Se eu pudesse sumir – crônica de uma reforma que não acaba.

Não, meu caro, não leia.
Isso é apenas um desabafo, já que não tenho outro ouvido senão esse teclado lambuzado de lágrimas.
Não perca seu tempo. Sou só uma mulher cujos nervos se foram em seis meses de casa cheia de poeira e falta de respeito.
E de quem é a culpa?
É minha, sim senhor. Eu é que inventei de fazer uma cobertura de 6X18m; encasquetei de cobrir a garagem e fazer uma sala confortável onde antes havia um espaço sem uso.
Fui eu, sim!
Jamais imaginei que teria tanto problema e que seria mais fácil fazer uma obra desde o começo, mesmo. Construir uma casa nova!
Se soubesse, tinha mandado fazer um puxadinho, desses de alumínio, cafonas como meus sonhos.
Cafona e antiquado como achar que eu encontraria gente como eu – que respeita os outros, que entrega no prazo , que não entrega menos do que recebeu.

Desculpe os erros, de qualquer forma. São as lágrimas.
Sou mulher, lembra? Mulheres, mesmo as que enfiam a mão no ralo, que lavam carro, que usam furadeira, que matam barata, que carregam mala e peso, que cozinham, lavam e até passam de vez em quando…Que sonham, que capricham, que copiam receitas da televisão, que não têm medo de escuro ou de dormir sozinhas, que passam hidratante, que tentam emagrecer, que pagam contas em dia, que escutam caladas, que suportam varizes, que batem um bolo para o próprio aniversário de casamento…Mesmo que tentem ser o super-homem, são ‘apenas’ mulheres. E mulher vaza de vez em quando. Vaza e chora.

Por isso tudo, desista daqui. Não queira saber o que aconteceu hoje, pois isso é uma conversa desagradável.
É só um desabafo, repito.

É que hoje tive um piti “daqueles”…
Vomitei minha indignação, minha raiva, minha dor. Coloquei para fora tudo que os resquícios de civilidade e boa educação me obrigaram conter durante os últimos seis meses em que fui humilhada, desrespeitada, ignorada por quem eu paguei – muito bem pago, aliás- para cuidar de uma simples obra de reforma.
Simples.
Não consegui mais e gritei todos os putas que pariu que conhecia, todos os palavrões que julgava que iriam me libertar desse grilhão que me sufoca, desse desespero que me acomete todas as vezes em que entro no que foi a minha casa e encontro caixas, poeira e descaso.
Mas não me libertei, mal consigo respirar e então, me dobro à minha fragilidade, me recolho à minha feminilidade e me entrego, finalmente, ao choro. Exausta, ferida, decepcionada, magoada. Indignada.
Como se eu pudesse saltar sobre um alazão de meia-tigela, desembainhar uma espada do He-man e fazer acontecer tudo que não aconteceu em seis longos e extenuantes meses.
A engenharia civil não pode ser isso que eu conheci aqui.
Devem existir empresários mais sérios que esse Pedro da estrutura metálica, que vem atrasando tudo, mandando funcionários arrogantes, que queimam minha casa com solda, que borram tudo com massa plástica e deixam parafusos com cabeça de fora, para que outros subam lá para apertar.
Abandonei tudo para tentar proteger minha casa. Minha casa. O meu ninho, o meu canto, o meu templo.
Deixei coluna, deixei blog, deixei minha vida lá fora.
Mas de nada adiantou.
Pessoas como esse Pedro têm esse poder de entortar, de estragar tudo que tocam – ou mandam alguém tocar. Ele não nos respeita e não respeita quem o contratou para prestar serviços na minha casa.
Tive aqui, em seis meses, todo tipo de dissabor que jamais imaginei enfrentar.
Tive inclusive, bandidos, que durante o dia se faziam passar por operários. Um deles matou um homem – um falso taxista que era comparsa – depois que largou a obra. Imagine ver na televisão, sorrindo, dizendo que não se arrepende, o rapaz que fazia as vezes de encanador na sua casa! Eu vi.
Eu passei por isso.
Como contratei? Não contratei. Para fazer tudo certinho, contratei uma empresa que me mandou os operários.E eu, idiota, achei que todos eram contratados, carteira assinada e atestado de bons atencedentes.
Me disseram que “não funciona assim”.
Pois é.
Alguns era quase bons; a maioria, nem tanto.
Fui tola, acreditei que tratando bem, eles trabalhariam bem.
Paguei em dia, tudo certinho. Cozinhei, arrumei pratos com cuidado.
Minha comida era “fraca”, queriam cozidão, rabada e panelada. Dei vale refeição.
Comprei o melhor material.
Jogaram fora, desperdiçaram tudo.
E agora, um vem me dizer que a queda do pátio está ao contrário.
Que vão quebrar tudo de novo. Mais porcelanato, mais argamassa, mais dinheiro, mais tempo, mais saúde, mais falta de respeito, mais desespero; Senhor, eu não mereço isso.
Mas é assim.
A gente tenta ser “legal”e só se ferra. E eu cansei.
Nem meu vômito, nem meus putas que pariu mil vezes, me aliviam dessa dor enorme no peito, dessa vontade de agredir o primeiro que debochadamente me diz que isso acontece. Acontece na casa da sua mãe, seu infeliz!
Não me digam que estou nervosa.
Eu estou furiosa.
Puta da vida.
Não me digam que é preciso ter calma, que calma não adiantou nada.
A não ser esse enorme arrependimento por ter envolvido minha família nessa trip sem retorno, nessa enorme rou-ba-da.

Devo merecer tudo isso. Afinal, dizem que na vida, tudo é merecimento.

Se eu pudesse sumir, me enfiar num buraco para chorar em paz em vez de gritar como gritei, seria melhor.
Mas não posso.
Não tenho como, nem pra onde.

É tomar um banho e ir comprar o material. O mesmo. Pela terceira vez.
Enquanto no fundo, no fundo, praguejo para que todos caiam, durinhos.
E me dano a chorar…

Anúncios

1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Antonio Peck
    dez 14, 2011 @ 11:13:58

    Poxa Verinha, imagino o que vc deve estar passando. Sinto muito e q Deus te dê muita força.
    Quanto ao resto, pragueje mesmo, grite e tente “enforcar” meio mundo. Nessas horas é o máximo que a gente pode fazer.
    Lendo seu post e sua aflição só consegui lembrar daquela música do Vander Lee que diz: “deixa eu chorar até cansar…me leve pra qualquer lugar aonde Deus possa me ouvir”.
    Bjo querida

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: