Apenas entre ex-amigas (crônica)

Tarde esquisita essa, no shopping… O que fazer quando uma pessoa amiga nos trai? Não, eu não sei. Achava que sabia de quase tudo, mas isso está, justamente, no “quase”.

Já faz tempo, fui vítima de uma traição que mudou minhas convicções e principalmente, mudou a mim, de forma irreversível. Mesmo que você finja que não está nem aí, quando alguém em quem confia, puxa seu tapete sem a menor cerimônia, o resultado pode ser mais drástico do que se imagina. Alguns manipuladores têm sim, poder para mudar o conceito que terceiros fazem a seu respeito, pessoal ou profissionalmente. Nós todos estamos prontos a aceitar a infâmia, já percebeu isso?

Até quem parece estar acima da camada de turbulência, ou além dos mortais comuns, lá pela tantas pode “comprar” a informação e o resultado, a gente já sabe. Choro e ranger de dentes, uma raiva daquelas.

E o pior… Dá muito trabalho reverter a situação. Algumas vezes, vale a pena; em outras talvez seja melhor deixar o rio correr sozinho…

Venho tentando fazer isso há tempos, uns bons anos. E o tempo, se não resolve tudo, pelo menos faz com que você se acostume com a situação, por mais desconfortável que já tenha sido. Mágoa a gente só carrega se quiser e eu odeio bagagem pesada.

Pois é, quase me acostumei. Deixei o mato crescer, e ele cresceu.

Tomei outros rumos e consegui ver como as coisas poderiam ter sido, numa posição de expectadora – e nem gostei tanto assim. Já olhava para trás sem nenhuma vontade de reviver o passado. Nada pior do que essa clausura – e dela já estava livre, amém.

Até aquela tarde esquisita. Vai e vem de desconhecidos e algumas figuras amistosas. Lá longe, um colega de Bom Dia, aqui ao lado, uma amiga de família. Tudo muito bom, tudo muito bem, até que ele, meu velho amigo, senta-se ao meu lado para o café. Adoro café, com um bom papo, é melhor ainda.

E nem sei por que, ele me vem com novidades sobre minha antiga aflição – que já nem me afligia. Do nada, no meio de uma tarde que podia ter sido ótima, fico sabendo do pior. Ela, a minha amiga que tinha me consolado naqueles dias, era uma das protagonistas da baixeza. Talvez não a mentora, mas sem dúvida, avalista.

O café desceu mal, quadrado. O que eu teria feito às três? Certamente tinha sido algo grave demais, só não sabia o que, nem quando…

Ele chegou-se um pouco mais, cochichando que o resto era pior… Engoli o café que parecia conter areia. Ajeitei minha bolsa nova como se fosse uma amiga, ela sim, e disse que preferia não saber mais nada – nem naquela tarde, nem nunca. Despedi-me e saí, com a sensação do arrastar de correntes me acompanhando, novamente.

Tive lágrimas tentando jogar-se dos olhos, o lábio inferior querendo dobrar em beiço de choro, em forma de mágoa recente. Mas me controlei e passei a caminhar prestando atenção apenas nos pensamentos, em que me pedia calma e equilíbrio. Como quem acalenta uma criança repetia, vai passar, vai passar… E a tarde quase passou, esquisita.

Lá pelas tantas, ao olhar para o fundo da praça de alimentação, vi o vulto alegre e espalhafatoso, velho conhecido, agitando a mão num aceno. Ela.

Ali, na mesma tarde, a minha ex- amiga parecia incapaz de uma maldade, exatamente como sempre a reputei. Acenei de volta, sem conter a emoção do quase encontro. Perguntei-me a razão à toa, sabia que isso jamais saberia; ou entenderia.

Respirei fundo, várias vezes, tentando deixar o bom senso no comando. Catei as sacolas e desci, com a sensação que, na verdade, elas haviam me feito um favor, ao me poupar da própria companhia. Só precisava me acostumar.

Na vida, tudo muda para melhor- é só uma questão de tempo.

E eu ainda a achava "incapaz de prejudicar alguém", "desprovida de maldade"...

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