Só para menores

Eu e Verena, minha filha.

(“A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos não é o que vemos, senão o que somos.” – Fernando Pessoa)

Bem que eu estava querendo ficar quieta, sem sacar uma opinião para isso e aquilo; mas eis que minha leitora, de apenas dezesseis anos, sugere que escreva “alguma coisa” para elas, as jovens.
Para começar, nem imaginava que meninas (Será que posso chamá-las assim, sem ofendê-las?) lessem meus rascunhos; que gostassem, então… Que responsabilidade!
Como posso falar de casamentos e separações, amores bem sucedidos e paixões desastrosas, encantos e desilusões, sem causar dano a quem nem começou seu enredo?
Ela me conta dos seus ideais, dúvidas, sonhos e planos que, aos dezesseis, parecem definitivos. E reclama de como é difícil “se enquadrar” nos modelos que minha geração deixou-lhes como herança.
Ah, minha cara, essa é uma história sem fim; um dia, há muito, era eu a me sentir assim… Do que vivi, só posso recomendar que não leve nada muito a sério.
Quando topar com uma “verdade”, desconfie. Se sentir-se confiante, desafie. Tente quantas vezes achar que deve, mas confie em sua mãe… Lembre que não nascemos “caretas”, já vivemos tudo isso, ainda que não pareça.
Também nós crescemos ouvindo mentiras que só atrapalharam. Uma delas é essa história que a gente tem que trabalhar naquilo que “ama apaixonadamente”. Ter um trabalho já é um desafio e tanto; esperar “enorme prazer” pode ser frustrante. Trabalho exige talento, vocação e certa abnegação; é preciso gostar do que se faz, mas isso basta. Tenha em mente que se trata de necessidade prática, para não passar a vida mudando de curso ou trocando de emprego, “sem se encontrar”. Meu maior prazer – infelizmente, admito – nunca rendeu um tostão e, ainda assim, continuaria escrevendo “depois do serviço”. Se fosse “trabalho”, teria morrido de fome.
Também não acredite que só se ama uma vez. O maior amor será sempre o atual, amém. Quando um se for, de uma forma ou de outra, possibilite-se aquele sofrimentozinho delicioso. Chore, pense (por alguns dias) que não pode viver sem ele, que a vida acabou. Escreva páginas úmidas em seu diário e depois lave a alma para poder começar tudo de novo. Isso é que torna as paixões tão… Tão…Únicas, uma de cada vez – ou não, diria o Caetano.
Se amores vão e vem, amizades, então, viajam na velocidade do Facebook. Conserve um espaço para as mais antigas que um dia voltarão, como se nunca tivessem ido. Elas vão sumir de novo, e um dia você vai incluí-las na lista de convidados do casamento dos seus filhos. Algumas vão faltar, você vai ficar magoada e depois lamentar não ter convidado uma turma simpática que conheceu outro dia… Fazer o quê? (Se soubesse disso…)
E como saber se aquele homem é para sempre? Ninguém sabe, querida. A chance de acertar melhora se encontrar alguém que goste das mesmas coisas, ou pelo menos, escute a mesma música. Mas nunca (jamais, ouviu bem?) tente ser diferente para conquistá-lo ou se engane acreditando que irá mudá-lo. Se conseguir, ele irá detestá-la! Seja você mesma e fique com quem gosta como é; mudem juntos, mas cada um por si. No mais, não deixe de ser “mulherzinha”, só porque alguém que odeia (não sabe) cozinhar e detesta cuidar da própria casa, acha “ultrapassado”. É para quem pode e sabe, só isso.
Finalmente, jamais deixe de viajar, de cultivar o olhar curioso não só para ver, mas “enxergar” outros lugares, outra gente. “Sentir” com olhos de viajantes…
Daqui muitos e muitos anos, jamais haverá de sentir-se só, tendo boas lembranças como companhia.

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