De olhos fechados

Jovens casais, ao que parece, estão deixando de “sair para dançar” – o que é uma pena. Até pouco, era comum que as noites de sábado fossem para rodopiar por aí… Alguns haverão de torcer o nariz, mas era ótimo balançar ao som do ABBA; qualquer uma poderia ser “Dancing Queen- a rainha da dança, jovem e doce…” Bastava fechar os olhos e se entregar… Hoje, bem, hoje existem poucas opções para quem gosta de dançar e o namoro – de casados ou solteiros – acontece também em shoppings, pizzarias, restaurantes e espetinhos- uma lástima. Namorar passou a engordar e perdeu o charme dos tempos em que, além de jantar, a gente dançava!
Apesar da modernidade, existe quem continue lustrando as pistas… Há mais de vinte anos conheci um casal, recém começando a vida a dois. Ele gostava de caça, pesca e outras atividades um tanto radicais. E ela o acompanhava alegremente, desde o namoro – que nem foi tão longo. As coisas não mudaram com o casamento – o que é raro – e as noites de sábado continuaram reservadas, quase sempre, para dançar. E como dançavam bonito!
Eu os admirava enquanto executavam passos com a intimidade dos cúmplices; ela girava e ele estendia-lhe a mão no momento exato… É preciso tempo, intimidade, para conquistar essa afinação – e nem sempre ele, o tempo, conspira a favor dos casais… Ou seria o contrário?
Bem, os anos passaram… Assisti muitos casais dançando, mas sabe de uma coisa? Quem dança de olhos abertos e atentos, não tem a cumplicidade – ou seria paixão? – de quem os fecha, como cerrasse cortinas, para viver o momento dos dois, deixando tudo o mais “lá fora”…
Aonde vão parar os casais enlevados, nesses minutos de quase transe? Podem estar no presente – se for muito bom- ou em algum lugar de um passado feliz. Enquanto o globo espelhado gira e “McArthur Park se enternece no escuro, com o verde descongelando” na voz de Donna Summer, visitam um paraíso particular. Shangrilá, Passárgada, Salinas ou os anos 80, pouco importa- “viajam” para onde foram felizes… (Nunca existiram músicas como aquelas!)
Ah, o tempo muda tudo, você vai me dizer. Muda, mas nem sempre acaba. A natureza do amor (e dos relacionamentos) por si só é mutante e moldável. Podemos dar-lhe novas formas – ou deixarmos que envelheça até fenecer.
O tempo não poupa cinturas, memórias ou amores. Desatentos, nem sempre estamos maduros e dispostos a aceitar (e aconchegar) essa nova natureza do amor que conseguiu sobreviver aos maus tratos. Quando permitimos, a alquimia amorosa transforma paixão em confiança, ciúme em tempero, promessas em lealdade… As borboletas no estômago, aos poucos cedem lugar para a paz que reconforta. O amor maduro é uma conquista. Árdua, paciente.
Na pista, minha amiga comemora cinquenta anos enlaçada pelo marido, lembrando-me das noites de sábado… Um casal que logo estará nas bodas de prata e ainda dança de olhos fechados, é uma inspiração!
Essa não é apenas mais uma festa. É uma ode aos bons tempos – aos que foram e aos que virão. Uma oração para que as boas recordações tornem o dia a dia mais especial; louvor de quem escolheu ser feliz. Uma viagem de olhos fechados… Mas acima de tudo, é um presente para cada um de nós.
No telão, Tony Manero agita o blazer branco e dezenas de casais lotam a pista luminosa. Penso naqueles que cumprem o castigo de jantar toda semana, sem trocar mais que algumas palavras; sem assunto, sem nada para partilhar além do cardápio. Definitivamente, a solidão a dois não sai para dançar – e infelizes não dançam…
Interrompo o devaneio quando os acordes anunciam que As Frenéticas nos mandam abrir as asas. Como resistir?

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Rafaela
    jun 15, 2016 @ 09:34:16

    Corações no lugar dos olhos haha, que casal mais querido!

    Responder

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