Como a gente gostaria que fossem…

Imaginários

É aí que me escondo...

Alguém me disse que a tal Eliza da novela das seis nunca existiu; que seria a amiga imaginária (um anjo, no contexto da história) que acompanhou o galã na infância problemática. Carlinhos (nem sei se é esse o nome!), passou parte da vida procurando um amor idealizado, uma quimera. Como uma conhecida, que aos quarenta ainda espera um homem “de bem”, padrão que parece inalcançável. Ou a outra, que descrevia um marido que não correspondia à realidade – e acreditava no mito. Armadilhas.

A mensagem quase explícita é oportuna, principalmente quando a gente se dispõe a ouvir – e realmente escutar – o que amigos nos dizem a respeito de seus relacionamentos. Ou quando olhamos o próprio umbigo emocional.

Quem já não ouviu queixa de que o parceiro não é a mesma pessoa? Fiquei pensando se algum dia, esse parceiro – que era tão bom, amigo e interessante – existiu! Até onde foi a capacidade de criar perfis imaginários para quem se ama, idealizando alguém que só existe nas próprias expectativas.

Algumas pessoas descrevem seus parceiros – filhos, pais, parentes, amigos – e não conseguimos ligar “cara/crachá”, como se só ela o conseguisse “ver”, pelo menos daquela forma. Será que foi, um dia? Ou como em Dallas, tudo não passou de um sonho? Provavelmente.

Lembro de um conhecido que descreveu a eleita como sendo absolutamente educadíssima, amorosa com ele e seus filhos, e outros adjetivos generosos, capazes de causar inveja em qualquer um, cuja madame já esteja, digamos, sem paciência para coisas de casal.

Tempos depois, ele sofria (e sofria de novo, cada vez que narrava seu infortúnio) pois havia “descoberto” nos últimos anos, que ela era muito diferente. Engraçado… Só ele a via assim, antes e hoje. Como se ela não tivesse sido uma coisa (tão boa) nem outra (tão má).

Fora certa aptidão que muitas temos para enganar durante a sedução, algo me fazia desconfiar que ele é que havia pintado aquele retrato, exatamente como gostaria que sua escolhida fosse. E hoje… Também exagera na decepção. Mais ou menos como “quanto mais alto sonhares, maior será o tombo!”

Engana-se quem acha que esse tipo de decepção só ocorre nos relacionamentos amorosos. Qual! Entre pais e filhos, amigos, parentes, trabalho…Enfim, tudo de onde se espera demais é fonte de decepção.

Já fui prisioneira dessa armadilha e sei o quanto a gente sofre, pela descoberta de que “quase tudo” não passava de miragem. Sofremos quando não nos sentimos “reconhecidos” por uma consideração que pode ter sido desperdiçada. “E eu, me dediquei tanto! E agora…” Querida, não se dedique demais a nada, “demais” é sempre mais do que merecem, mais do que você deveria.

Ora, dizer apenas que não se deve esperar nada em troca do que fizer, é bobagem. Quem trata bem, quer ser bem tratado, mas não é essa, ainda, a questão.

Que mãe não se sente magoada quando o filho – ocupado, a gente sabe… E daí? – passa quinze dias sem telefonar-lhe? E ela jura que nunca mais vai ligar. Liga, e sofre.

Onde conseguir a clareza que deve guiar emoções e sentimentos? Como convencer-se que ele é assim mesmo, que isso não significa que não a ame e que se deseja notícias; ligue e não reclame. E não sofra por ligar ou por não reclamar. Nada vale um sofrimento. E quem muito sofre e reclama, vira um chato!

Deixar de ligar ou deixar qualquer coisa “pra lá”- da “boca prá fora”, é pior. Não existe sacrifício sem dor, pra quê imolar-se por conta do que não se pode controlar?

Precisei de alguns anos de terapia para livrar-me (pelo menos de parte) dessa angústia que é querer (esperar) retribuição do amor dedicado à alguém que não nos quer, pelo menos não da maneira que gostaríamos, com declarações e gestos explícitos. Cada um ama de uma forma, nossos familiares inclusive.

Você liga, leva presentinhos, envia e-mails…E quer que sejam assim? Esqueça, isso é masoquismo. Apenas seja como é e não como gostaria que fossem com você, em retribuição.

Uma das coisa que achei por bem livrar-me foi da agenda de aniversários… Pra quê ligar e apresentar salamaleques e no dia do meu, contar os  que ainda lembram? Melhor esquecer e favorecer-me da ausência de memória que convenientemente acomete uns e outras.

 

A vida me fez mais seletiva. À quem atendia e logo engrenava um “Alô?…Alô?…(…) …Nossa, está cortando…” para encerrar a ligação, não ligo mais. Não preciso das boas novas para viver, e as ruins… Essas chegarão, de uma forma ou de outra.

Se eu digo claramente isso aos envolvidos? Raramente. Embates também causam sofrimento; mas se for necessário, se calar me fizer mais mal do que falar…Falo, numa boa. Outro dia, disse a uma conhecida que  repetia pela enésima oportunidade, que “a gente precisa se ver mais”: Bobagem, amiga! Faz anos que deixamos de nos encontrar, faz séculos que você não tem tempo para ligar apara as antigas amigas… Mas ambas sabemos onde a outra está, se um dia, uma de nós precisar, quem sabe a outra atende? Fica fria, nenhuma de nós liga mais se a gente se vê ou não”. Pode parecer demais, mas é a pura verdade.

Amor, amizade, essas coisas exigem reciprocidade apenas para virar relação. Dá para ser feliz sem esperar retorno; apenas não suporto essa mentira conveniente que quem nunca tem tempo para zelar pelo outro, repetindo que “Amizade é isso, não precisa a gente se encontrar todo dia, passamos anos sem nos ver, mas quando a gente se encontra…” Isso não é amizade, é apenas uma boa desculpa. Mas é você, não eu!

Mesmo quando o assunto é o amor “eros”, o que supostamente une casais… Quem dera que a reciprocidade fosse fisiológica e natural. Mas não é.Quer saber? Sempre tive vergonha de quem “exige” ser amado pelo outro, só por amá-lo.

Eu o amo e ponto. Não posso obrigá-lo a me amar da mesma forma; tampouco meu amor pode ser controlado pelo que recebo em troca.

Isso deveria valer para tudo e todos. Minha amiga não me liga, só eu ligo prá ela… Tenho duas opções: continuo ligando e oferecendo minha atenção ou desisto dela. Em qualquer uma, se existir sofrimento, reavalie a escolha.

Mas como viver é uma escola de difícil aprendizado, nem sempre a gente aprende, não é mesmo? Vamos continuar esperando que nos amem da maneira que queremos, que nos tratem com a mesma dose de gentilezas que os tratamos, num enorme carrossel de sentimentos e relações idealizadas. Improváveis.

Como meu paraíso imaginário, na gravura de Thomas Kinkade (Foxglove Cottage), que ando louca para comprar e deixar em frente à minha cama; podem achar cafonice que não ligo – viu como amadureci? Mas é só um lugar que não existe, onde posso ter uma felicidade que não existe. Uma fuga, simples assim. Como a Eliza – e tantos outros – que nunca existiram, a não ser na enorme -descomunal- necessidade de ser amado. Êta carência!

Em tempo: quer conhecer minha casa imaginária? Vá em

http://www.thomaskinkade.com/magi/servlet/com.asucon.ebiz.catalog.web.tk.CatalogServlet?catalogAction=Product&productId=1777&menuNdx=0.5

e escolha a sua!

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