Raiva on line.

Turba
Ando pensando em melhorar minha “natureza”, pelo menos não me deixar contaminar com tanta gente que comete pequenas grandes maldades o tempo todo, praticamente sem perceber… Maldade é como droga, para surtir efeito a dose é cada vez maior, até que…
Danuza Leão, certa vez, disse que desconfia das notinhas que lhe mandam, principalmente das que não eram exatamente “edificantes”. Acho que naquela época – faz uns cinco anos, talvez mais – eu ainda acreditava cegamente na humanidade e achei um exagero. Hoje, francamente, acho que ela pegou leve – ninguém mais move uma palha para elogiar alguém; já para detonar…
Semana assada, uma amiga me sugeriu escrever sobre essas barbaridades que acontecem rotineiramente – e que muitos já nem ligam: vizinhas roubando amiga, fraudes em quase todo lugar, ministro que enriquece estratosfericamente sem que tenha qualquer constrangimento. Ou a linda menina, de apenas 19 anos, que matou o amante e teve a cara de pau de dizer ao delegado que não, não faziam sexo. E o advogado dela, misto de louco e cínico? Ah, já estamos esquecendo o ex-goleiro Bruno; enfim, o mundo está enlouquecido e parece que “se pode” tudo.
É verdade.
Talvez não tão grave quanto esses crimes, outro fenômeno vem acontecendo e a gente nem percebe o quanto vai nos envolvendo, no dia a dia de despautérios.
Anonimato na internet: estamos “envolvidos” até a ponta dos dedos, eu diria. Internautas podem tudo, auto-indulgenciados pelas maldadezinhas diárias, como se essa bandalheira pública nos permitisse avacalhar qualquer um sem que exista razão pessoal, além do gostinho de agredir quem talvez tenha (ou seja) o que não temos (ou não somos).
Basta o outro ter um pouco (pouquíssimo) de sucesso – ou dinheiro, sempre ele – que já estamos com uma pedra na mão e um comentário na boca. Ou nos dedos. E “toma-te” comentário anônimo! Como as pessoas são valentes e raivosas quando, em vez do nome, viram apenas um horário de postagem ou um twiteiro que ninguém conhece desacatando um famoso – que glória, que herói, que idiota.
Para ser alvo da raiva anônima na internet não precisa ser um desses criminosos com ou sem colarinho, cuja obra cansamos de conhecer. Nem deputado que participou da roubalheira na ALEPA. A vítima pode ser o vizinho que apareceu com um carrão, a ex-gorda que deve ter feito bariátrica, ou o cara que namora “um avião”, que só deve querer o dinheiro dele. (Raivosos sempre diminuem o mérito dos demais!)
Ou o Chico Buarque, normalmente amado, que vira bêbado, decadente, ultrapassado, quando a internet assegura a distância preventiva entre acusado e vítima. É bullying de gente grande!
(Eu virei velhaca, e pasmem, nem era anônimo!) Qualquer um pode ser vítima dos raivosos de plantão, basta trocar o g por j, não gostar da Lady Gaga ou qualquer bobagem assim… Sob anonimato, ninguém precisa de justificativa para “baixar a lenha” em qualquer pessoa.
Acredite: muito anônimo que “odeia” os que roubam ou fraudam, no fundo têm inveja, raiva de não terem como “levar o meu”, reclamam por não terem participação no “lucro”, por ganharem pouco… O ódio é não poder ter o que os “bandidos” têm – e não uma questão moral ou ética! Claro que não são todos, mas você iria se admirar de quantos, no fundo, têm inveja de quem esbanja dinheiro – mesmo roubado!

Que fique claro, não estou defendendo corruptos, muito pelo contrário! O mesmo anonimato que possibilita tornar públicas as falcatruas cometidas no Brasil inteiro; disfarça os cruéis, os maldosos, os rejeitados e principalmente, os recalcados. São pessoas pequenas de espírito, capazes de tudo, de postar um comentário ou uma imagem, com a única e malévola intenção de destruir quem não quis (ou não pode) retribuir suas atenções, amorosas ou não. Tem quem sofra por ter uma amizade rejeitada… Cuidado com rejeitados em geral.
Confesso – mea culpa, perdoem-me! – que de tanto ouvir, ler, acabei curtindo poder colocar o dedão na cara de quem quer que seja, defendendo minhas idéias, esquecendo-me que opinião e bunda, cada um tem o direito (supremo) de ter a sua – ainda que umas sejam melhores que outras, enfim.
Muitos internautas fazem críticas e denúncias justíssimas, mas a maioria agride gratuita e deliberadamente, todos comodamente anônimos… Tentei imaginar como seriam aqueles discursos, se cada um precisasse colocar a cara a tapa, ou melhor, a assinatura embaixo. E resolvi colocar as minhas – cara e assinatura – só para ver no que dava. Ainda que esperasse reação dos demais, o que senti me preocupou… Fui xingada e depreciada, por gente que não mostrava a face… Fiquei chocada com essa nova versão de ódio, rancor e preconceito que poderia ter me contaminado, pois já tive ímpetos de revidar sem critério. De ofender e magoar, esquecendo o foco da discussão – do qual a maioria se distancia, com frequencia. A provocação surte efeito, tem sempre alguém que “pega corda”…
Do bullying aos sites de amenidades com torcida contra a Danielle Winnits, contra o Neymar, contra qualquer pessoa que incomode; passando pelos comentários sobre o peso de alguma celebridade; vejo que todos nós temos um lado obscuro que pode se tornar predominante, sempre que encontrar clima e companhia que nos tornem “parecidos” com os demais – só uma pessoa ruim, entre outros ruins.
“E daí? Todo faz isso!” Não, comigo as coisas não funcionam assim. Não quero ser “assim”, estou fora da turba!
Uma jovem senhora contou-me que desistiu de seu site, onde divulgava trabalhos, por conta de um ex affair. O homem rancoroso postava dezenas de comentários anônimos diariamente, chamando-a de velha gorda e desqualificando a produção da artista. No Orkut, fazia pior: disfarçado atrás de um perfil falsificado, ele a ofendia, inclusive para os amigos – o que acabou confirmando a identidade do perseguidor, por conta de um erro gramatical que cometia rotineiramente. Ela viu estarrecida, que outras duas pessoas que não gostaram de seus trabalhos, lhe dedicaram indelicadezas semelhantes – quando o normal seria apenas não elogiar ou ignorá-la.
Crueldade em geral – na internet ou na vida real, contra colegas, contra animais, contra pobres ou minorias, é um comportamento contagiante. É preciso que a gente se mantenha alerta para evitar fazer parte da manada – ou viramos gado.
Não quero ser assim, repito. Quero me manifestar contra o que acho incorreto, vibrar por um estado de coisas melhor, por melhores condições para todos; contra políticos que transformaram a política em lama e lodo, mas não quero ser a que se esconde para publicar coisas que não teria coragem, caso assinasse embaixo. Ou a que espalha fofocas que sabe que só irão prejudicar terceiros. Que torce contra quem sequer conhece.
Não quero esse papel para minha vida; ele é baixo demais, pouco demais.
A crítica – embasada – é um exercício de cidadania. Mas a dignidade me exige dar “a cara a tapa”, sempre. E aceitar os que vierem. Por essa razão, sempre que sinto vontade de postar algo no anonimato, me pergunto se faria a mesma coisa com minha assinatura embaixo. Caso contrário, melhor reler, reler… E não postar nada.
Blogueiros que lutam por uma causa, são capazes de perder oportunidades (trabalho e negócios) por conta dos seus ideais – ainda que não concordemos com alguns, é o exercício da democracia na imprensa – e é vital! Quando a verdade é divulgada, há que se respeitar quem tem coragem de assinar apesar da certeza que vai responder por ela, na justiça ou na rua. O anonimato dos que alimentam os corajosos nem sempre embala a verdade, mesmo que a gente saiba que muito se descobre através dele. O risco é de quem assina, corajosa e responsavelmente.
São duas situações. Só não quero passear pelo lado negro, disfarçada de Jedi. Eu, não. (Vera Cascaes de Souza)

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