Sem Noção

Dia desses fui ao aeroporto e chegava uma daquelas excursões de adolescentes à Disney. Eu é que sou intolerante ou a maioria desses jovens é totalmente sem noção? Será que papai e mamãe sabem como suas princesas falam ou seus filhotes amados se portam longe de seus olhos? Acho que não.
No desembarque, pareciam descontrolados. Mais do que normalmente. Algumas garotas choravam, abraçadas às suas mais novas “melhores amigas de infância”, e que provavelmente reencontraram ontem, no colégio.
Coisa de criança, são todas iguais, pensei. Mas não são, algumas (poucas, é verdade), usam as “palavrinhas mágicas” (lembra, querida?) e não têm vergonha (?) de dizer licença, bom dia, por favor, obrigado e até logo, e sabem colocar lixo, no lixo. Estranho como adolescentes não gostam de parecer educados, que coisa!
Ao sair, largavam os carrinhos abarrotados no meio do caminho, sempre gritando muito, sem constrangimento por impedir que os demais passassem.
Ah, como ando rabugenta – indulgenciei a molecada, de novo. E passei a prestar atenção nos pais, alguns bronzeados, vindos diretamente “do sal”, para apanhar “fófis” no aeroporto… Uma passageira passou a contar como foi estar por algumas horas em companhia de jovens oriundos, sem dúvida, da elite de Belém. Traquinagens? Não, meu bem. Não estou falando da banheira que inundou o quarto do hotel cinco estrelas. Da espingarda que acertou lustres, ou do cartão de crédito perdido três vezes. Nem do sumiço durante a madrugada. Ou da máquina de sanduíche travada com um talher… Isso é típico de excursão. Modos. Seus filhos têm “isso”?
No embarque da conexão em Manaus, mais gritos. No pão de queijo, alguns ignoravam que fila existe para isso mesmo e passavam à frente de quem estivesse atrás de qualquer membro da excursão. Até que um adulto gritou mais alto ainda. É a velha máxima: eduque em casa ou alguém irá educá-lo na rua. Além dos gritos, palavrões (aqueles que você não usa, jamais!) saiam dos lábios cheios de gloss, como se fizessem parte do linguajar habitual dessa gente jovem que não sabe bem o que é a vida e não tem noção de respeito… Será que terão, um dia?
Ipod, “I isso” e “I aquilo”, foi a temporada dos “Is”, todo mundo comprou um, no mínimo. Uma menina narrava travessuras com o cartão de crédito que estourou “mas papai colocou mais”; duas vezes. Gabava-se por ter comprado uma infinidade de presentes para o namorado, inclusive um famigerado “Ipod” para o Natal, mas como “perigavam terminar em três ou quatro dias”, podia acontecer dela guardar. “Ou dar para outra pessoa qualquer”. Simples… Como assim? Por mais que lá fora um “tablet” custe bem menos, a desfaçatez de alguns adolescentes com seu poder de compra – e descarte – é assombrosa. A jovem, que provavelmente não sabe o valor do salário mínimo (com que sua empregada sustenta a família), gasta uma pequena fortuna com mimos para o namoradinho da hora – que poderia ser outro, tanto faz, papai paga a conta mesmo assim… No mais, a conversa era sobre quem ficou com quem, ou iria ficar. Aliás, essa de “ficar” é uma das coisas que devem dar um nó na cabeça de muitos pais, principalmente daqueles que costumavam achar que isso era coisa de “cabritos”… Que nada, meu caro, princesas também “ficam”, mais tarde, elas até “pegam”; os tempos mudaram.
Não, não sou careta, querida. Só torço para que lembrem (será que eles têm memória?) do que é sexo seguro, enfim.
A bordo, nem sei como os comissários resistiram, diante de tantos adolescentes em pé, conversando aos berros, gritando mais palavrões. Uma resolveu perfumar-se e, por duas (duas!!!) vezes cobriu-se de spray como se estivesse só, sem absolutamente nenhum respeito por quem estava ao lado e era obrigado a respirar aquela nuvem sufocante. No mais, a conversa girava sempre sobre a enorme, a monstruosa necessidade de “consumir” que esses jovens cultivam, numa competição sem fim. Talvez muitos pais confundam “financiar” com “educar”, e piorem uma tendência que parece ser contagiosa. Ou educar é que seja muito mais difícil, pois exige interesse e dedicação constantes, coisa difícil com agendas tão cheias.
Fico imaginando que motoristas esses jovens serão, muito em breve. Serão capazes de prestar socorro ou acharão mais fácil fugir? Que escolhas farão, quando um absurdo passar pela frente – um mendigo dormindo e um amigo oferecendo um isqueiro… (Ou você acha que os incendiários do índio Pataxó, os que surraram a doméstica, os que agrediram o estudante na Paulista nasceram na chocadeira?)
Que eleitores essas crianças serão? E desses, os que se tornarem políticos, o que irão defender? (Esse pensamento me assusta!) Será possível, em meio a tanta alienação, surgir uma liderança política? Uma “nova” Dilma? Duvido muito, esse tipo de projeto requer mais que cinco malas cheias de bugigangas fabricadas na China e compradas em Miami. “Tirar 10” em inglês, viajar para a Disney e usar jeans de marca, não basta. Talvez devessem lembrá-los todos os dias, que não se chama uma senhora de “mulher”, que não se fura fila, que não se joga lixo no chão, essas bobagens que a gente pensa que eles sabem.
Aos poucos, vão saindo com os pais orgulhosos pela volta dos pimpolhos, mas principalmente, por terem conseguido enviá-los para “Os Estados Unidos”, proeza sobre a qual comentavam de “boca cheia”, com os amigos no Atalaia.
Um lourinho com fones nos ouvidos, na saída, gruda um chiclete sob o corrimão de inox. De repente, imagino que poderá ser médico, daqui sete, oito anos… Jesus, Maria, José!

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