Um pequena reforma

Adorava reformas. Agora não adoro mais.
Essa última, que se arrasta desde o comecinho de julho, se tornou um peso que simplesmente não suporto mais. Olho minhas coisas – as estimadas e as que nem gosto tanto assim – amontoadas e cobertas de poeira… Não existe um só cômodo que se possa dizer que está razoavelmente arrumado, são pilhas de caixas, de móveis cobertos por plástico preto, recoberto de poeira; não sei onde estão aquelas coisinhas que se precisa de vez em quando – as chaves de fenda, a leiteira, o controle remoto ou um bom e velho Lexotan. Nada, absolutamente nada, está em ordem – e eu só consigo suportar bagunça num grau muito, muito discreto. Para terem uma idéia do meu sofrimento, antes de escrever, arrumo a mesa e coloco tudo alinhado, simetricamente. No banheiro, as toalhas devem estar na mesma altura – ou saio do banho e arrumo. Meu marido – que é muitíssimo pior que eu, deve estar sofrendo horrores: a mesa dele é sempre vazia, sem na-da; ao contrário da minha, com meus potinhos e caixinhas alinhadas…
Estou escrevendo em busca de catarse, querendo desabafar, procurando um ombro amigo que me deixe chorar e dizer dessa vontade de “morrer”, desse temor de que eu jamais consiga arrumar tudo de novo ou que, como num filme do Almodóvar, esses pedreiros fiquem para sempre morando aqui, passando pela minha cozinha, me dando “bom dia”, reclamando da comida leve demais, comentando assuntos de família – da minha – contaminando minha atmosfera com música que não gosto, cortando porcelanato torto ou… Ainda bem que não chegamos a esse ponto, isso é só um pesadelo. Horrível, é verdade.
Mas o pior é que agora, cada vez que fazem algo errado, acredito piamente que é pessoal e que me odeiam com todas as forças – pedreiros têm poder (marceneiros, então, são poderosíssimos!) e sabem onde podem atingi-lo mortalmente. E vão fazer isso, mais cedo ou mais tarde, livre-se deles ou renove a equipe a cada três meses, que é o tempo que passam da convivência pacífica ao ódio. Ódio que só você percebe, o resto da família vai dizer que é coisa da sua cabeça, que isso é estresse, que no fim tudo melhora e essas bobagens que dizem aos loucos mansos. Mas você sabe que se trata de um complô contra sua obra – ou o que poderia explicar essa porta de 2,17m que tentaram enfiar num vão de 2,.12m? Heim? Heim? Eu disse, isso é de propósito! Mas a família diz que é incompetência mesmo; é que não sabem da missa a metade…
Sou mãe de uma jovem que aos três anos sabia que queria “construir casinhas”, desde cedo rabiscava coisas, distribuindo as tralhas da Barbie ordenadamente – e eu gostava tanto de reformas que era comum dar “teco” na brincadeira: -Filha, o banheiro não deve abrir para a cozinha…
Quando visito esses novos lançamentos imobiliários (a maioria uma grande porcaria, de tão mal acabados e mal planejados) presto atenção em detalhes que poucos notam: se tem varanda, onde está o ralo? Se tem jardineira na varanda, cadê a torneira para regar as plantinhas, heim, heim? Por que as cozinhas não têm mais ralos, ninguém mais gosta de água e sabão, é só aquele pano porco??? E a queda da água do banheiro, geralmente para o lado errado? Por que “inutilizam” as quatro paredes dos quartos, espalhando porta de entrada, do banheiro, ar-condicionado e janela? Custa deixar uma parede inteirinha para o armário? E onde já se viu duas portas que abrem num mesmo canto?
Bem, eu tinha tudo para estar feliz nessa reforma, afinal, para não sobrecarregar a filhota que estava bastante ocupada,contratei pessoas habilitadas para executarem o projeto dela e jurei que não administraria a obra – pura balela, no fim sobra muito o que fazer, o que decidir mudar ou remediar… E como a gente muda e remedia, meu Deus! No fim, a gente só quer se livrar “deles”, aceita tudo como der e vai acumulando essas decepções uma atrás da outra, desistindo do projeto e aceitando o improviso. Acho até que quero morrer…
Tive até um acesso de Síndrome de Estocolmo e fui para a cozinha, vésperas do Círio, caprichar num frango no tucupi. Eles adoraram, mas na semana seguinte jogaram a comida fora – era saudável demais, ô raça! Caí na real e como naquela piada do criador sendo fiscalizado pelo ministério da agricultura, comprei vales-refeição e distribuí; simples assim, se quiser comer, come; se não quiser…Exatamente isso.
O caso é que estou cansada, sinto dores pelo corpo, um sono constante que me derrota e essa vontade de pedir colo e chorar – aliás, estou chorando.
Tenho rezado mais do que nunca, em especial para Santa Rita (a das causas impossíveis) e para Frei Galvão, protetor da construção civil; pensando bem, ambos devem ser muitos requisitados aqui em Belém e a minha obra nem “estalou”… Falando sério, oro a Deus – que já me protege o tempo todo – que me dê paciência e conformação, me faça criar juízo e nunca mais fazer uma obra em qualquer imóvel que esteja habitando. Se bem que essas portas estão precisando de uma lixada, uma polida; as fechaduras douradas já estão “out”… E os banheiros, bicolores? Um monumento aos anos oitenta, quem sabe daqui dois anos…

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Verena Cascaes | Natália Antunes
    nov 20, 2011 @ 22:20:55

    Força na peruca que tá acabando! 🙂

    Responder

  2. Márcia
    nov 15, 2011 @ 15:38:12

    Frei Galvão,anda fazendo hora extra,com tantos pedidos de Paraenses!
    Já não atende aos pedidos pessoalmente.
    Em sua secretária eletronica,deixou o recadinho:”No momento,não poderei atender.Se você deseja solicitar a minha proteção:
    -Para que o cálculo das fundações do prédio onde você mora,esteja correto:Digite 1
    -Para as demais encrencas com a construção civil:Digite 2,e retire sua senha,diga seu nome,tel para contato,etc…,não esqueça de deixar o nome do operário que lhe deixou transtornada,retornarei assim que for possível”…

    Responder

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