Desapegados

De vez em quando uma palavra entra na moda. A mais recente é “desapego”. Nessa esteira, a “aventura” de casal brasileiro de meia idade, experimentando como se vive em Paris e o consequente “desapego” ao supérfluo da antiga rotina de São Paulo, vem causando inveja na net. É mais quem “adoraria viver assim, descomplicadamente.”
Quase todo mundo sonha com outro modo de viver, como se isso não fosse possível, aqui e agora. Essa é a descoberta de Gil (Owen Wilson) no finalzinho de “Meia Noite em Paris”. A sacada simples – genial – é que sempre achamos que os outros – no passado ou em outro lugar – é que são felizes. Trocando em miúdos, uma boa desculpa para não encarar a realidade e ser feliz.
Se existe quem goste de mudanças, sou eu! Isso é desapego – ou não? Certa vez, vendi um apartamento que não tinha nada a ver comigo e passei dois anos num pequenino, enquanto reformava uma casa no Marco – onde escolhi viver bem e em paz.
De certo não é Paris (que me dera!), mas aqui mesmo vi como é bom para a alma, dar-se oportunidades de renovação. Há mais de dez anos, esse era um bairro residencial, onde famílias moravam por décadas no mesmo terreno, muitas em casas de madeira; gente que ainda conversava na calçada e jogava dominó sob o poste iluminado.
Podia usar bermudas; passei a ser conhecida, e ninguém ligava se você estava de Prada ou Havaianas, não fazia diferença. Gostei disso, principalmente porque vivenciava mudanças pessoais e alguns amigos “de outras épocas” também tinham sumido. É meu caro, desapego também é saber que esses, vão-se como chegaram… Eram supérfluos.
Agora, quero “despegar-me” de Belém, ficar menos aqui e mais por aí; curtir um tantinho Rio de Janeiro – que nem conheço tanto.
Meu ninho carioca fica na Tijuca; não que não goste do Leblon. Mas curto aquele arzinho de cidade pequena e vivo como o casal da internet, esquentando a barriga no fogão e refrescando na máquina – que tanque, meu bem, não é minha praia. Faço minhas compras no “Hortifruti”, tudo lavadinho e em doses para quem vive só. Linguado ou salmão e saladinhas já no ponto; voilá, eis meu almocinho saudável! Que desapego! Como ninguém é de ferro, arrasto meu carrinho até a feira (organizada e limpa, viu Seu Prefeito?) que encerro na barraca do pastel (uau!), depois de passar na das flores- até a casa fica feliz!
Minhas temporadas no Rio incluem teatro, principalmente besteirol. E, claro, o filé do Lamas (que o Denis Cavalcanti falou, na semana passada). Os Profiteroles do La Mole, a cebola do Out Back, os biscoitos da estação do metrô. E é pródiga em caminhadas, pois metrô exige pernas.Posso usar ônibus sem sair imunda (experimente fazer isso em Belém!), e tenho calçadas para caminhar sem esse sobe, desce e desvia de obstáculos e buracos.E é engraçado, encontrar socialites que aqui só andam “de motorista”, de rasteirinha com o braço pra cima! O Rio tem esse dom de diminuir egos e diferenças; mas quando voltam, haja “bafo”, elas só comem em restaurante francês e frequentam o chá da Julieta de Serpa; então tá.
Fora questões práticas, lá me sinto mais à vontade ainda que no Marco, meu bairro libertador. Talvez por estar entre desconhecidos, por minha alma pensar seja um aprendizado para outros desapegos. Quem sabe, um dia consiga guardar tudo em uma só mala, e partir para outras temporadas? Confesso que cada vez mais, essa sujeira e esse desapego da prefeitura por Belém me fazem sonhar novamente com fugas para destinos mais aprazíveis, digamos assim? (Se falar mais civilizado,não vai pegar bem, afinal, a gente criou o maior caso com aquela banda que tocou em Salinas mas a gente nem pronuncia o nome…Falar mal, só a gente pode, né?)
Talvez eu fugisse para Aveiro, perto da família “de lá”, ou Fortaleza, perto da família “daqui”. Talvez encontrasse o estúdio (kitnet me dá cuíra!) na Daubenton, no Quartier Latin, de janelas altas, todo branquinho com sofá de risca azul marinho, vizinho do Mercado Mouffetard e da Rua Monge. Sonhos ajudam a viver, tenho pena de quem nem sonha…
Cá pra nós…Será que moraria em menos de quarenta metros quadrados, com três janelas sobre telhados, aqui, na minha terra? Provavelmente, não. Isso é coisa que só acolhe nos sonhos, acho eu. De qualquer forma, desapego no Quartier Latin é diferente. Ou não é?
Pelo menos lá, eu nem precisaria lembrar desse incompetente desse Duciomar, ô desapegado ao trabalho!

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Braga
    ago 10, 2011 @ 11:10:28

    Vera,
    Sua crônica mostrou uma excelente visão da realidade. Realmente pensamos que a vida dos outros e de outras eras são melhores do que a nossa. Esquecemos que a única coisa eterna é a mudança.
    Um abraço,
    Braga

    Responder

  2. Márcia
    ago 08, 2011 @ 21:35:32

    Vambora… 🙂

    Responder

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