Quase invisível (Ficção)

Quase.
Era dessas pessoas que passam e a gente esquece em trinta segundos, quando muito. Ou passam despercebidas, anônimas; sem rosto e sem perfume. Como se dizia, ela “não tinha sal”. Nem açúcar, nem orégano… Sem graça.
Tinha os cabelos ralos. Ou seriam louros? Nem sei, não lembro direito. Sei que estavam sempre com aquele aspecto que pede urgentemente um bom corte; qualquer corte…
Na nuca, elástico bambo; na fronte, alguns grampos. Ou aqueles tic-tacs infantis que a gente nunca sabe explicar porque raios, acabamos saindo com eles, enfim. Não era alguém mal vestida; não era bem isso. As roupas pareciam boas e ficariam ótimas se fossem usadas por quem soubesse como fazê-lo com charme – ou estilo. Mas ela não tinha nem um – muito menos o outro.
Parecia eternamente atrasada, correndo entre uma sala e outra, entre um momento e outro. Era atrapalhada. As chaves caíam-lhe das mãos nos momentos em que alguém poderia estar olhando para ela. E quem tentasse, só veria aquela mulher quarentona, tentando segurar a bolsa, a agenda cheia de papéis e o chaveiro caindo.
O carro. Bem o velho carro carregava na traseira as lembranças indeléveis de que ali estava uma motorista no mínimo, nervosa. Eram amassados de guias, desses postes cotós cuja função é essa, mesmo: humilhar quem não os vê pelo retrovisor.
Mas ela era assim, a Maria dos Anjos. Ou seria Maria das Dores? Maria um santo qualquer, ou coisa parecida.
Era invisível. Não dizia “não” a ninguém, tamanha era a vontade de agradar. Era voluntária para comprar lanche, recolher a “vaquinha” para aquelas comemorações de praxe. E quase ninguém pagava a coleta, a desculpa era o troco e a… Como era mesmo o nome da moça do lanche? Bem, ela nunca cobrava nada de ninguém, mesmo. Mas não deixava que nenhum aniversário passasse em branco. Tinha datas importantes anotadas numa agenda, que consultava diariamente. Sabia até o aniversário de casamento do colega que há muito nem lembrava que tinha mulher… E lembrava os nomes dos familiares de todos, números de telefones… Um cérebro, essa Maria do Rosário.
Ela era um mistério. Preparada, sim; e proativa. Quantas vezes evitara equívocos colossais? Mas ninguém percebia quem era a fada madrinha da repartição e comemoravam a eficiência da equipe.
Sim, essa equipe era ótima, trabalhos bem feitos, pesquisas eficientes.
Nas reuniões de trabalho, ela assistia maravilhada, a esfuziante Glória interrompendo o chefe todo momento – e, convenhamos, a maioria era alguma piada sem graça – e pensava contribuir com suas observações; afinal, era ela quem digitava os relatórios de metade dos funcionários e sabia de cada deficiência, de cada solução. Sabia que Glória era só alegria, a loura oxigenada mal sabia escrever, ignorava qualquer norma de boa educação e não tinha nenhuma base sólida para ali estar. Mas era uma simpatia! Ainda assim ela a invejava, quem dera ser como a colega. Sonhava ter a popularidade da outra, a coragem de falar sem esperar horas com o dedo espetando o ar, sem que ninguém lhe concedesse a palavra.
Mas a Maria das Dores continuava tentando agradar. Fazia a relação dos que seriam apanhados e a que horas e, de vez em quando, ficava quase uma hora esperando a condução até que descobrisse que havia sido “esquecida”, de novo. E de novo pegaria o ônibus – a repartição ficava tão longe que ela não podia bancar a gasolina para ir trabalhar – e chegaria sete minutos atrasada, e ouviria piadas sobre a noite anterior ou o quê teria causado tamanho lapso, e tudo enquanto os demais tomavam café com fofocas na salinha do final do corredor. E ela ainda pediria desculpas.
Maria (das Graças?) acabaria limpando a mesa repleta de farelos e má educação, com o paninho azul de furinhos que havia comprado – ela mesma – para limpar sua mesa de trabalho. Quando tivesse condições, pois o telefone dividia o tampo exíguo com o velho (o mais antigo de todos) computador; assim todas as ligações eram atendidas por “Maria de alguma coisa, bom dia!” e quem viesse atender, acabaria colocando o fone na orelha com uma das mãos enquanto agitava a outra, para que ela levantasse, cedendo-lhe o lugar. Era assim praticamente o dia inteiro, menos das 12 às 14, quando ela aproveitava para digitar os seus relatórios, fazer os serviços de fato. Seus e dos outros, claro.
