Maturidade

Estavam maravilhosos!

Do bloquinho amarelado

Tive a ousadia de viajar quase desconectada. O único contato com o mundo virtual se dá através da tela minúscula do Ifone… Fico sabendo o que rola e quem me escreveu, mas responder é um exercício de paciência. E boa visão – o que já me falta.
Na TV, canais desconhecidos e só um com meu vício – investigações criminais. Mas ele sai do ar- problemas técnicos- e os minutos se transformam em quase hora. Engraçado como longe de casa tudo tem menos importância. Se ainda estivesse em Belém, estaria telefonando, reclamando. Aqui, não. Deve ter outra coisa a fazer no apartamento vazio dos outros – mas completo “de mim”. Estou em cada peça, em cada tolice, apesar da distância dessa sala carioca, para aquela que recebe o título de “minha casa”, em Belém. É quase injustiça com esse espaço que me acolhe, fiel e amigo; como o meu cão que, depois de tantas horárias solitárias, ainda me faz festa.
Vou até a janela, a árvore está praticamente na minha sala… No céu, algumas nuvens estranhamente avermelhadas me dão a impressão que vai chover. Resolvo comer morangos, que nessa temporada estão maravilhosos, suculentos, pouco amargos e perfeitos. Os ruídos exteriores foram sendo substituídos pelos arrulhos de famílias que jantam; um ou outro talher que encontra a louça, uma gargalhada distante, gente que se encontra antes de descansar. Aproveito a calmaria para bisbilhotar meus e-mails com o telefone apoiado no batente, assim, assisto ao espetáculo das luzes no céu acinzentado e desfruto do ventinho da frente fria que está em retirada.
Uma leitora me escreve perguntando como é “a tal da maturidade”. Coincidentemente esse mês a Danuza Leão abordou o tema, exatamente sob esse título, lembrando o peso da responsabilidade de estar “amadurecida e responsável”- como esperam que todos os adultos depois dos cinquenta, sejam.
Pessoalmente, maturidade para mim foi a sensação – libertadora- de que não preciso me importar com o que não vale a pena. Pessoas inclusive.
Talvez não tenha sido causa e sim consequência. Minha tese é que, dobrando meio século, tive –obrigatoriamente – que me preocupar mais comigo mesma e com o que é realmente relevante: aqueles que me são caros. A saúde nos pede atenção o tempo todo, a família envelhece junto, as coisas do dia a dia nos prendem muito mais – e o tempo que dedicávamos a quem não vale a pena, às pessoas difíceis e suas coisinhas complicadas, vai ficando tão escasso que deixamos esse peso “prá lá”. E nós ganhamos muito com essa indulgência.
Já estou emplacando cinquenta e quatro e ainda me sinto insegura quanto às questões que me faziam balançar na juventude. Morte, inclusive a minha, é só uma delas. Mas cheguei à conclusão que me ocupar com isso não resolve nada. Deve ser maturidade, enfim.
No mais, cara leitora, quando penso no quanto venho descomplicando minha vida, constato que a inteligência emocional talvez seja algo que se aprimora com o passar dos anos. Aceito as pessoas como são, mantenho distancia salutar dos que não me querem bem, de fato; ignoro o que não me agrada… Nem todo conhecido é amigo, nem todo parente é umbigo. Creio que a idade me deixou mais esperta, pois finalmente entendi que não se apressa o rio… Ele corre sozinho!
Quando publicarem essa crônica, já estarei em Belém. Quem sabe, ao copiar as folhas amareladas, acabarei por me admirar com alguma coisa, já repensada. Maturidade pode ser isso, dar a si – e aos outros – o direito de mudar de idéia – e não dar importância demais ao que já foi verdade imutável. Nada é definitivo, nem essa chuvinha que se arma e não cai.

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