Pizza e panetone (Íntima e Pessoal)

Nossas pequenas tragédias seriam um enorme desperdício se não aprendêssemos nada. Naquela tarde-noite, se conseguisse falar, teria gritado: “Como assim? Pneumonia em dezembro? Fala sério!”. Mas mal me arrastava pelos corredores cheios de gente sentindo dores; a maioria, tossindo. Enquanto fazia a nebulização, tentei entender como é que “aquilo” tinha acontecido. No caso, uma pneumonia dupla, com líquido na pleura; mas poderia ser qualquer coisa, de espinhela caída à unha encravada, nada deveria atrapalhar meu já complicado mês de dezembro. Passei para o tomógrafo tentando me controlar, mas se aquele negócio fosse fechado, não deitaria de jeito nenhum… Não era.

Na enfermaria, chorei novamente, mais de dor do que piti. Se você quer experimentar novas emoções, esqueça “todos os tons” e tente um decadron seguido de claritromicina na veia; uau! Quem já usou ou é do ramo, me entende. Aff!

Os doutores alertaram sobre o tratamento: descanso absoluto, endovenosos duas vezes ao dia, muito líq… Absoluto? Quanto?

Completo. Nada de trabalhar, caminhar, levantar peso… Sair? Nem pensar! Re-pou-so, compreende? Não, não podia compreender. Não sei repousar, não sei ir “lá embaixo” (moro numa casa de dois pavimentos) sem “aproveitar” para levar alguma coisa, não sei “esperar” nada sem usar o tempo… E os meus planos? De repente, eu não tinha mais nenhum, além de dar tempo ao tempo, para que medicamentos, líquidos e canja de galinha fizessem sua parte. Meus projetos ficaram assim, jogados num canto qualquer; várias listas sem previsão: a dos presentes que pretendia comprar, dos ingredientes da ceia que talvez vire uma pizza de peru com nozes… Novas receitas “danamariabraga”, lembretes para comprar jogos de luzes e…  Então percebi que nada disso importava, tanto faz se você tem planos ambiciosos ou simples; se pretendia fazer a volta ao mundo ou simplesmente ajeitar uma velha árvore de Natal… Nem importa se é Natal ou carnaval; somos pequenos diante do universo, e acima de tudo, provisórios. E só agora me dava conta disso, quando dependia da minha doce Verena para resolver o que fosse possível…

Perdemos tempo, preocupados com bobagens enquanto ela, a vida, passa lá fora… Criamos empecilhos àquelas pequenas felicidades que poderiam nos brindar, amiúde. Roupa nova… Será que precisamos de tantas? E o por do sol que nem vimos? Jóias… Vamos usá-las onde, mesmo? E o telefonema para aquela pessoa em quem pensamos tanto e nunca tomamos a iniciativa?

O que aconteceria com o planeta se, eventualmente, minha ceia fosse, de fato, pizza e panetone? O Natal deixaria de acontecer simplesmente porque não tivera condições de organizar tudo como sempre? E para aquelas pessoas que dormem sob marquises, o que será que acontece na noite de 24 de dezembro? Ah, nossas “pequenices” não têm a menor importância.

Hoje, uma semana depois, fiz um esforço enorme para encarnar a melhora e exorcizar aquele astral que deixa o semblante moribundo e gosto de cabo de guarda chuva na boca. Arrisquei tingir as raízes brancas que pioram tudo e tomei um banho caprichado. Ajeitei o cabelo, afinal, minha pleura não iria estrebuchar só por causa do secador… Duas gotas de Paris (assim eu me conheço!) e até uns brinquinhos de argola e talquinho de nenê, pois acredito piamente que ajuda qualquer doente a sentir-se melhor. De repente, vi em mim a imagem da minha avó paterna, que aos 94, praticamente cega, todas as tardes após banhar-se e perfumar-se, aplicava talco e pó de arroz, tateando a face. “Para estar apresentável”, dizia. Tornei-me “apresentável” e recostei-me na “cadeira do papai”, para apreciar o final da tarde. Mesmo com pizza e panetone, ainda será Natal.

 

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