Meu tio e a Rosa do Cerrado

Brasília, humana e acolhedora.

Mamãe, Beco, Tio Olympio, Diva, Sérgio e Ju.

Prima Ju, eu, mamãe e Tio Olympio, meu ídolo!, na Tratoria da Rosário. O Cordeiro ao tinto com Arroz Negro é "o que há!"

Escreveram-me perguntando o que fui fazer em Brasília, afinal de contas, “férias” no planalto é coisa que ninguém imagina. Nem eu.
Eu e mamãe – que mora num avião, segundo meu amigo Cláudio Lobo – fomos para comemorar os 90 anos do tio Olympio. Foi a melhor coisa que fizemos nos últimos tempos!
O irmão de meu pai é um senhorzinho elegantérrimo, muito ativo, pilota um carrão absolutamente bem cuidado – como tudo o mais. Caminha toda manhã, faz compras, visita familiares, promove divertidos almoços com os netos, degusta bons vinhos – tintos, sempre! – e viaja muuuito! Conhece praticamente o planeta e numa certa ilha do Caribe já esteve dezessete vezes! É mole?
Fomos fazer-lhe surpresa; minha mãe “carregou” pacotes congelados e, no feriado, todos degustaram Maniçoba e Caranguejo com nossa legítima farofinha – e biscoitos de castanha, que maravilha! Bem, aos que torcem o nariz, arrastar isopor pelos aeroportos faz parte da campanha “Sou do Pará”, aderimos e pronto. Um filho veio de Salvador, uma neta do Rio, enfim, foi uma animada reunião que durou cinco dias, ave! Encontrar primos depois de quarenta anos (por que esperamos tanto?), conhecer seus filhos e netos, estreitar laços esquecidos no tempo, e finalmente conhecer Brasília de verdade; foi muito, muito bom! Estamos programando um cruzeiro – arriba, Caribe! – com toda a troupe…Topas? Claro que topei! Enfim, como diria a guru Rejane Barros, foi “uótemo”!
Ah! Na semana passada prometi contar a história da arborização de Brasília. Entre 1975 e 1976 aconteceu uma tragédia: praticamente todas as árvores adultas que tinham sido plantadas, morreram. Naquela época ainda havia quem lutasse contra a permanência da capital federal em Brasília e políticos – ô raça!- e muitos funcionários públicos que tinham sido transferidos “na marra”, orquestraram uma campanha pela volta ao Rio, pois ali “nem planta vingava”. Deram-se mal, claro. Aconteceu que, na pressa para construir Brasília, todas as árvores nativas foram sacrificadas. Depois, para arborizá-la, vieram mudas do Brasil inteiro, em números gigantescos como a cidade. Chegavam cinco, dez mil mudas do sul, mais outra enormidade do centro-oeste… Havia urgência em dar sombra à região devastada. Resultado? Quinze anos depois, o cerrado reagiu à invasão de tantas espécies “estrangeiras”, com pragas que antes não apresentavam riscos. As Cássias (Cassia siamea lam.) foram dizimadas; e das árvores nativas não haviam colhido sementes…
Atualmente, de cada dez árvores adultas, sete são nativas; um trabalho gigantesco, iniciado depois da tragédia e que trouxe muitas frutíferas que vicejam em paz com o cerrado: jaqueiras, mangueiras, abacateiros, jambeiros, sapotizeiros, pés de graviola e tamarindos convivem no Parque da Cidade. Os pássaros, desaparecidos durante a obra, voltaram vinte anos depois… A população, acostumada à cidade “muda”, finalmente pode ouvir seu canto em quase êxtase. Hoje, árvores do cerrado – espécies “ariscas”- são cultivadas em viveiros e adaptadas à novo bioma, sementes são distribuídas e o homem “refaz” a natureza. Não é ótimo, mesmo?
Meu tio estava lá esse tempo todo, viu a cidade nascer com suor dos candangos e demonstra por Brasília um carinho enorme, pois entende e acolhe a cidade.
Foi com esse olhar que lá voltei e vi os Flamboyants – forasteiros como eu!- carregados de flores, deixando a paisagem mais linda, nessa que é uma das cidades mais arborizadas do Brasil, perdendo apenas para Goiânia e rivalizando com João Pessoa, Maringá e Curitiba.
(1- O título de Cidade Verde se dá àquelas que são ecologicamente sustentáveis, nem sempre as mais arborizadas.
2- Mais dessa história interessantíssima, leia em “Arborização Urbana do Distrito Federal”, livro lançado pelo programa Senado Verde e Novacap.
3- Esclarecendo a observação de que em Brasília os prédios não têm muros…Os edifícios não funcionam como condomínio e não ocupam lotes, mas projeções, uma sacada do Lúcio Costa, outro gênio. Na superquadra o chão é de uso comum e,para permitir a circulação de pessoas, constrói-se sobre pilotis. Os moradores não são donos de um terreno, mas têm concessão de uso de um espaço (aéreo) sobre a área pública. Isso é absolutamente arrojado!)

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