Fazenda Santa Rosa

 

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Pedaço de mim

Começou no estacionamento do aeroporto, muitos anos atrás… Fazia calor, logo depois do meio dia e o vento chacoalhou algumas palmeiras. Olhei o céu, de intenso azul e o farfalhar despertou-me memórias que nem eu sabia que guardava. Uma ave qualquer assobiou longe, repetidamente. Continuei ali, olhos fechados, deixando os outros sentidos me guiarem até minha infância. Uma pancada de chuva, dessas que largam uns respingos e somem do mesmo jeito que começou, liberou o cheiro de terra, o mesmo que impregnava meus dias na ilha do Marajó.

Talvez tenha durado cinco minutos, talvez menos, mas foi tempo suficiente para avivar uma saudade que venho carregando vida afora, como os fantasmas arrastam correntes. Entrei no carro, tentei gravar alguma coisa, ditar um texto que não sabia o enredo. Desisti e quis esquecer. Ou fingir que não lembrava mais nada.

Tempos depois, alguma coisa me fez passear entre as capas coloridas expostas na livraria. Não procurava histórias, mas imagens que me parecessem familiares… Lá estava eu em busca do passado, tentando juntar fragmentos desse filme que permanecia inacabado no fundo do meu baú.

A chegada de minha irmã me tirou do transe e mais uma vez, deixei que o sótão guardasse meus fantasmas. Até que hoje, durante um engarrafamento fenomenal, me vi diante de um outdoor, uma foto enorme de uma menina apoiada na mãe, num prado, com uma vegetação mais densa ao fundo. Nem vi o que vendia, nem mesmo as figuras ou seus rostos. A vegetação rala, os tufos de capim aqui e ali, o céu demasiadamente azul… Era assim o Marajó no fragmento de recordação que teimo resgatar, como se precisasse organizar minha história, para então arquivá-la.

Tive vontade de parar e ficar olhando a enorme placa, já possuída pela certeza de que precisava rever a fazenda, quem sabe despedir-me daquilo que não nos pertence mais há tanto tempo… Encostei em frente ao CAN e telefonei para um primo que ainda frequenta a ilha, pedindo que filmasse a casa do meu avô, a praia e o terreno em frente ao curral… Ele não entendeu o que eu queria de fato e me ofereceu antigas fotos…  E sem perceber o quanto era importante, revelou-me que a casa não existe mais, há muitos, muitos anos; tampouco o curral, a horta ou a casa do “Feitor”… Há mais de trinta anos a maré invadiu tudo, o terreno tomou outra conformação e está tudo mudado. Como a gente, ele riu.

Agradeci, e recostei-me com uma sensação enorme de alívio, como se finalmente soubesse que não precisaria mais perseguir minhas recordações, que na verdade só existem no passado e só lá podem viver para sempre.

Lembrei, de súbito, de meu avô, sentado numa cadeira tosca, na varanda, mostrando os marrecos que haveríamos de caçar na manhã seguinte. Do quanto eu implorava que me deixasse disparar a cartucheira, para que me sentisse parte de tudo aquilo. Ouvi as vozes do passado, minha avó tagarelando com a Beth na cozinha, a mesa com os dois bancos compridos e pernas de bandeirinha do Volpi. Senti o cheiro forte do feijão manteiguinha recém colhido, das mantas de charque, das injeções de penicilina que meu pai aplicava nos aflitos que andavam até a Santa Rosa, com suturas a fazer, dores, febres e infecções a debelar. Vi o sorriso amarelo da minha irmã diante dos presentes que os caboclos levam-lhe por ocasião do aniversário, invariavelmente ovos, galinhas ou peixe. Ouvi o motor do teco-teco do meu odioso tio Cosminho, que roubou-nos não só a fazenda mas a melhor parte da minha infância. Chorei de saudade com quase cinquenta anos de atraso. Chorei aliviada por saber que ninguém vive, brinca ou é feliz “em cima”das minhas recordações e que tudo aquilo, o mar levou, o tempo apagou e que elas, minhas memórias são, finalmente, só minhas. Para todo o sempre.

 

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