Falando em cinema…

Conversar com bons amigos é sempre uma festa para a alma. Numa dessas noites, a Noemi Leão comentou sobre pessoas que tinham sido especiais em nossa juventude – por diversas razões – e nunca souberam disso. Lembrou-me de Luzia Miranda Álvares e Pedro Veriano.
E eu embarquei rumo ao passado… Como disse o querido João Carlos Pereira, “meu tempo (também) é agora”; mas o que já foi, ah… Foi bom demais.
Luzia e Pedro foram o primeiro casal moderno, que conheci; uma espécie de vanguarda em plena Amazônia.
Aprendi a apreciar cinema com meu pai, que inclusive, quando esteve Prefeito (74/75) promoveu o Primeiro Festival de Cinema de Belém – mas isso é um outro assunto… Frequentamos o Cine Bandeirantes, na casa do Pedro e da Luzia, que reunia um grupo respeitável. Adolescente, eu tentava sorver tudo o que ouvia aos goles, às vezes quase me engasgando. A cortina, a máquina, o ruído do filme desenrolando, tudo era mágico. Lá conheci o Didi (Edwaldo Martins), o Acyr Castro; e reencontrava o Eduardo Silva, amigo desde e para sempre. Um filme, “Pequena Loja na Rua Principal”, me deixou deprimida e “Rachel, Rachel” me fez desconfiar que mulheres podem ser muito complicadas.
Minha primeira paixão “cinematográfica” foi Gene Kelly, depois de “ A Aldeia Mágica”. Durou pouco. Embarquei no “Felicidade não se Compra”, “do Pedro” – se ele assistiu dezesseis vezes, eu deveria assistir oito, pelo menos… No saudoso Cinema Um, três sessões em seguida, foi o começo da paixão – fugaz, admito – por James Stuart.
Continuava querendo “entender de cinema” como a turma do Bandeirantes.
Era comum querer ver um filme depois de ler a crítica, mesmo que “precisasse” matar aulas. Cheguei a assistir três, em seguida – com uma pausa na lanchonete dos fundos, claro. “A Mulher Infiel”, de Claude Chabrol, foi um desses. Culpa da Luzia.
Semanalmente, eu e papai frequentávamos o Cine Catalina , na Base Aérea e o Guajará, na Base Naval, apesar dos ventiladores barulhentos. Não perdemos um só Festival Charles Chaplin.
“Marcelino Pão e Vinho” me desidratou, de tanto chorar; foi quando resolvi ser triste, pois achei que bonito era sofrer… E eu, que não tinha um só dramazinho para verter lágrimas? Andei de olhos baixos e tentei falar pouco; pensei até em passar alguma fome. Durou dois dias; jamais combinei com tristeza. Ou fome.
Ler jornais diariamente foi outro hábito que herdamos do velho Cascaes. Lia tudo, em especial, as colunas de cinema. Quando não entendia um filme, buscava a crítica e, se fosse o caso, voltava ao cinema, para conferir.
Estive nas primeiras sessões de “Love Story”, “Romeu e Julieta” e “O Exorcista”; Cine Palácio, lo-ta-do. (Sou um dinossauro, sim senhor.) Mas os “xodós” dos entendidos eram Laranja Mecânica e 2001, Uma Odisséia… Cheguei à TV Liberal (onde era apresentadora) e confessei ao Acyr Castro – outro craque sobre o tema e nosso editor na época- que não tinha entendido “quase nada” do filme do Kubrick. Ele riu: “Fica fria, a maioria não entendeu nada, mesmo.” Ainda assim, voltei ao cinema para “averiguar”… Achei um saco, mas não comentei, não “pegaria bem”.
Hoje “Laranja” parece menos improvável; a gang do Alex poderia morar em Brasília e riscar um fósforo num patoxó; talvez ele fosse um atleta que matou a amante e – dizem – jogou o corpo aos cães. Antecipar o mundo – bom ou nem tanto – também é coisa do cinema…
… Quatro décadas depois, eu e Noemi Leão nos perguntamos se teria sido “a mesma coisa”, sem a leitura dos nossos críticos da sétima arte. Definitivamente, não; foi muito mais divertido.

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