Só o tempo

Só com o tempo

Circunstâncias familiares trouxeram-me ao hospital – como acompanhante – e por quatro dias, esse foi quase meu lar. Conheci pessoas que batalham muito mais que nós e ainda assim, conseguem ser gentis – humanas – em seu trabalho de aliviar a dor e possibilitar a cura de quem nem conhecem.

Tarde da noite, caminho pelo amplo salão de soalho de tábuas que rangem suavemente sob meus pés.  Passo diante de uma enfermaria, leitos lado a lado e raros acompanhantes em poltronas reclináveis.  Alguns trazem seus ventiladores e o ruído das pás acalenta o sono dos que conseguiram adormecer. Sob um facho de luz, a enfermagem trata de prontuários silenciosamente. Lá fora, um motorista buzina, estridente. Provavelmente, se conhecesse o que se passa aqui dentro, não teria feito tanto ruído, enfim.

Sigo minha ronda, na tentativa de alongar a coluna, ressentida do exíguo sofá onde tenho dormido. Numa capela pequena e castigada pelo tempo (falta de atenção?), curvo-me amparada pelo altar e oro em paz, agradecendo por tudo estar se encaminhando bem, apesar dos pesares… Vencer um dragão de cada vez; foi o que resolvi, recentemente.

Penso em como cheguei, estranhando o espaço acanhado, a ausência de decoração, os detalhes que, arrogante, achei que poderiam melhorar, e muito… A gente sempre acha que faria melhor, que coisa.

Os apartamentos de uma ala abrigam doze, talvez quatorze pacientes… Como somos exigentes e pródigos com espaço e recursos! Sim, pagamos por tudo isso e nem sempre é fácil, mas o pavor de “cair” na rede pública é motivador para quem sonha com a segurança de um plano de saúde que proporcione atendimento minimamente decente… Ver quem não tem essa opção (que não é sorte) ensina-me a valorizar o que realmente importa, além dos lençóis decorados, da pick-up da hora ou da bolsa cobiçada. Vida é mais.

Retorno para o quarto em paz e acomodo-me num sono que, para espanto dos demais, será reparador e tranquilo. Isso sim, é uma bênção – ou sorte, se você preferir.

Na lenta volta à rotina, o teclado me espera. Em vão. Não tenho muito a falar e esse é tempo de reclusão, para estar em família. Família que vem e vai; dias suficientes apenas para abraços saudosos, trocas de energia que recarregam baterias. Oportunidades de ajustar-nos melhor uns aos outros.

E cá estou, caminhando sozinha pelo aeroporto, sorvendo um café que me anima a alma. Existem momentos em que a gente precisa de comida que reconforte como colo amigo. Uma canja bem feita, uma caneca de mingau com canela. Um café.

Como mudei ao longo dos anos e reconheço como é bom estar madura e em paz – ou a sua procura. Hoje, a casa dos meus sonhos não estaria num condomínio e sim rodeada de árvores, como naqueles quadros meio cafonas, com um riacho e fumaça saindo da chaminé. Quer saber? Nada é brega ou fora de moda se a gente gostar o suficiente. E daí os outros?

A vida mostrou-me que livros podem ser tão companheiros quanto uma legião de amigos; que um filme num sofá que me abrace pode ser o melhor programa para certos momentos… Que não preciso de roupas na última tendência – daqui um mês ela será outra! – para que a festa seja inesquecível. O essencial é estar disponível para a alegria que pode esbarrar em você em qualquer lugar, a qualquer momento… Esteja pronta!

Ninguém deveria esperar o peso “ideal”, o casamento perfeito (isso não existe e se existisse, seria um tédio!), a melhor viagem ou o sucesso (que teima em bater na porta alheia) para aproveitar a própria vida da melhor maneira, como quem come depois de longo jejum – ou sabe que um dia que se foi, é um dia a menos.

Isso não é sorte ou bênção, é sabedoria. Simples assim.

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. A.A.S.C.
    jun 19, 2012 @ 08:38:23

    Uma casa de pedra, de muro baixo, em um lugar tranqüilo, um sofá confortável (que não precisa ter custado R$ 15.000,00), um bom livro, filme, ou um LP de blues ou bom rock rodando no estéreo, um café novo e quentinho, com biscoitos… com tudo isso nem se precisa de casamento perfeito…

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