Poivre no dos outros

De repente lembrei do passado.
Quando saí de Belém, logo após me formar, a cidade era pequena (mas bonita e limpinha) e carente de quase tudo.
Nas feiras, a riqueza eram as frutas -ma-ra-vi-lho-sas- e as farinhas…Por outro lado, nossas saladas eram sempre tomate e alface, mas até o alface era mixuruca, seis folhas mirradas da produção local -incipiente- e nada mais.
Rúcula, radichio, tomate cereja, escarola… Honestamente, nunca tinha ouvido falar. E não me faziam falta.

Fui morar em São Paulo e comecei a me “civilizar” digamos assim. Até sushi eu já comia! E meu molho levava manjericão…
Na TV, o único programa de culinária era da Ofélia, com quem acabei fazendo dois cursos e aprendi a cozinhar de verdade.
Mas ainda tinha tanto a conhecer!
(Estamos falando em 1980, gente!)
Vai então que um quase primo metido a besta nos convidou para jantar.
Ele era um desses chatos que acha que cozinha muito bem e enche o saco dando a receita, manja?
Pois é.
O cara tinha morado “fora”, no “exterior” como se dizia. Argélia e Iraque, por conta da tal da Braspetro. Na ida e na volta, dois dias em Paris e o babaca já se achava o maior entendido em cozinha francesa. Tá.”Ah…os pães franceses!” Tá.
Lá fui eu, comer o tal do Steak au poivre, que eu não tinha a menor ideia do que era.
Descobri que era um bifão com um molho ótimo, com as pimentas inteiras – e gostei muito. Pena que tive que aturar uma conversa pra lá de chata, sobre a diferença entre um tapete paquistanês e um persa.

Tive a ousadia de perguntar qual era, com aquela cara de quem aprecia um Tabacow – e olhe lá.
E ele , com nojo, disse que um tapete paquistanês é “um embuste” pois dura “apenas” quarenta anos!
E eu: E o persa? “Quatrocentos anos, minha filha!”.
Pior foi meu arremate: “E quem vai querer aturar um tapete por quarenta anos? Quatrocentos, então…”
Já viu que o papo foi longe…
E ele voltava à sua obra prima, o Steak… “O dia em que você puder (e ele acentuava o “puder”como se fosse pouco provável…) ir à Paris, peça um ao poivre vert…” e por aí continuava a baboseira.

O tempo passou.
Ele nunca voltou à Paris de verdade, só naquelas duas conexões. O “exterior” dele era África (sem preconceito!) e nada mais.
Perdeu a toda a grana que tirou da mulher nhum divórcio de cartas marcadas e nem sei o final deprimente da sua história. Não me interessa.
Eu?
Fui a Paris, comi o Steak e o poivre, entre outras coisas bem melhores e mais originais…

Hoje lembrei disso, ao me esbaldar num democrático, honesto e popular “Filé ao Poivre” no Bonaparte. A classe média já foi ao paraíso, querido; poivre, até no dos outros, agora é bobagem!

Ele, se for vivo, pode ter almoçado churrasquinho de gato… ou lagosta. Quem se importa?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: