A Rosa do cerrado

 

Para muitos, Brasília sempre foi uma escala inconveniente, conexão entre vôos para destinos sonhados; uma transferência inesperada, intervalo na história profissional de quem não vê a hora de voltar da cidade onde políticos aprontam todas – coitada.

Conheci o planalto central há muitos anos, pois o irmão do meu pai e família foram pioneiros, residindo em hotel até os primeiros prédios residenciais serem concluídos.  Ainda jovem, por duas ocasiões estive visitando os cartões postais e achei tudo muito chato e árido – um deserto de sol inclemente e, em algumas estações, frio.  Mais tarde, a trabalho, saía correndo do aeroporto para alguma reunião e correndo voltava pra casa, sem nunca dar chance de ser acolhida pela cidade onde não havia trânsito, nem muros isolando prédios, que esquisito. Mas a gente amadurece e o olhar muda – amém.

Estive em Brasília semana passada e amei! Quando anunciei meu destino de viagem, alguns riram:  Férias em Brasília? Vai fazer o quê?

Ah, como tem o que se fazer! Se você ainda é imaturo, não consegue apreciar a arquitetura contemporânea e se entregar ao êxtase diante do belo criado pelo homem, sugiro visitar essas belezas naturais mais fáceis de desfrutar – ou entender.  Vá ao Rio de Janeiro, aproveite o que a natureza criou e o homem insiste em metralhar- como diz minha mãe, “o Rio, é O Rio!”.

Como Sampa, Brasília exige sensibilidade; talvez Caetano conseguisse, numa daquelas suas inspiradas canções, descrever o encanto dessa cidade impar, onde o belo é intervenção homem, mago que cria – e também destrói.

Brasília, apesar do Congresso, é terra para quem admite regras e isso talvez seja grande problema para nós, paraenses, acostumados a desrespeitar quase tudo. Lá, o trânsito flui, sem engarrafamento. Certas convenções locais – dar passagem ao carro que sai da rotatória, por exemplo – não exigem fiscalização: o cidadão que vem pela avenida simplesmente diminui a marcha e o outro passa, tomando a frente, sem aquela nóia de Belém, onde um quer ultrapassar o outro, como se fosse uma competição entre pessoas desprovidas de qualquer traço de inteligência. Lá, o trafego corre numa boa, como se fosse dança bem ensaiada.  Brasília não tem guardas trânsito e o taxista referendou: Pra quê? Eles têm mais o que fazer… (E nós, aqui, reclamando a presença de uma babá oficial em cada esquina; mas quando dirigimos fora, sabemos fazer tudo direitinho, que lástima…)

Brasília provavelmente seja a cidade mais arborizada que conheci, deixa Belém longe, longe… Incontáveis mangueiras estão espalhadas pelas áreas verdes, ao lado de Ipês carregados de flores. No centro das rotatórias ou margeando as vias, jardins exibem uma enorme variedade de flores: Sempre Vivas, Petúnias, Zínias, Bocas de Lobo, Lantanas, Rosas de hastes longas, Azaléas, Hortênsias, Primaveras e Lavandas. As lavandas, aliás, estão em todo lugar, lindas e perfumadas. E todos respeitam os jardins – igualzinho aqui, não é mesmo? Onde está a cidade árida e desumana? Nem sei como guardei essa memória equivocada, por tanto tempo!

Lá, as pessoas atravessam a vias – largas e movimentadas – na segurança das faixas e nas ruas, nada de lixo aguardando caminhão.  Nas super-quadras, os prédios não têm muros, o térreo é sempre aberto e apenas a recepção   é envidraçada – e nada mais. Não vi ninguém perambulando por condomínios alheios ou essa “sensação de insegurança” (sensação?) que nos acompanha o tempo todo.

A crise trouxe pedintes como no resto do planeta, mas isso está bem longe do que vivemos em Belém, onde até no interior dos shoppings tem quem esmole; alguns são rapazes saudáveis que não querem trabalhar, afinal, pedir é mais fácil.

Nas ruas, a população cosmopolita convive sem nenhum problema – Brasília é só uma cidade onde você encontra não só gente do Brasil inteiro, mas do resto do mundo.

A fama de cidade de alto custo de vida é injusta; aqui em Belém quase tudo é muito mais caro – inclusive alguns sanduiches de franquias. Em lojas de roupas até restaurantes, achei os preços até convidativos e, quando o negócio é luxo e… pode relaxar, lá também existe o melhor e o mais caro, claro. O bom é poder ter excelente serviço com preço justo – e isso é comum em Brasília.

O Pontão do Lago é uma espécie de condomínio de lazer e gastronomia: do choppinho à culinária francesa ou carnes exóticas, você estará no lugar certo.

Aliás, permanecerá em boas memórias o cordeiro assado em vinho tinto com arroz negro, da Tratoria da Rosário: simplesmente maravilhoso, num lugar bonito e acolhedor.  A Belini, Pães e Gastronomia é ótima. Tudo de bom, mesmo!

Falar dos cartões postais é bobagem, apenas faço um reparo: desça do carro e faça mais do que as fotos de turista de fim de semana. Cada lugar tem algo que a gente ainda não viu. Dessa vez, pude ver em detalhes cada uma das doze tonalidades de azul, dos 2.200m2 de vitrais do Santuário Dom Bosco, projeto de Carlos Alberto Naves, aluno de Oscar Niemeyer – sempre ele.

(Aliás, Niemeyer e JK são “Os Caras”.)

O Santo é o padroeiro de Brasília e empresta nome a bairros, lojas e uma infinidade de empreendimento. Em 30 de agosto de 1883, o italiano São João Belchior Bosco – Dom Bosco – sonhou com uma viagem pela América do Sul. Exatamente entre os paralelos 15° e 20°, latitude sul, ele viu uma enseada bastante extensa que partia do ponto onde se formava um lago. Ouviu, então, uma voz: “Quando se escavarem essas minas escondidas em meio a esses montes, aparecerá aqui a terra prometida”. Nesse lugar se construiu Brasília. Lindo, não?

Pois é, quando for a Brasília, permita-se esse contemplar de detalhes… No Itamarati, meu olhar pairou nos jardins do último andar, cujas folhas enormes podem ser vistas através dos panos de vidro… Lindo. Nas cascatas do Palácio da Justiça, lágrimas dos brasileiros que clamam por ela…

Lugares a visitar, qualquer folder indica. Como olhá-los, vai de cada um. Certas coisas exigem, além dos olhos, o coração…

Desarme-se e desfrute!

Ah, o que fui fazer em Brasília? Eram os noventa (!) anos do meu tio Olympio, família Cascaes reunida,  o encontro foi ma-ra-vi-lho-so! Mas isso é assunto para outra crônica.

Detalhe: na volta, ao nosso lado, uma bebê de três meses, vinha para Belém conhecer a avó, a bisavó e a tataravó Ana, de 110 anos e que lhe emprestou o nome! A vida não é incrível, mesmo?

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O Santuário Dom Bosco é mais uma homenagem ao padroeiro da cidade, o santo São João Melchior Bosco. Projeto de Carlos Alberto Naves, aluno de Oscar Niemeyer, a igreja tem 80 colunas estilo Brise Soleil que se fecham em arcos góticos.

Um dos destaques do santuário é o lustre central, formado por 7,4 mil peças de vidro murano, 180 lâmpadas e com peso aproximado de 3 toneladas. As portas descrevem a vida de Dom Bosco – que teve um sonho premonitório com a construção de Brasília. Para manter a igreja limpa, o pároco conta com a ajuda dos fiéis, que se organizam em mutirão a cada dois anos.

Interior do Santuário Dom Bosco, na minha foto amadora.

 Em cada porta há quadros, de autoria de Cerri, em alto relevo entalhados no bronze. Na fachada principal está representado o sonho de Dom Bosco. Nas laterais, visões missionárias e passagens de sua vida. As portas do Santuário levam para um ambiente de fé e recolhimento. No total são 12 portas, divididas em 3 conjuntos de 4, que junto ao altar, ao lustre e à iluminação róseo-azul celeste, buscam simbolizar o texto bíblico do Apocalipse sobre a Morada de Deus (Apocalipse 21).

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