Como abelhas rainhas . (Ou O homem que não entendia as mulheres)

Como abelhas rainhas (Ou o homem que não entendia as mulheres)

Quando ela apertou-lhe a mão suada, ele pensou… “Agora me deu medo”- e lamentou não estar num bar, num lugar qualquer onde elas não estivessem para vê-lo corar… Lembrou-se do pai e a imaginação levou-o ao Marajó, terra das melhores férias de sua vida… Saíam cedo, calçando galochas, com garruchas a tiracolo. O pai o permitia acreditar que caçavam num brejo distante. Na verdade, estavam a dez minutos da casa grande, ao alcance dos velhos binóculos da mãe, abatendo alguns marrecos para o almoço. Programa de homens, ela dizia.

Anos depois, o grupo de estudantes se reunia num barzinho “pé sujo” para falar de futebol e de mulheres, em especial, daquelas que jamais teriam. Riam, tomavam algumas a mais e relaxavam, longe das meninas que povoavam suas fantasias. Programa de homens. De quase.

O tempo passou e os tais programas de homens -pelo menos só destes- ficavam cada vez mais raros. Elas, as mulheres, estavam em todo lugar, uma epidemia ruidosa. Apareciam do nada, inclusive no barzinho “pé de chinelo”, no Mangueirão – uma até era árbitro, com cartão vermelho na mão, encarando o artilheiro… Na oficina, outrora reduto masculino, elas chegaram e a graxa, as revistas de mulheres peladas, os pôsteres da Rose Di Primo (que desafiavam o tempo há décadas) e os palavrões, deram lugar a uma sala envidraçada, com ar condicionado, cafeteira e revistas de fofocas. Elas mudam tudo, reclamava.

Não é que não gostasse de mulheres. Gostava e muito, mas sentia falta de alguns momentos longe delas – e da aflição que lhe causavam desde sempre.

Você já foi olhado, “olho no olho”, por uma mulher que lhe devote real interesse? Eram feixes invisíveis ligando um ao outro, permitindo que ela – e somente ela- conseguisse ouvir-lhe pensamentos e descobrir segredos mais recônditos. Ele tinha certeza que ela o queria; as pernas bambeavam, mas um alarme o avisava que poderia não ser bem assim. Depois dessa olhada íntima, desse momento quase carnal, ela poderia simplesmente sorrir e partir, deixando-o sem entender, mais uma vez, como  pensam esses seres encantadores que o deixavam, sempre, sem ação.

Ele precisava estar longe delas de vez em quando.

Após a pelada de sábado (o jogo de pernas de pau, bem entendido), os marmanjos se reuniam para tomar cerveja, contar mentiras, falar palavrões e arrotar, sem que ouvissem reprimenda da mulher amada. Era um oásis, praticamente uma trincheira que os protegia. Até que um deles, justamente o melhor zagueiro, apareceu com uma lourinha de metro e meio, cheio de salamaleques e mesuras. Pronto, acabou-se o que era doce – havia mais um apaixonado – e logo a loirinha estaria levando lanchinho, algumas amigas, e o assunto seria o Facebook – que sina.

Quando simpatizou com a Maçonaria, nem de longe imaginou o quanto teria que estudar até chegar ao Grau 33. Estava satisfeitíssimo. Era membro de uma irmandade tipicamente masculina, onde jamais sentiria aquela insegurança ao falar (será que estou agradando?) ou andar (será que minha roupa está bem?) que o abatia quando se sentia exposto e vulnerável àquele olhar que tanto prometia e nada entregava.

Foi quando a jovem deu-lhe três toques suaves com o indicador na mão nervosa e suada que ele oferecia timidamente, que levantou os olhos desarmados. Como assim, perguntou-se. Como? E eles, os olhos dela, o invadiram, só Deus sabe como. Pediu ao Arquiteto do Universo que ela não sorrisse e jogasse o cabelão para trás, despedindo-se… Que lhe desse, pelo menos, cinco segundos para respirar e dizer qualquer coisa que a fizesse ficar mais um pouco. Sem saber como, conseguiu reunir coragem e balbuciar… “Janta comigo?”

 

 

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