Bem simples

 

Certas delicadezas a gente só assimila com o passar do tempo e certo dom de observação, que nem sempre vem do berço – ou no DNA.  Cresci numa casa onde pouco se atentavam, uns aos outros. Quem sabe por isso  tentasse sugar cada acontecimento, cada sensação nova, como quem prova uma torta de merengue e morangos?  Ocupava-me com os “por quês” de cada pequenice vivenciada; quando não havia quem me explicasse – e quase sempre não havia – criava enredos até que a caraminhola se acalmasse em algum recôndito da minha curiosa natureza.

Aquietava-me  até um dia me colocar a pensar como um bolo podia entrar no forno como uma gosma e sair assim, fofinho… Como isso acontece, perguntei à Nazaré, nossa cozinheira da infância. “Sei lá”. Ela sempre respondia  “sei lá”.

Eram épocas de muitas perguntas e poucas respostas, o que me aborrecia, já que adorava  tudo que tivesse histórias e muitos detalhes.Como os vestidos de debutantes, que por mais que olhasse, não decorava o que tinham. E deviam ser lindos, com tanta coisa! Quando visitávamos uma casa cheia de quadros, estatuetas e quinquilharias, exultava com tanto para observar. Curiosa.

Por que fulano é assim e beltano assado, queria saber, imaginando o que eu mesma seria, um dia. Curiosa; eu seria algo assim, segundo a Nazaré. Contadora de histórias, pensei… Ou cientista! E passei a guardar mosquitos em vidrinhos, para futuras pesquisas.

Uma vez meu pai disse que míopes e solitários são bons pesquisadores – coisa de foco e limitações, não entendi bem. Mas bastou-me, para  lembrar da vocação de um colega dele, íntimo de lâminas e compêndios… A solidão, no caso, devia ser consequencia, concluí. Eu queria mais: mais emoção, mais movimento…Saiam da frente!

A pressa quase sempre me impedia de aprender com o que se passava sob minhas vistas, por assim dizer; mas o pouco que mereceu generosa atenção, guardei para sempre e minha irmã se admira com reminiscências que descrevo com precisão.

A juventude me fazia gostar do mais complicado e tolamente recusava o que me parecesse simples, praticamente, sinônimo de “falta” de tudo, principalmente, imaginação. Queria mais um babado no vestido, um punhado que qualquer coisa na receita…

Quem iria apreciar um vestido de noiva sem absolutamente nenhum bordado?

Gostava (ou achava que gostasse) de receitas com pelo menos uma pitada disso e daquilo; quanto mais complicado, melhor deve ser… Que equívoco!

Graças, porém, à  vocação para observar, fui aprimorando, inclusive o paladar. Como ninguém é perfeito, aqui e ali me senti insegura; vivemos num meio que continua aplaudindo o “mais” e eu com essa história de “menos”, de voltar para tirar algo quando o comum é “colocar”mais alguma coisa…(Como na minha juventude)

Macieira não dá laranjas e, lá pelas tantas, Verena escolheu casar-se num vestido sem rococós, brilhos ou bordados. Uma noiva “simples”, como assim? Olhos brilhando diante do espelho e eu sabia que seria aquele, nem mais, nem menos. Berço.

Hoje estava cozinhando nosso almoço… Um quase nada de sal em tudo, nenhuma fritura, e uma imagem linda. Vibrei.

Lembrei que já fui de colocar cremes e pitadas de temperos que nem sabia de onde vinham… Simples não deve ser bom. Bobagem.

Só quando a gente cresce por dentro, percebe a elegância da simplicidade. Em tudo. E a sofisticação começa aí, no que é menos, para ser mais.

Uma salada, bela. Alfaces, ameixas, tomates de belo vermelho, pinceladas de cenoura ralada, ovos fatiados e vibrantes. Maçãs verdes picadas para iluminar.

Um frango assado caseiro, temperado com limão, alho de verdade, um galho de alecrim, duas folhas de manjericão, um ramo de orégano, tudo fresquinho dos vasinhos da minha horta – se posso chamar assim. Sal e pimenta, moídos na hora. Um fio de azeite, um saco de celofane. Nada mais.

Mandioquinhas e beterrabas cozidas; ouro e vinho, só para arrematar.

Uma refeição deliciosa e simples, mesa bem posta, capricho. Como faz bem à alma fazer bem feito!

Às vezes fico feliz com que o tempo fez comigo. Nem sempre, é verdade; mas acontece.

 

As boas coisas da vida geralmente são as mais simples!

 

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