagem emoldurada dos dois, rindo durante uma conversa qualquer, lembrava-os de jamais passar um jantar sem dar uma palavra, um com o outro. Mas a amiga insistia, a porta ainda era muito cafona.

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