De flanelas e fraudes (crônica)

Voltando para casa, a chuva...

Tenho aversão a flanelinhas, flanelões e vendedores de esquinas.  Não é só medo, tento me defender, também, do mal estar que me causam.  Certas vezes me sinto culpada por não dar um trocado a quem precisa.  Mas tranco o coração, não quero que limpem os vidros, não vou baixar o vidro, não quero caqui.  

Certa vez um deles me disse que era apenas o vendedor, que a mercadoria tinha “dono”, um atacadista lá pras bandas da Cidade Velha, e que qualquer desconto sairia “da parte dele”. Fiquei imaginando quanto o rapaz conseguia ganhar, vendendo bugigangas. Já o “atacadista” faturava sem nota ou fiscal, bom pra ele. Mas o que toda a gente faria sem a esquina? “Não tem emprego, madama.”

Perto do Hangar já vi de tudo. Já vi um, urinando e pegando nos morangos em seguida; até contei essa cena aqui. Aliás, a tática do vendedor de morangos é fisgar a gente pela ganância. Ele se aproxima… “É três, é três…”. Você pensa logo num negócio da China, e pára. Parou, ferrou! Ele enfia três caixas pela janela, falando sem parar. Você faz as contas. Uau!  Três, por menos de dez… Trinta e nove, patroa! Quanto? Trinta e nove! Como assim? Tre-ze, cada. É, mané, quer comprar morango a preço de banana? Não são três, são TREZE cada, sacou?

Passei no esquinão lembrando que paguei esse mico para estimular os sentidos contra aquela gente queimada de sol, correndo e vendendo de tudo, infernizando quem tem o azar de morar por ali. O borrifo da chuva espantava a maioria, mas reparei numa figura conhecida, do cruzamento da Júlio César que o elevado acabou. Um homem franzino, tentando esconder-se sob uma palmeira castigada. Nos pés, os restos de um par de havaianas, já sem os calcanhares. Bermuda desbotada, camiseta e boné.  Num dos braços, oferecia flanelas arrumadas com aquela bossa dos garçons de antigamente. Nossos olhares se encontraram e senti vergonha por não comprar uma flanela. Tudo se passou rápido, mas não o suficiente para o sinal verde me livrar dessas crises de consciência.

Ele veio até o carro. Os lábios feridos pelo sol me lembraram as aulas de odonto, do que o sol pode fazer com lábios outrora saudáveis. Perguntei quanto era e coloquei a moeda na mão em concha, dispensando a flanela. Ele me olhou, com uma decepção enorme… “Mas por quê?” Entendi o que tinha feito: ele não estava esmolando, estava trabalhando.

Estacionei melhor, peguei uma cédula e pedi não uma, mas duas flanelas e, aí sim, ele aceitou uma gorjeta.  E abriu os braços, satisfeito: “De que cor?”, como se fizesse diferença. Uma de cada.

Segui meu caminho com um aperto enorme no peito. Eu havia baixado a guarda e via o ser humano e não o perigo.

Sob sol ou chuva, o homem vende retângulos amarelos e vermelhos para sobreviver, enquanto em algum lugar, alguém gasta o que amealhou fraudando o serviço público, praticando crimes ditos de colarinho branco; gente que não rouba flanela, só fortunas.

Enquanto um homem pobre se nega a receber esmola (que para ele faria diferença), uma jovem bonita e provavelmente bem nascida (cuja vida não deve ter sido difícil), não viu impedimento moral em participar do maior esquema de fraudes da Assembléia Legislativa. E não denunciou colegas de ilicitudes por conta da própria consciência, não senhor. Só delatou quando garantiu vantagens.

Enquanto muitos tentavam vender de tudo num sinal para faturar trocados e alimentar sabe-se lá quantas pessoas, seus legítimos representantes faziam negociatas, nomeavam parentes, domésticas, inventavam obras, escondendo-se atrás de eufemismos usados para amenizar a palavra que melhor define esses atos: roubo. De identidade, inclusive.

Ninguém merece isso.

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