Histórias previsíveis

“T” tem quatorze anos e parece ter menos; não aparenta ser bem alimentada – ou cuidada. Cabelos ressecados, roupas surradas, sandálias gastas que mostram calcanhares castigados. E ainda consegue sorrir, de vez em quando, apesar da triste sina. Em tudo e por tudo, jamais lembraria nossos filhos saudáveis; ela é o exemplo de tudo que fingimos não existir – para não enxergar.
“T” acabou incomodando a todos, em especial alguns, quando saiu da invisibilidade e tornou-se o desconcertante exemplo da realidade que os governantes e políticos insistem esconder sob o tapete da indecência, ao lado dos desmandos, da desonestidade crônica, da irresponsabilidade, do desinteresse pela população, do nepotismo que favorece sempre os mesmos – tudo que nós, os decentes, preferimos ignorar, encastelados no nosso agradável mundinho de planos de saúde e férias inesquecíveis. “T” é um assunto inconveniente e desperta, sorrateiramente, remorsos pelo que deixamos de fazer- ou permitimos que “eles” façam.
Muito mais fácil (humano?) atribuir-lhe responsabilidade pelas atrocidades que sofreu, afinal, o que esperava ao participar de uma “diversão” num presídio? Esquecemos que, mesmo que tenha participado de orgias ou usado drogas – agora, ou antes – ela é apenas a criança que ninguém permitiu que fosse!
A primeira vez que foi estuprada, “T” tinha cinco anos e seu algoz foi o próprio bisavô; para escapar da violência, acabou nas ruas, à mercê de outros violadores e desse sistema que não defende ninguém. Como se pode esperar que uma menina, que jamais vivenciou uma relação familiar amorosa ou teve exemplos do que é certo ou errado, soubesse discernir entre este e aquele?
“T” já havia ido ao presídio encontrar-se com um homem de quem “gostou” e que nada fez para impedir que fosse violentada pelos colegas, na segunda “visita”. Decepcionada pela falta de cumplicidade, fugiu daquele planeta perverso e invadiu o nosso; esfregou em nossas caras como a vida é, lá fora. Pobre “T”! Não conhece amor, muito menos sexo entre quem se ama. Suas narrativas que envolvem sexo – consentido ou não – são de violência e humilhação. Talvez ache até que é assim mesmo, que “transar” é praticamente ser agredida por um – ou por muitos.
Não acredito que essa criança – é o que é, apesar dos outros – tenha ido ao presídio em busca de prazeres que, provavelmente, nem desfrute. “T” queria um pouco de atenção, talvez ser a namorada de alguém…
“T” é vítima de muitos. Do pouco caso dos pais (onde estavam?), dos governos que se sucedem empurrando a culpa para os anteriores, do sistema decadente. É vítima de covardes – como nós – muito incomodados quando, em meio à pizza na sacrossanta segurança dos nossos lares, somos obrigados a ver crianças que jamais saberão como é bom estar em casa, bem alimentados e com uma cama limpa para dormir.
Essa realidade é que deveria ser demitida sumariamente, dando lugar às ações que colocassem em prática aquele velho discurso de geração de emprego e renda, saúde e educação -blá, blá, blá – a única saída para quem não teve, sequer, pai e mãe que olhassem por si.
Que culpa nós temos? No mínimo, somos responsáveis pelos governos que elegemos e pela falta de disposição – ou coragem – de cobrar políticas públicas eficientes. Chega de falar baixo, cansei! Até quando as cadeias continuarão sendo depósitos de gente, onde se consome droga e se aprimora a arte do crime? Até quando poderão fingir que essas coisas – bebês morrendo sem atendimento, corrupção generalizada, crianças violentadas, “são inevitáveis”?
A quem deveríamos demitir para que tantas “Ts” tivessem pelo menos uma, uma única chance de mudar suas histórias tão previsíveis?

Inocência Perdida (Bertha Lutz)

Uma pequena criança perdeu sua inocência
Na noite passada e abandonaram
Sua alma em qualquer lugar.

Seu pai, homem exemplar!
Só bate na esposa para ela respeitar
As regras impostas e ver quem manda no lar.

Sua mãe, mulher exemplar!
Olho roxo e nariz quebrado
Mas nunca irá denunciar.

Seu pai, homem exemplar!
Só quando enche a cara
Fala merda e arruma briga no bar.

Sua mãe, mulher exemplar!
Calada e submissa
Mas nunca vai reclamar.

Seu pai homem exemplar!
Só quando é noite vira o lobo mau
Sua mãe, mulher exemplar!
Sabe do choro das filhas
Mas finge não escutar…

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