Bajulatices

O cordão que aumenta mais…
No Rio o domingo amanheceu tenso, com a morte do cinegrafista da Band no enfrentamento entre polícia e traficantes, na comunidade de Antares. O trânsito – normalmente “menos pior” – ficou péssimo no acesso ao Rebouças. Nessa convivência forçada, converso com o taxista, o S. Augusto. Algumas vezes, peço a São Cristóvão que o “motora” me esqueça, principalmente se tiver cara de poucos amigos. Não era o caso. No rádio, o locutor – louco para estrear um stand-up – discorria sobre os tipos de bajuladores. Lembrei dos que conheci em passado remotíssimo. Gente obsequiosa demais, que adora “sabujar” quem possa retribuir-lhes com sinecuras. Disfarçam-se em gentilezas e vivem oferecendo algo – água, caneta, balinhas, carona ou o próprio assento à mesa – sem perceber que simpatia demais é um nojo, arre! Não consegui conter o riso e essa foi a “deixa” para que ele falasse de um ex-funcionário, cuja maior aptidão era a adulação ao chefe. Meu – agora, nosso – condutor foi executivo de multinacional fabricante de artigos de higiene e comandou o departamento de vendas de sua região, quando conheceu o supra-sumo do puxa-saquismo. Digamos que se chamasse Carlos. Pois bem, entre outras façanhas, o tal Carlos (que não fumava!) mantinha duas carteiras de cigarros na pasta para servir aos superiores, já que um fumava Hilton e o outro gostava de Benson mentolado – uma raridade na época. Ter cigarros já era muito, mas Carlos, servil por vocação, carregava até o isqueiro!
Com frequência, o gerente se deliciava com “quentinhas” sortidas pela talentosa esposa do Carlos, que levava joguinho americano, talheres, sobremesa e uma novidade importada dos “esteites”: palitos de dentes, mentolados! Vá puxar-saco bem assim lá… Pensando bem, deixa pra lá.
A conversa ficou animada, ele observou que normalmente aduladores não têm carreira longa na iniciativa privada – ao contrário do setor público, onde políticos comandam. Aí é covardia, pois a abundância de bajuladores é espantosa! Lembrei de um, que “aparecia” no sítio do chefe todo domingo pela manhã, para saber se queria ajuda na churrasqueira. E ele sempre queria, claro. O “lambe-botas” se sujava com carvão, penava no abano, enfiava as carnes no espeto, gelava as cervejas e… -”Bem, meu caro, daqui em diante, eu me garanto! Obrigado, amiiigo!”- era solenemente dispensado. Ingenuidade achar que poderia ser “amigo” de um desses políticos que não sabem andar sem aquele séquito risível de assessores, puxando-lhe cadeiras nos restaurantes, acendendo cigarros, fazendo ligações, lustrando o ego do patrão – que adorariam ver no inferno, caso não dependessem dele! Tapete morre tapete, ou vira capacho; o que é a mesma coisa, só mais perto da sarjeta.
Nos “bons tempos”, S. Augusto foi convidado para ser padrinho de dois casamentos e de três filhos de funcionários. Num desses batizados, encontrou um antigo gerente, que assistia à missa. Raposa velha, tarimbado em assuntos bajulatórios, ao saber que era seu terceiro afilhado “corporativo”, alertou-lhe: “Não se empolgue, meu caro; fui padrinho do mais velho… E o compadre nem me conhece mais, amém.” Uma bênção, mesmo… O trânsito fluiu, ufa! E o Carlos, perguntei. Ficou na empresa até se aposentar, nunca chegou à chefia, mas esteve assim “ó”, com os chefes que por lá passaram; os três filhos têm, inclusive, os nomes desses. Mudam os personagens, mas o roteiro…
Lembrei da crônica… Domingo acabando e eu sem uma linha! Totalmente sem assunto, a cabeça tomada pela reforma que não acaba – e que deixei aí, em Belém. Deixei? Aonde o cão vai, leva suas pulgas… Quem sabe, até a próxima terça surja alguma coisa interessante?

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