Um pouco de perfume…

 

O domingo está acabando; lá fora, a chuvinha faz coro e embala uma Belém sonolenta e quase silenciosa. Dou uma última olhada no noticiário. Aqui e ali, mulheres são personagens de vitórias, dramas, conquistas, tragédias pessoais… Entre tantas, a certeza maior é que a mulher (ainda) é muito agredida pelo homem que ama – ou pensava amar.

Fico imaginando o que escrever sobre esse Dia Internacional cuja melhor comemoração é lembrar a todos, em especial às mulheres que vivem felizes e satisfeitas, que em algum lugar, outras estão passando por sofrimentos que poderiam ser menos comuns se falássemos dessa nódoa sem pudores. Com a mesma franqueza com que uma atriz revelou “não ter ninguém” há 24 anos, por ter sido surrada pelo marido com tamanha frequência e violência, que, além de nariz, perna e braços fraturados, perdeu três dos filhos que gestou. Certas coisas a gente não devia disfarçar ou fingir que não percebe… Talvez por isso mesmo, o novo mote da Lei Maria da Penha é “em briga de marido e mulher, agora se mete a colher.”

O tempo passa e homens continuam batendo em “suas” mulheres.  Mais frequentemente nas classes menos favorecidas, é verdade. A combinação de temperamento violento, miséria, falta de perspectivas e algumas doses de álcool, colocam a mulher – tida como coisa – na mira de punhos covardes… E na segunda feira, elas saem para trabalhar cabisbaixas, envergonhadas, disfarçando hematomas no rosto e na alma, sem entender o que se comemora dia oito de março… Mas não se engane; pessoas que têm vida economicamente confortável e, pasme, intelectualmente diferenciadas, também estão passando por isso, nesse exato momento. Em comum, o álcool pode ser identificado como o libertador dessas personalidades violentas e covardes. O trânsito, a raiva contida, a arrogância, a impunidade, o ciúme exagerado, os complexos jamais revelados… Enfim, qualquer coisa pode desencadear a ira de quem quer só uma desculpa para a própria insanidade.

Lembro que alguém disse que “mulher só apanha se quiser”. Não é bem assim. Tente se colocar no lugar da mãe de alguns filhos – potenciais vítimas dos mesmos abusos – sem meios para partir e  levá-los consigo. O pavor de abandoná-los à sorte previsível e certa; a falta de apoio de quem acha que “isso passa”.

Não, definitivamente não é bem assim. Muitas reúnem o que lhes resta de dignidade e forças e arrastam-se, procurando abrigo sob as tendas da lei. Chegam praticamente sem nada, sequer uma idéia de como reiniciar a vida por suas próprias contas e riscos – cada qual com seu quinhão de tragédia.

O que podemos esperar do Dia Internacional da Mulher, além do carinho dos colegas, de comemorações oficiais e, quem sabe, um abraço dos familiares? O que muda nessa realidade?

Quem sabe se a gente tentasse transformar em hábito, alguma das muitas campanhas que são lançadas em prol dessas mulheres a quem a sorte parece ter abandonado? Indignar-se com crimes cometidos na Índia ou em Ananindeua, acreditar que um gesto pequeno de cada um pode ajudar muito. E convenhamos, “fazer a diferença” é tão simples! Existem várias instituições que recebem donativos para diversas ações em prol da mulher carente e seus dependentes; basta acrescentar em suas compras, todos os meses,  um único item a mais – sabonete, creme dental, absorventes, qualquer coisa – custa quase nada, mas fará muita diferença para quem precisa  – e mais ainda para sua alma.

Dar um pouco é uma forma de agradecer o que se têm, diz a velha canção. Quantos, dos que a entoam todos os domingos, têm dado a quem nada tem? Honestamente?  Você sabe.

(Maiores informações sobre campanhas, escreva para veracascaes@gmail.com)

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. suely
    mar 12, 2013 @ 14:46:40

    Muito bom Vera, conseguiu expressar o “dia da mulher”, muito ao contrario daqueles que neste dia dão um rosa mas tornam o resto do ano espinhos, e tem quem não goste de quem fala verdade neste dia, que equiparam a mulher a uma flor mas….

    Responder

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