No Rio…

Xícaras
Escrevo do Rio, num bloquinho amarelado, com uma caneta promocional de uma casa que, provavelmente, nem existe mais. Uma semana feliz, aniversário da sogra, do filho; belos passeios. E paz.
Está frio. Na minha cozinha sem compromissos com porcelanatos ou tendências decorativas, encontro aconchego nas temporadas cariocas. Ela me acolhe como velha conhecida, com suas rugas e um café quentinho.
Minha filha acaba de voltar para Belém e para a rotina – da qual faço parte – e eu fico aqui, ainda na penumbra, pensando na vida, em como ela segue feito um rio que lentamente vai preenchendo espaços, e nos levando… Apesar de nós, eles – rio e vida – seguem adiante, arrastando inquietações, alegrias, bons e maus momentos – estamos vivos!
Minha filha tem aqui avós paternos portugueses, desses que jamais perderam o sotaque ou os hábitos da terrinha. Estavam adoentados quando ela se casou e ela quis visitá-los e tomar sua bênção, como boa neta. A casa é um pequeno Portugal, revestido por fora com aquelas pastilhas minúsculas; num canto, azulejos com Nossa Senhora de Fátima. Na sala e quartos, grandes fotos emolduradas eternizam as boas lembranças – estamos todos nessas paredes cheias de recordações. Nas prateleiras, biscuits de porcelana e cristal que sobreviveram aos netos, quiçá aos filhos; aqui e ali, panos de crochê de linha bem fina – Esterlina, acho – mostram o hobby da avó que faz o melhor bacalhau à sua moda, simples batatas, cebolas, alhos, salsas, “pimentos” e azeite – português, claro – conversam baixinho para não atrapalhar sua alteza, O Bacalhau. Nada de invencionices dessa nova cozinha que assola o país e deixa tudo melado ou com aroma de outra coisa qualquer.
Foi uma visita especial, com saudades a resgatar e tentativas de amenizar os efeitos da distância – e da ausência prolongada – que por vezes nos deixam esquecer quem somos de fato.
Lá pelas tantas a avó entregou à Verena um par de xícaras, dessas de “salto alto”. Nada de mais, não fossem um presente dos vinte e cinco anos de casados – e eles já comemoraram Bodas de Diamante, companheiros como há sessenta anos!
Verena carrega a caixa emocionada. Os votos de uma vida conjugal feliz e longeva – talvez ela jamais tivesse pensado em Bodas de Ouro! – repousam sobre veludo azul.
Nem bem ela saiu, sinto uma saudade diferente de quando o jovem casal embarcou para a lua de mel. É algo que a gente sente até quando respira, como se uma parte nos faltasse. Mesmo assim, não existe tristeza; difícil definir essa saudade amiga, quando nada há para lamentar – ou chorar.
Recolho seus lençóis silenciosamente, no outro quarto, o filho dorme. Meu marido levou minha metade para Belém e eu fiquei com a dele, mais de um metro e oitenta de boa pessoa e olhos azuis – todos juntos, somos a nossa família, inteira.
Na janela, o Rio desperta; o sol hesitante ainda dá esperanças de um dia mais quente. Não me importo. Adoro esse clima que pede casaco e me deixa enrolar o pescoço sem suores ou agonias.
Resolvo caminhar – aqui temos calçadas!- comprar pão quentinho e curtir o vai-e-vem que começa. Ontem, com os pés me torturando, comprei umas “legítimas” e acabei o passeio no Shopping Rio Sul. Ninguém estranhou a informalidade dos calçados destoando de tudo o mais. Livre e feliz lembrei-me do nosso cronista “meso carioca, meso paraense” Denis Cavalcante, que também compra pão na Santa Clara; ele, o Edson Franco… O Rio sempre foi jardim dos paraenses – ou quintal?- onde a gente sente vontade – e liberdade – para ser do jeito que se é.
Sigo pela Avenida Atlântica, cheia de gente feliz. Ouço um refrão muito querido- “Daí-nos a bênção bondosa…”- a tempo de assistir a apresentação do Coral de Nazaré que esteve acompanhando a romaria da Santa Peregrina, com Dom Orani Tempesta.
Coincidência? Deus nos toca a cada momento, não é mesmo? Boa semana para vocês também!

Na Avenida Atlântica, o Coral de Nazaré.

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