Uma história banal

Esbarramo-nos no shopping – onde mais encontramos  conhecidos, em Belém?

Pareceu-me bem, levemente bronzeada (por que as pessoas tomam sol, quando se separam?) com roupas simples,  exalando autoconfiança e certo charme que casadas acabam deixando, sabe-se lá onde.

Ofereceu-me assento e aproveitei para almoçar em boa companhia – sou conversadora, pelo menos quase sempre.

Conta-me que se separou, depois de 36 anos de casamento. Não consegui disfarçar a surpresa – depois de tanto tempo, é preciso o dobro de coragem! –  ela então tece detalhes, às vezes com o garfo no ar, olhando o teto como se, naquele momento, revisasse a própria vida.

Com tanta intimidade – mesmo sem já termos dividido um quilo de sal – arrisquei-me a perguntar a razão, de fato. (Pois é, a gente sempre acha que numa separação tem que existir outro alguém…)
Depois de tantos anos, filhos casados, quartos vazios e um pouco mais de tempo para o casal; possibilidades de experimentar novos lugares e pessoas… É, mas nem todo mundo é assim. O marido não era.

Apesar de se gostarem – com o tempo, o amor toma novas formas – ele continuava ranzinza, reclamando das poucas amigas que a visitavam, do eventual creme de leite na comida, das novas receitas, da praia lotada, dos buracos… Enquanto isso, ela descobria como a vida, com menos compromissos, era melhor.

Primeiro, acabou com o almoço ao domingos na “na casa da mamãe”.  (Filhos têm dessas coisas, e dizem que, se não forem, “mamãe morre”. Morre não, seu alienado, mamãe quer que tomem o caminho da roça, para ela almoçar no shopping. Ou não almoçar, se lhe der na telha!)

Minha conhecida já tem netos, mas o caçula só saiu de casa recentemente, quando a namorada deu-lhe um ultimato e foram morar juntos. Mas aos domingos, a leva para “comer na casa da mamãe”. Meigo, o rapaz.

(E porque não na casa da mãe da moça, arrisquei? Separada. Engraçado como filhos poupam mães separadas…)

Ela queria viajar e o marido preferia trocar o carro, a cada dois anos. Durante décadas, esperou pela companhia do marido e o máximo que conseguia eram míseros dias em Buenos Aires ou coisa parecida – e ele só queria comer Chourizo, que coisa.

Fez a primeira viagem sem ele, num grupo de amigas avulsas – solteiras, divorciadas, viúvas – e viu que nem foi tão ruim. Aliás, foi ótimo. Ele achou conveniente, livrava-se da obrigação de “ter que viajar”. E ela foi de novo; até que já nem perguntava se ele gostaria de  ir. (Homens…)

A casa ficava “maior” e ele não queria mudar. Perdia ofertas e a paciência com problemas no telhado, na fiação do telefone( tinha que ser trocada a cada dois anos – como o carro) e principalmente, com a segurança. A casa era um bebê que não podia dormir só – sem ele, bem entendido.

-Até que comprei um “videoquê”…, ela sorriu, limpando os lábios.

Ele reclamava quando ela se esgoelava, numa dessas baladas sertanejas. “Eu vou ficar, marcado no seu coração… Na noite fria, solidão; saudade vai gritar meu nome…” (Acho graça. Tanta gente tem vergonha por gostar de sertanejos…)

Enquanto empilhava os CDs que não podia escutar, teve uma revelação: era chegada a hora de divorciar-se. Insone, pensava no tsunami que iria causar, mas tinha certeza que seria melhor cada qual no seu quadrado.

Procurou um advogado e traçou o rascunho do divórcio, quem ficaria com o quê, etc. e tal. E numa tarde calma, chamou o marido às falas.

Se ele tivesse certa amizade por ela, a teria ofendido menos. Duas horas depois, os filhos chegavam sem saber a razão da reunião familiar com noras e netos vetados. “Câncer”, especulou o mais novo.

Quando a mãe falou na separação, a chamaram de louca. Ela disse que não estava pedindo permissão – “e estamos conversados”. “E aos domingos vocês podem almoçar fora!”

Foram dias difíceis, aconselharam-na  buscar terapia, consulta na benzedeira, conversa com o pároco. Uma viagem; viagens resolvem tudo.

O divórcio saiu em três meses e todos os problemas – dela e dele – se solucionaram. Venderam a casa e cada qual foi para seu canto, sem problemas de telhado, fiação ou segurança. Ambos têm quarto de hóspedes, os filhos sempre poderão deixar as crianças quando quiserem viajar, ir à boate, etc. – coisas que filhos sempre fazem.

Os gatos ficaram com ela e o carro, com ele, claro. Ela comprou um desses populares que não pretende trocar nos próximos oito, talvez dez anos. Ele ficou com a TV maior, ela com o melhor som – e escuta a música que lhe agradar, sem ninguém reclamando.

Já faz dois anos;  e diz que tem menos, mas vive melhor.  Ele já “a perdoou” e às vezes saem juntos, conversam, riem e até transam, coisa que não faziam há muito tempo, antes do divórcio. Pelos menos não um com o outro.

Logo, ela vai viajar novamente. Um novo amor? Que nada. Não quer mais ninguém na mesma casa, quem sabe noutra cidade… Teve alguns namorados, mas diz que, em Belém, homens da sua idade não gostam de mulheres maduras e preferem as mais jovens, mesmo que tenham que sustentá-las ou dividi-las. E os mais novos… A maioria é casada, querendo conhecer mulheres mais velhas – e desses curiosos, quer distância. Conheceu um português, foi um romance e tanto, nas areias da Caparica… Mas em Portugal sentiu o enorme preconceito que patrícios têm com brasileiras… (Isso é para outra crônica.)

Matriculou-se no curso de idiomas e vive a vida sem levar nada “muito a sério”. Em casa, só o frugal, frequentemente almoça no shopping , antes do cinema. Faz pilates, caminha na praça e navega na internet todo dia, onde se corresponde com dois senhores muito interessantes; um brasileiro que reside na Alemanha e um português – sempre eles.

Diz que lamenta não ter tentado mudar as coisas, quando ainda poderiam ser mudadas – para evitar a separação. Afinal, porque não poderiam ceder cada qual, um pouco? Sabe que o marido foi seu grande amor e, num momento de nostalgia, sente falta dele. Mas isso agora é passado, arremata,  despedindo-se com um abraço que, provavelmente, lhe estivesse fazendo falta. E sai, arrastando a rasteirinha dourada, o cabelo anelado meio desarrumado, quase uma menina de sessenta anos. E ainda cheia de sonhos.

 

 

 

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