Com gosto de infância

Uma Casa Chamada 14, de Maria Cecília Borges Figueiral.

Vozes ecoam de tempos tão distantes que, decerto, não vivi… Sorvo cada página como os picolés adocicados das praias escaldantes da minha infância, adivinhando sensações e sabores que nem me pertenceram… A chuva da tarde abranda o calor e me enrosco no lençol macio – gasto e cheio de memórias – aconchegando as recordações de Maria Cecília Borges, paraense com dois títulos publicados já na maturidade. No primeiro -“Era Verão Quando Parti”- desabafos e reflexões sobre o amor quase idealizado. O segundo, “Uma casa chamada 14”, é a saborosa crônica de um lar, essa mistura feliz de casa e família; leitura que pedia rede e chuva.
Inevitável lembrar minha própria infância… Também adorava estar na casa da minha avó, o oposto da desvelada Tia Danza, mas tão amada quanto. Vovó Esmeraldina era sim, diferente… Nos cabelos azuis e na infantilidade de permanecer, para sempre, foco das próprias atenções – sem constrangimento ou falsos pudores. Filha única que perdeu a mãe aos seis anos, foi mimada pelo pai idoso, o Coronel O’ de Almeida que deu nome à rua – se é que esses bajuladores que desprezam a história ainda não mudaram, enfim. Vovó enfeitava-se diante da “penteadeira” num ritual – que eu adorava assistir. Imitava-a, passando pó de arroz Lady e batom Coty de metal dourado. No colo, gotas de Ramage e uma camélia de fustão.
Minha avó não foi dessas mães sacrificadas, não seria diferente com os netos. Reservava a si a melhor parte do bolo; para nós, isso era normal. Sua vontade prevalecia e ninguém reclamava dos bombons escondidos, do filé exclusivo, do melhor assento no cinema. E como eu gostava de estar em sua casa! Montes de “guardados”, o quartinho dos fundos cheio de bregueços; havia tanto a bisbilhotar… Mas o melhor de tudo é que ela conversava com a gente. E ouvia-nos, que maravilha! Eu folheava fotonovelas, em pilhas enormes no quarto do meu tio, que nunca entendi muito bem para onde tinha ido – havia um mistério, era um lugar que não devia entrar, tornando tudo mais mágico ainda. Eu queria ser como Paola Pitti ou Michela Roc; achava as sobrancelhas finíssimas de uma loura italiana de Grande Hotel o máximo!
O banheiro do segundo andar, com a banheira escura e armário com dezenas de vidrinhos interessantes – era só dela. Como desde aquela época faltava água, banho era de canequinha, com a água aquecida por chaleiras ferventes. Como os banhos da menina Maria Cecília, mais de duas décadas antes.
Crianças, em qualquer tempo, são parecidas. Eu também fazia esculturas no cabelo ensaboado, rabiscava azulejos com sabonete e quando deitava na rede para a sesta forçada (ninguém dava um pio, enquanto ela dormisse…), embalava-me com o pé na parede, deixando a fantasia levar-me; eu era náufraga no fundo de um barco, singrando mares desconhecidos. No colo, a boneca de unhas pintadas voltava a ser meu bebê, enrolada numa manta que lhe disfarçasse a cabeleira, vítima das minhas tesouradas – meu sonho era ser cabeleireira.
Maria Cecília descreve em minúcias a vida familiar, a casa na 14 de Março de “leito carroçável” e bonde na esquina. A rua das minhas lembranças tem uma interminável obra para colocação de tubos de cimento, enormes. Enquanto isso viravam cavernas, casinhas, naves espaciais… Como éramos felizes comendo pão com manteiga e açúcar, leite em pó com achocolatado, farinha com açúcar, banana frita…
Desisto do que ainda tinha para fazer… Abraço minhas recordações, ouvindo Maria Cecília cantando a interminável Tana-Naninha… O sono me acolhe e durmo feliz como na minha infância. (www.veracascaeswordpress.com)
PS: Para ex-amantes de fotonovelas, Paola Pitti continua bonita, no Face Book… Amigo José Maria Toscano; obrigada pelas viagens à Belém de várias memórias!

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