Maria da Ajuda morava com a avó e um cãozinho adotado numa dessas campanhas que tentam tornar pessoas dignas da convivência com um animal. O Benji – ninguém esperasse originalidade de Maria Aparecida – era o único “ser humano” que a tratava com dignidade, sentia sua falta e comemorava-lhe a presença. Ela tinha amor sincero pelo bicho – sua única companhia; a avó vivia em algum planeta distante, onde ela não conseguia visitá-la. Essa vida insossa poderia seguir indefinidamente não fosse o dia 22 de novembro. Esse era o dia do aniversário da Maria dos Anzóis.
Há muitos anos ninguém lembraria, não fosse ela chegar pilotando o velho carrinho, cheio de tortas assadas durante a madrugada insone. Eram pratinhos, garfinhos, muitos litros de refrigerantes, toalhas, guardanapos.
Só não colocava a vela sobre o bolo de chocolate por pura vergonha, mas torcia para que alguém puxasse o “Parabéns Prá Você” para poder sorrir, fingindo, “não é preciso, não é preciso”.
Mas ninguém cantava nada. Apenas pulavam sobre as guloseimas, perguntando-se quem teria feito “coisas tão deliciosas ”, sem prestar atenção quando ela dissesse, animada, “fui eu, fui eu!”.
Esse ano ela faria diferente. Eram seus trinta e cinco anos. Eu tinha dito quarentona? Bem, exagerei; mas que parecia, parecia.
Maria do Socorro tinha feito uma pequena reforma na casinha de quatro por dezoito. Agora ela tinha dois quartos em cima, um para si e outro para a avó lunática. Embaixo, uma garagem, uma sala conjugada com a cozinha, um banheiro e um metro de “xagão” onde Benji fazia suas necessidades. Que adiantava pintar a casa de azul clarinho sem que ninguém a visitasse? Resolveu fazer uma festa de aniversário e convidou um a um, os doze colegas de serviço- “Quer levar sua esposa? Pode levar…” Alugou uma dúzia de cadeiras plásticas que arrumou, encostadas nas paredes da garagem; mais o sofá de curvim e os bancos da cozinha, ninguém haveria de ficar de pé.
Passou duas madrugadas no calor do forno. Fez bolo, empadão e até ousou um recheio de bacalhau no sanduíche americano, enfeitado com azeitonas daquelas enormes; era uma ocasião especial e os amigos gostavam do que era bom… Bom e de graça, claro.
Comprou cerveja e guaraná, que colocou a gelar num enorme isopor com escamas de gelo. Banhou e vestiu a avó com o traje de festa, com a gola de renda “gripir” que é coisa fina. Às dezoito horas de sábado, correu do salãozinho da rua, ainda com “bóbis” nas pontas dos cabelos e vestiu-se com o pretinho básico, comprado junto com a sandália prateada na loja de departamentos, em seis vezes. Tirou o conjunto de “strass” da caixa vermelha, onde adormecia há dez anos, sem jamais ter sido usado. Esticou as colchas de cetim cor de rosa sobre as camas e arrumou os últimos detalhes, afinal, iria “mostrar a casa” aos amigos, naquelas comitivas que se espremem por corredores; elogiando o piso, as portas…
Ajeitou as flores artificiais no vaso marajoara da mesa de centro, colocou o CD da Paula Fernandes no aparelho portátil e sentou-se para esperar. Dezenove horas, os amigos estariam lá, enchendo a casa de alegria e oficializando Maria da Conceição como parceira do grupo.
Enquanto o CD rodava, ela levantava para virar as cervejas, todas deviam estar igualmente geladas, bem geladas. Ajeitava o filme plástico que cobria o empadão, passava as mãos nas costas da avó que sorria, sem saber muito bem a quem esperavam. A TV, sem som, jogava luzes pelas paredes mostrando alguma vida na casa vazia.
Ela pegou o celular e discou para a colega dos relatórios. Glória atendeu, gritando para conseguir ouvir – era a Glória, lembra? – dizendo que estava em Mosqueiro e o barulho… Que jantar? Anivers… Clic. Discou para o colega… Na Unimed, a fulana, lembra a fulana? Está fazendo inalaç…Clic.
O sub-chefe, que disse que iria com esposa e filha, atendeu “no túnel”: “Alou?…Alouuu ?… Alouuuuuuu?”
