Barraco (crônica)

Ela gritava em alto e bom som, como costumam dizer os mais antigos. Berrava, mesmo. Como você teve a au-dá-cia de me trair? Q-u-e-m você pensa que é?

Nessas alturas ele já nem a ouvia. Tinha desenvolvido uma técnica para alienar-se, quando ela entrava num desses surtos de mania de grandeza, quando se achava tão, tão, tão…que o outro devia ser louco, para ter a ousadia de olhar, sair, quanto mais beijar, outra mulher. Parecia que ela achava que ele precisava de autorização. Que fidelidade é algo imposto.

Mas ele tinha sido louco o bastante. Justamente por isso…Essa arrogância tinha sido quase um desafio. Um estímulo. Traia-me se for capaz…

Não que a outra fosse um espetáculo, nem era. Mulher mais velha, mais madura, mais engraçada. Isso mesmo. Aquela mulher que o fazia rir. Riram tantas vezes, antes e depois daqueles encontros tórridos, sem nenhuma restrição. Mas também não tinha sido só por conta do sexo gostoso. Não.

A outra era uma pessoa comum, que não tinha acessos de raiva por causa do trânsito ou cinco minutos de atraso. Não reclamava quando ele roncava depois das tardes de amor e esforço. Aliás, ela ria do próprio ronco. Não cobrava dele aquilo que ele não estava pronto a oferecer.

Outras, em geral são assim, mais fáceis de lidar. Comem o que tiver, aceitam hotéis meia estrela ou estrela nenhuma, enfatizam que a companhia é o que importa. Esposas? Ah, tudo deveria ser sempre melhor do que você escolheu. A frase nem era dele.

Ah, a outra. Ele tinha sido bem feliz, afinal, a madame tinha levado quase três anos para descobrir e só descobriu tudo porque ele deixou o celular sobre a mesa sem apagar o torpedinho; nada que comprometesse, uma senha amorosa que só os dois amantes sabiam do que se tratava: “? *#!!!”

Seis símbolos que só os dois entendiam: Onde você está? (?) Um beijo (*) Me liga quando der (#) e te amo, te amo, te amo (!!!).

Ele quase sorriu quando a patroa quase lhe enfiou o celular na fuça, rangendo dentes: “O que é ISSO?”. A rotina era quase, quase…

E como eu vou saber? Mentiu.

Mais uma vez a outra teve que trocar o chip. Iria reclamar mas em dois dias, estariam rindo da situação.

A esposa, não. Ela iria falar pelos próximos dez anos. Ele a ouvia contar para a mãe que não entendia como o marido, aquele babaca, tinha tido a ousadia de sair com outra mulher. E a sogra, sentenciava: “Essas vagabundas fazem de tudo, minha filha. Você nem imagina as perversões.”

E ele lá, fingindo que estava lendo o jornal, só lembrando da outra. Pervertida? Nem tanto, mas a coroa era quente.

Coroa sim, adoraria dizer para a esposa que a traía com uma mulher mais velha, mais gorda e menos bonita – e que adorava. Ela bem merecia ouvir isso. Ah, se ele tivesse coragem e disposição para enfrentar esse barraco…

Mas não podia se dar esse prazer.

As coisas até se acalmaram, mas de vez em quando, sua santidade, a esposa, era tomada por enxaquecas e pitis, que bem podiam indicar que ela ainda pensava na traição. Insistia em saber o que ele fazia com a outra, onde faziam e esses detalhes que mulheres querem saber das traições; a mente feminina é um abismo. E ele mentia; Nada amor, era só bate papo, amizade, carência de uma amizade…Não, nunca toquei nela, era só papo, mesmo.

Ela ficava uma fera. Conversa? E o que você tem para conversar com uma vagabunda? Por que não conversa comigo?

Ele se fazia de leso, pedia perdão mais uma vez, e mais uma vez eles fingiam que aquilo era um casamento e que isso nunca mais aconteceria novamente. Se pelo menos ela não perguntasse “como ele tinha tido a audácia…”

Até que ela pegou o celular – sempre esse maldito – e viu a mensagem de número não identificado : ? # <*> (.)!?

Ela gritou mais alto que daquela vez. Queria explicações. Ele olhou a mensagem pelo canto do olho e a vontade de rir foi maior. Danadinha, a outra, querer um negócio daqueles no meio da tarde…De um domingo?

E a esposa gritava, Quem você pensa que é? Seu idiota…e a baixaria de sempre.

Ele, na falta de outra opção devolveu o barraco,  fingindo-se ofendido  saiu, batendo a porta e sentenciando; Você é doente, vá se tratar, sua chata!

Ele sabia que mulheres odeiam quando são chamadas de chatas ou gordas. Mas gorda seria demias, ela seria capaz de enfiar a faca de pão no seu…Não, chata e doente, bastavam. No fundo, o que tinha vontade era responder:Sou o panaca que teve a coragem de trair você!

Bateu a porta e foi fazer o supermercado da semana. E responder o torpedinho. A briga já estava feia, pior não ficaria.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: