Ensaio sobre a maldade

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Não lembro se tomei consciência da existência da maldade, antes de conhecer o “Jr”, felizmente tive uma infância tranquila, sem muitas emoções (meu pai era conservador e totalmente avesso a novidades) com um convívio familiar saudável. Sobrevivi a um bullyingzinho por conta do meu peso (“tora” e “Chefe Touro Sentado”entre outras pérolas) mas tudo no recôndito seio familiar – aquele que a gente não esquece, mas a vergonha, pelo menos, não é pública.

Ouvi histórias sobre um sádico que “beliscava” vítimas com um alicate, mas isso ficava no caderno policial, tão longe de mim que achava quase folclore.

Hoje sei que eu é que era ingênua, pois a maldade está bem ao nosso lado sempre – ainda que adormecida. Foi lá pelas tantas, quando morei em S. Paulo e fui vizinha de uma família cujo caçula – onze anos – me fez descobrir que inclusive crianças podem sim, ser muito más.

O tema – um tabu, na verdade- foi abordado na Superinteressante desse mês, numa pequena, mas impressionante, reportagem. “Os Pequenos Psicopatas” mostra a rotina dolorosa de mães que descobriram – estarrecidas – que suas crianças eram um monstro.  Uma delas, acordava no meio da noite e via o filho no escuro, observando os pais… Ela teve certeza que ele os mataria, um dia.

A história do garoto é triste. Destruiu a casa três vezes, roubava pais e parentes, e foi internado – é um psicopata – aos 13 anos. Depois de muito sofrimento, a mãe cumpriu o que a lei exige – protegê-lo até os 21 anos – e decidiu cortar qualquer vínculo ou contato. “Matou-o” dentro de si da maneira que pôde, mas até hoje os pais que não o vêem desde 1993, têm pavor de serem mortos pelo filho, atualmente com quarenta anos.

Deve ser uma dor enorme reconhecer que um filho é mau. Quando o casal Richthofen foi morto, cheguei a orar pedindo a Deus que não tenham percebido que a filha era um dos algozes. E me perguntei como uma frágil menina poderia ser tão, tão má, na sua essência.

A perversidade é, às vezes, disfarçada como outros sentimentos menos graves ou danosos. O menino que conheci em São Paulo, certa vez enterrou um gato para cronometrar quanto tempo o animal resistiria, enterrado vivo, dentro de um saco. E depois repetiu a maldade, para ver se o tempo seria o mesmo. Tudo isso foi observado por vários meninos, a maioria com menos idade e, acredite, poucos relataram aos pais tamanha crueldade. O ser humano – mesmo as crianças – tem certo fascínio pelo poder que os maus aparentemente emanam, e levam algum tempo para reconhecer entre o certo e o errado, entre o que é razoável ou maldade pura – para os especialistas, a psicopatia.

O “Jr” enterrou gatos, cortou fios de telefone, riscou carros, salgou plantas e a tudo se dizia que eram “coisas de criança”. Mas o olhar dele, de indisfarçável prazer diante do sofrimento alheio, me deixava perturbada. Até que ele baixou a calcinha de uma menina de quatro anos e, depois de enorme briga entre os pais desesperados, a família acabou sendo “expulsa” do condomínio, para onde vinha de outra situação semelhante.

Nunca mais ouvi falar do “Jr”, mas ele foi a primeira pessoa má que lembro ter convivido. E tinha apenas onze anos.

Crianças podem ser sociopatas, como foi classificado um jovem, filho de pais com excelente situação financeira que, entre outras coisas, cortou pneus de vários carros do condomínio, tentando vingar-se por ter sido descoberto em outras “artes”. Ele urinava no hall do próprio apartamento, fez uma espécie de “coquetel molotov” com uma garrafa e a própria camiseta (identificada pelos pais!) e cobriu os elevadores, por duas ou três vezes, com ketchup e maionese. Rebelde (sem nenhuma causa), drogado, maluco. Falou-se em tudo, mas no fundo, temia ter que viver no mesmo prédio que o rapaz. Acabei me mudando por outras razões, mas fiquei aliviada, pois descobrimos , mais uma vez, que a família tinha tido os mesmos problemas no antigo endereço. O que faltava acontecer para que entendessem?

Que eu adoro gatos, todo mundo sabe. Mas não me compadeço apenas quando são os bichanos as vítimas prediletas desses loucos.

Temo a maldade, temo, demais, a ira dos perversos.

Outro dia uma amiga, que tem um belíssimo gato, me disse que estava muito magoada com uma pessoa que mora em sua casa – e com o felino, portanto. A outra, ao vê-la derretendo-se em mimos, chegou bem perto para contar que dias antes flagrara o gato “comendo um daqueles lagartos cinza do jardim”. E acrescentou, deliciada com a expressão de horror: “Dava para ouvir o croc-croc-croc…” Gatos são gatos e pronto. Contar esse tipo de detalhe é sadismo, explícito e nada – ignorância ou infantilidade – justifica o gesto. Daí a mágoa da minha amiga – que eu considero uma enorme decepção, isso sim.

Já se disse que aquele nazista norueguês era louco. Não, antes de tudo ele é mau, muito mau. E os maus são capazes de tudo.

Deveríamos estar acostumados com a maldade alheia?

Não! Quando nossa indignação – mágoa, decepção – só se manifestar em circunstâncias de grande vulto, quando as pequenas crueldades não nos ferirem mais; a humanidade chegará ao caos, quando será difícil separar homem e besta.

E Livrai-nos, Senhor, do mal; Amém. 

Foto: Suzanne Von Richthofen: mentora do assassinato brutal dos pais, envolveu o namorado e o irmão, mas ficou vigiando, para que pudessem agir. Depois, para defender-se, acusou-os, fazendo-se de vítima. Maldade, cujo olhar denuncia.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Thais
    jun 03, 2012 @ 11:25:34

    Perfeito!! Hoje não se fala em maldade. Sempre em doença, o que traz implícito um conceito de tratamento e cura, minimizando as ações dos sociopatas. A maldade, embora seja uma doença do espírito, nem sempre tem solução, numa vida só. O importante é saber que é necessário o isolamento dessas criaturas pois elas não tem condições de conviver em sociedade. Vejo na mídia repórteres policiais esbravejando por penas mais duras para autores de crimes hediondos, que são na verdade psicopatas. Não é por aí o caminho. As prisões são para criminosos comuns, regido por leis, que determinam um prazo para a pena. O louco criminoso deve ir para um manicômio judiciário, onde possa ficar a vida toda isolado, só saindo se houver indicação de um laudo psiquiátrico. Uma pessoa da área penal, não lembro qual agora, me disse que o pedido mais feito pelos prisioneiros às autoridades é que separem os loucos.

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