Às vinte e três horas, ela entendeu que não viria ninguém. Acordou a avó que dormia de boca aberta no sofá e serviu-lhe uma janta, caprichada. Puxou conversa e de repente começou a ouvir histórias de quando ela era criança e foi ver o Zeppelin na Tito Franco. Devia estar variando de novo, ou não? O certo é que a avó contou-lhe coisas “do arco da velha” e nunca essa expressão foi tão bem usada.
Comeu pensando no desperdício. Depois de colocar a avó na cama, embalou as sobras para colocar no freezer que nunca esteve tão cheio… Acomodou as cervejas que podia na geladeira e resolveu tomar todas as outras, com o Benji acomodado ao lado. E tomou todas, de fato.E de direito, concordemos.
O domingo foi de ressaca e muita dor de cabeça. Melhor assim, pois nem podia pensar no que diria aos colegas. Melhor não dizer nada. Serviu o sanduíche para avó que não lembrando o que havia comido na véspera, achou tudo delicioso, de novo. E assim seria, pelos próximos quatro dias.
Maria faltou na segunda, não estava disposta nem a falar, quanto mais… Na terça foi conversar coma Chefe de Gabinete, que estava cheia de ligações pois a secretária, grávida, entrara em licença… Não fez nada diferente, passou ligações, anotou recados, pesquisou na internet algumas bobagens, arrumou a mesa para o “Doutor” almoçar; na falta de sobremesa, ofereceu um dos seus potinhos com creme de cupuaçu… Na saída, a recomendação “volte amanhã” caiu-lhe como uma benção de mãe.
Só na quarta, pegou o ônibus cedinho e foi, como durante os últimos sete anos, a primeira a chegar. Glória apareceu lá pelas nove, nove e meia, reclamando que “nós perdemos um prazo”. Nós não, cara pálida. Meu trabalho está na mesa do “Doutor” desde segunda!” …Mas, você faltou, Maria…
“Meu nome é Mariana. Mariana de Jesus. E eu não sei do seu trabalho, só do meu…”
Não havia gritado, aliás, falou quase baixinho, mas a outra percebeu que alguma coisa havia mudado “naquela ingrata que só pensa em si mesma”…
O resto da semana foi repleto de pequenas brigas. Quem deixou a mesa cheia de pão? Como não compraram o lanche? Que recado? Reunião? Que reunião? O chefe estava perdido.
O lanche dela, trazia de casa; uma fatia de bolo retirada do freezer, uma latinha de guaraná…
Em suas fantasias, matava todos com um creme envenenado, ou a van caía num precipício. Ou ela mesma morria numa descarga elétrica e todos sentiriam sua falta. Mas não, essa suicida não era mais ela… Que se danassem, ela não fazia a menor questão que fazer parte daquilo.
Na reunião, permaneceu calada, mesmo quando alguém iniciou uma falação qualquer sobre egoísmo.
Na outra segunda-feira, Mariana “faltou de novo” e logo duas colegas foram reclamar no DRH. Como? Não trabalha mais com “a gente”? Com ordem de quem? Que acinte… Glória e colegas pareciam não acreditar que não conseguiriam que a ex-amiga fosse punida…
Falou com o diretor geral e pediu que fosse colocada a disposição de qualquer setor…? Que setor? Todos estavam agitados com a rebelião da Maria… Como é mesmo o nome dela?
Sem se alterar, a gerente do DRH esclarecia que a secretária da Chefe de Gabinete do Doutor está entrando em licença maternidade… Do doutor? Que doutor? Glória insistia como se falassem do…Isso mesmo, do DOUTOR.
E ela vai ficar cinco meses lá, um mês das férias da secretária, quatro da licença, um mês das próprias férias… Isso dá quanto?
Tempo suficiente para ferrar com cada um deles. Isso seria muito mais divertido que chumbinho ou despenhadeiro. Muito mais.
E antes mesmo que Mariana movesse uma palha, ninguém soube muito bem como uma diarréia colossal colocou metade da equipe na cama. Ou melhor, na privada mesmo.
Eram tempos de nuvens negras. Glória foi flagrada com a bolsa cheia de papéis timbrados, Jonelson teve que devolver um notebook que estava na casa dele desde o verão passado, o sub-chefe foi promovido a chefe de departamento em Itupiranga, e…
Marina descobriu onde passava o Zeppelin e levou a avó para passear na antiga Tito Franco. Descobriu também que podiam bater altos papos, desde que fossem sobre fatos acontecidos antes de 1960. De qualquer forma, teriam muito assunto.
Benji vai bem e até se acostumou com uma nova hóspede: Joelma, uma gatinha amarela com tiques de balançar a cabeça. Fora isso, ela é até normal.

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