…E ainda por cima, só. (O Zíper e a solidão)

Não era a primeira vez que se sentia assim. Tempos atrás, teve essa certeza de sua avassaladora impotência diante da própria solidão. O solitude, como preferiam as amigas de teatro. Fosse uma ou outra, era desesperadora.

Noite de sábado, finalmente o ex-colega, dez anos mais velho, praticamente alcoólico e divorciado três (ou seriam quatro?) vezes, havia capitulado e a convidado para uma “balada”. Depois dos cinquenta isso significa um happy hour seguido de jantar dançante. Por que jantar? Precisavam de um lugar para sentar, simples assim.

Ela bem preferia ficar em casa, colocar uma pizza de supermercado no forno e assistir um dos CSI da vida, ao lado do marido. Se tivesse um, bem entendido. Ela o havia mandado em frente dez anos antes, quando os peitos ainda olhavam o horizonte e as chances de “arrumar alguém”pareciam – só pareciam – bem promissoras. Qual! Nem promessas, apenas uma coleção de homens cada qual com seu problema, todos capazes de ocupar seu terapeuta por quatro décadas: álcool, falência, traição… Enfim, os normais estavam ocupados com meninas de menos de trinta anos.

Lembrou-se do sábado especial. Tinha ido ao salão fazer aquelas coisas sem as quais somos incapazes de relaxar e correr riscos: unhas, depilação e escova.

Escolheu sandálias de salto médio mas charmosas, cheias de pedrinhas e penduricalhos, carteira verde e um tubinho básico preto que a favorecia. Ficou trancada no quarto com ar ligado até meia hora antes do combinado para não suar e não ficar com cabelo lambido. Quando finalmente foi vestir o pretinho, a constatação: quem vai fechar o zíper? Tentou subi-lo e o máximo que conseguiu foi chegar até o meio das costas… Pensou se teria coragem para pedir ao porteiro que acabasse de fechá-lo, quando saísse. Mas às vinte horas não havia mais ninguém na portaria. Tentou tocar na vizinha e nada… Voltou , tirou o vestido… Tinha que ser aquele. Passou um fitilho pelo orifício do zíper, e amarrou as duas pontas, num arco capaz de ser “dependurado” na escápula da rede. Encostou-se na parede e foi se agachando, sempre rente à parede, como se dançasse a “boquinha da garrafa”. O zíper reclamou, rebarbado, mas correu até que ela fosse capaz de puxá-lo com as mãos. Daí para frente foi fácil.

Depois enrolou o fitilho e colocou na gaveta do banheiro. Fazia parte dessa nova fase da vida, guardar praticamente tudo, “para quando precisasse”… Sacos plásticos, papéis de presente quase novos… Deixa prá lá, pensava exercitando a auto indulgência.

E hoje, no meio da madrugada, ela era açoitada novamente por essa solidão cruel. Acordara no meio da noite com uma dor lancinante nas costas. O braço direito sofria o reflexo do processo e parecia pender em câimbras. Levantou-se e tentou apalpar o local. Por mais que se contorcesse, era impossível. Com um espelho, mirou a própria imagem, de costas para o espelho do banheiro. Então era isso: uma espinha enorme, uma “nascida”, como dizem no interior. Ela agora entendia a razão do termo. Aquilo não era uma espinha qualquer, era praticamente um parto.

Precisava drenar a maldita para livra-se da dor. Mas como?

Tentou de tudo. Esfregou-se na quina do Box, usou o garfão dos bifes (ela jogaria no lixo, calma!), e a mãozinha de coçar costas que todo solitário esconde perto da cama… O máximo que conseguiu foram alguns vergões nas costas, que doíam mais ainda.

Tomou um antiinflamatório, um relaxante muscular e tentou pensar em outra coisa. Precisava passar pelo menos um pouco de Rifocina  no lugar… Ela adorava Rifocina. Mas… Como? De volta à mãozinha… Amarrou-lhe um chumaço de algodão que encharcou com o spray e, com alguma arte, fez chegar à sua inconveniente “nascida”.

Foi nessa noite que ela decidiu que havia passado a hora de escolher demais. Definitivamente, ela precisava de um companheiro. Que nem fosse o melhor; nessa altura, “mais ou menos” já estava muito bom.

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Anônimo
    nov 17, 2012 @ 13:26:07

    Adorei, passei por isto , nos faz perceber o quanto precisamos de outro ser humano ….. !

    Responder

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