O Síndico

 

Se existe  figura polêmica, é esta. Síndicos são amados e odiados com intensidades diferentes, é claro. Quem os ama, hum… Gosta, vá lá. Mas quem os odeia, o faz com afinco quase visceral. Odiar o Síndico é quase a mesma coisa que odiar o Lula. Enfim, vocês me entendem.

Existem síndicos e síndicos. Certa ocasião, na minha última experiência em morar coletivamente – que gostaria de não repetir, apesar desta ter sido até boa! – o nosso administrador foi de tamanha competência que deixou o prédio melhor – mais valorizado – do que era. Noutro, não residi, mas acompanhei o desenrolar da saga da Supersíndica, uma mulher sensata, que priorizou investir nas questões mais sérias e por isso mais difíceis. Pontos para a categoria!

Mas quando a comodidade geral é capaz de eleger o chato do prédio como síndico, daí não tem quem aguente. O Dagoberto é assim. Chato e encrenqueiro, arruma briga com vizinhos, com fornecedores e com moradores. Desde que assumiu, ninguém mais recebe aspirina ou pizza em casa, pouco importa. Em nome da segurança, ele proibiu que qualquer um, mesmo munido de RG, CPF e carteirinha dos Escoteiros Mirins de Patópolis, possa fazer entregas nos apartamentos, ainda que expressamente autorizados pelo morador.

Pedir a santa pizza de domingo virou um sacrifício – e causa de mais confusões. Dagoberto tem esse dom de desaglutinar qualquer grupo, por mais unido que seja. Ele seria capaz de desfazer os Beatles em uma semana, se morassem no pequeno prédio onde exerce sua autoridade de grande ditador. Sim, Dagoberto é do time do “cale-se ou arrebento”. Nas reuniões, qualquer um que não lhe seja simpático, ou tenha tido a ousadia de votar na Dona Santinha na última disputa ( que venceu por um voto), simplesmente entrará mudo e sairá calado; Dagoberto cassa-lhe a palavra, o direito à opinião e sobretudo, ao voto.

A pizza esfria na porta, mas om lavador do carro dele, sobe e desce o dia inteiro. Sem RG, sem nada.

Tudo isso era suportado estoicamente pelos trinta e dois vizinhos que admitiriam tudo, menos administrar a herança maldita do Dagoberto. Seu Acreano, corpulento e bonachão proprietário do 201, estava até tentando administrar a própria ira, uma vez que, desde que contestara a palavra do tirano, vinha notando que a limpeza do seu hall ia de mal a pior. “O Síndico disse que é para limpar uma vez por semana” entregara a faxineira, fofoqueira e cupincha do “chefe”. Que seja; a mulher do S. Acreano passava um pano e ficava tudo por isso mesmo.

Lá pelas tantas, ele resolveu instituir a multa da varanda. Quem quer que colocasse seu varal de pé na varanda ( que era do tipo mureta e ninguém podia ver nada) levaria multa. Acredite, ele tentou olhar as sacadas do edifício ao lado, mas não obteve êxito, amém. E a toda hora ele arrumava nova briga…

Até um dia que o Dagoberto, que se dizia “adevogado”, foi dar um passeio na Casacor e voltou cheio das idéias, encantando por um vaso tapajônico exposto sobre um cubo negro e sob iluminação especial, ganhara status de obra de arte. Mas “o cara” se achava acima de qualquer especialista, ainda mais esses “decoradorezinhos delicados”, como costumava laurear arquitetos e companhia.

Como sempre sem consultar quem quer que fosse, o Síndico foi às compras e resolveu surpreender a todos, ornamentando as áreas comuns durante a madrugada. Quando Dra. Eneida, Hematologista de renome na cidade desceu, quase teve uma síncope. Aos poucos, cada morador que descia rumo à garagem, ia se somando ao grupo de descontentes que ameaçava pedir o impeachment do síndico e do Conselho Fiscal, que aliás, diferia do eleito, mas isso era só um detalhe. Depois da eleição, ele distribuiu os mais amigos (ou menos inimigos) no Conselho e tenho dito!

Mas a coisa agora tinha ficado muito “braba”.

Em cada canto do salão, da entrada e do hall, estavam acomodados vasos “marajoaras”, desse cujo estilo há muito deixou de honrar nossas raízes para figurar, com louvor, do panteão nacional da cafonice.  Alguns tinham a borda abaulada, que encontrava duas asas, de onde pendiam grotescas argolas balançantes de argila. Noutros, via-se a inscrição, em letras mal recortadas “lembrança de Belém do Pará.”

Uma senhora, ligada ao setor de antropologia da UFPa, ainda tentava amenizar os ânimos, argumentando que nós não valorizamos o artesanato local e que não temos o “olhar dos europeus”…

Foi quando a voz estridente da Laurinha, filha do S. Acreano, sobrepôs-se aos bafafá: “Europeus, minha senhora? Europeus? Eu aguentei o arranjo artificial, as purpurinas no natal, aquele manto horroroso que mais parece um abada cobrindo Nossa Senhora, que desaparecia naquela berlinda decorada com flores de cemitério… Um sacrilégio, minha senhora! Aguentei as festas com pagode no salão do prédio, até as cinco da manhã… Aguentaria quase tudo, menos “isto”…” apontou, bramindo o braço à guisa de espada, em direção ao o enorme quadro que adornava a parede sobre o sofá de courino; descomunal pintura a óleo sobre juta, de índia de cílios desenhados, olhos verdes (!) e bochechas vermelhas, amamentando um indiozinho de boca avermelhada e gulosa. “Isto, minha senhora, é de-mais! De-mais!”.

Às vinte e três horas estava encerrada a votação de emergência. Por sugestão do Dr. Ivanildo, este sim, advogado e muito safo, aprovou-se a instituição do voto secreto. E depois sim, Dagoberto foi cassado, por uma diferença considerável, e D. Santinha, empossada nova Síndica do Ed. Aveiro. Por vias das dúvidas, os vasos foram recolhidos e encaminhados para doação, bem como as raquíticas palmeiras de açaí, de seu interior. A índia voltou para a loja de suvenires, onde foi trocada por uma urna; essa, sim, um belo exemplar da arte marajoara, que acabou exposta sobre o tal cubo iluminado… Um ponto focal, segundo o designer de interiores. E ficou linda!

Ao passar pela nova ambientação, Dagoberto ainda falou com escárnio: Coisa de “viado”.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Márcia
    set 10, 2012 @ 23:51:33

    E os “sapinhos e sapinhas”de biquini no jardim da piscina?
    Borboletinhas que batem asinhas com o vento?
    Vamos combinar:
    Sindico não é decorador!

    Responder

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