Baladeira (crônica)

 

Ah, que essa história de divórcio aos 49 do primeiro tempo, isso era muita sacanagem. Tivesse sido aos 35, quando ela estava ótima e se sentindo melhor ainda, tudo bem, mas a proximidade dos 50 complicava tudo. Cinquenta é tão, tão… redondo. E dá um caloooor! Arre.

Primeiro tempo, sim, querida. O segundo estava começando. Desfalcado, é verdade. mas fazer o quê?

Tentava fazer o risco do delineador por cima da lente de um daqueles óculos que pareciam roubados do papai Noel.  Que droga. Usou delineador a vida inteira e agora, essa dificuldade.

Tudo parecia mais difícil nessa novidade de ir para a “balada”. Ultimamente, t-o-d-a-s as novidades eram difíceis… Academia! Lotada de mulheres com peitos e bundas duros ou siliconados – pra quê precisam de ginástica? Arrumar paquera na internet? Quase impossível, ela mal sabia digitar um currículo de meia página. E que idioma era esse, que mulheres que viviam “na night” falavam? Separada era divorciada, paquera era qualquer coisa, menos paquera. Ficante. Ginástica era malhar, namorar era pegar, ruim era “uó” e dinheiro, segundo o cabeleireiro baiano que tentava atualizar o seu “look”, era “acué”. Então tá, ela estava totalmente ultrapassada, era praticamente um Fiat 147 disputando um racha com uma BMW. BMW?  Bastava ser um pouco mais confortável que um fusca e ter um ar geladinho, já estava bom. Mas que calor, infernal!

O caso é que hoje ela iria, pela primeira vez, para a Ba-la-da! Três points numa noite- se não morresse no segundo, estuporada. Lembrou da época em que conheceu o termo. Era o comecinho dos anos 80 e só se falava na Gallery.  Pensando bem, a última vez que ela tinha saído “na noite” foi para o Gemmini Drive, que horror! Está enferrujada. A filha sacaneava, dizendo que a mãe frequentava “discoteca”. Bons tempos… Donna Summer, Barry White, As Frenéticas abrindo as asas do Brasil. Bons tempos… Errou o delineador de novo, que  m-e-r-d-a.

Olhou o jeans casual e a blusa folgada sobre a cama, saudosa das superproduções da época da Hipo. Hipo! Como se tivesse sido “íntima” da Hipopotamus, “segundo lar de todo “baladeiro” dos anos setenta”e a frase nem era dela. Setenta já era demais, ela foi debutante de 77, ora!

Agora, para sair “na night” precisava ser casual, nada de lurex ou exageros, que isso é coisa de coroa encalhada. Muito datado, arrematava o baiano. E lurex novo não fede a naftalina , meu amooor. Coisa de mulher encalhada! E o que ela era? Já estava suando, arfando e quase sem fôlego e as tiradas do outro reverberavam em sua cabeça.( Mas isso é apenas o começo, meu bem! )

Checou a sombra nos olhos, naquele espelhão de aumento. Depois dos quarenta, querida, é melhor não prestar muita atenção em espelhos de aumento… Olha que acabo cometendo um baianicídio!

Sentou-se, desanimada.  A única coisa que ela queria é se sentir amada. Beijar na boca…Ter um homem ao lado, um par de braços fortes que a envolvessem. Mas estava tão difícil.

Parece que todos os homens de cinquenta estavam casados, ou orgulhosamente envolvidos com mulheres 20 anos mais jovens. E alguns; bem, esses brincavam de entrar e sair do armário, se é que me entendem. Pensou no ex, em como seria capaz de perdoar todas as brigas, em troca da promessa de uma vida a dois, mais ou menos feliz. Mas ele estava namorando firme uma mocinha mais jovem que a filha mais velha. E ninguém achava estranho. Isso sim, era imperdoável!

Em algum lugar, alguém ouvia Bee Gees. Reconheceu a introdução de Wish You Were Here. Lembrou do ex, do quanto dançavam essa música… Viu que ele jamais seria apenas ex.

…E se a namoradinha lhe tivesse dado o fora? E se ele também sentisse saudade? E se…

Pegou o telefone, não tinha nada a perder.

Olá, como vai? Ocupado? … Ah, a coluna? … Sei… Eu? …. Ouvindo Bee Gees… Lembrei… …Topa dar uma saída?

Os segundos sempre levam uma eternidade até o sim. Desligou com calafrios na espinha e o estômago saltitando.

Lembrou do exercício de respiração do Gaiarsa, segurou o diafragma e um, dois…Puff, puff…Mas que calor!

Voltou quando amanhecia. Talvez estivessem namorando, ou só ficando, tanto faz. Imaginou se ele iria ligar no dia seguinte. Talvez sim, talvez não… O que importava agora era essa calma, essa certeza de que não lhe faltava sangue nas veias nem o velho poder de sedução. Mesmo que aquela noite tivesse sido apenas uma visitinha ao passado… Sentia-se mais segura para aprender tudo de novo, dessa vida estranha que agora era sua. No próximo sábado, talvez escolhesse algo não tão casual, um brilhozinho sempre lhe caía bem… E cinquenta, nem era tão ruim.

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