Desencanto

Já não se vê quem roube para matar fome – a própria, ou dos seus. Drogas ou ganância são os motivadores de quem se arvora no crime, seja ele qual for. É o que se vê nas páginas policiais ou no caderno de política e poder. Naquelas, rapazes com suas mechas louras espetadas – que podiam estar atrás do balcão de qualquer loja – estão assaltando, para financiar o vício. Neste, engravatados promovem uma falcatrua atrás da outra; querem sempre mais, mais… Parece que roubar virou uma epidemia.
De colarinhos emporcalhados nem falo (não agora!); mas a banalização das drogas – consequentemente do crime – na periferia, é alarmante. Se você mora num bairro classe média e acha que a coisa está ruim, não tem idéia do que acontece um pouquinho além da Batista Campos – ou do seu condomínio.
Uma jurunense me conta do desespero de saber que, na sua quadra, não existe uma única família que não tenha pelo menos um membro envolvido com drogas – e com o crime. Tentei imaginar isso na minha rua, e percebi o quanto é desesperador. Quanto mais humildes, mais pessoas residem no mesmo endereço e isso amplia o espectro devastador do vício; é comum que irmãos ou primos frequentem juntos as “bocas” e cometam assaltos. Muitos voltam para casa imundos, furtam dos próprios parentes que, sem ter a quem recorrer, acabam se conformando. Quando são presos, a família passa por outros suplícios, se é que me entendem; inúmeros morrem em acerto de contas, mas os infortúnios dessas famílias sobrevivem feito sina, quase predestinação. Ser pobre já é difícil, abandonado (e até explorado) é muito pior. E ainda há quem ache que para a mãe carente, cheia de filhos e misérias, a dor de perdê-los é menor – ou mais suportável – que heresia!
Queria ter um tema ameno, quem sabe a minha obra que desafia a da Igreja de Fátima… Tentei fazer graça com um besteirol qualquer (O “Pórrrtico” – como diria o Yúdice Andrade – serve para que, mesmo?) mas não consegui esquecer a senhora , perguntando como seria a vida no seu bairro daqui dez anos…
Não sei, disse-lhe com franqueza. Não faço idéia do que fazer para tentar, de alguma maneira, manter a juventude longe do crack, do óxi, ou de outra porcaria qualquer. Esses jovens vivem um desencanto avassalador, sem perspectivas menos miseráveis; sem objetivo e sem esperança, o futuro pode parecer-lhes pior ainda.
Minha certeza é que o sistema falhou, em tudo. Não oferece segurança, não garante atendimento básico de saúde e, acima de tudo, não consegue tocá-los com um modelo educacional interessante e de resultados. Ficamos presos no círculo vicioso de que vandalizam escolas e por isso não conseguem educação de fato – ou seria o contrário? Quem “nasceu” primeiro? Nesse caso, é fácil: o desencanto, a decepção. E agora?
Um colega de meu pai no então maravilhoso Colégio Paes de Carvalho, falava-me do amor incondicional dos alunos pela escola e do quanto os professores eram dedicados. Seria possível amar uma escola que não os atendesse? Hoje, tudo é diferente – e pior. Para sobreviver, professores trabalham em várias escolas; é praticamente impossível manter qualquer relacionamento salutar com adolescentes que não respeitam, sequer, a autoridade do mestre em sala de aula.
Enquanto isso, o que deveria ser uma passarela eficiente, virou uma piada de R$ 9,4 milhões, sendo R$ 7,2 milhões do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e R$ 2,2 milhões da prefeitura; contrapartida que poderia ter sido investida na educação. Valha-nos quem, mesmo?
Voto, minha senhora. Seu voto é que pode mudar alguma coisa – no mínimo, fazer uma bela faxina. Bom dia – e boa sorte.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: