Templos

foxglovecottage

Templos

Casas – lares ou refúgios – sempre tiveram significado especial para mim. Nos livros, apreciava ilustrações nos mínimos detalhes… A do Sítio do Pica-pau Amarelo, de João e Maria, da Bruxa Má da Floresta… Não tinha pelas personagens e suas aventuras o interesse que as casas em geral, me despertavam. O tempo passou e me apaixonei pelos chalés de Thomas Kinkade, o pintor americano falecido ano passado, autor do “Fox Glove Cottage”cuja reprodução não canso de olhar… (foto)

Chego à proeza de rever filmes apenas para ver os detalhes de uma casa simpática. Quem resiste ao casarão em ruínas, sendo reconstruído com amor e suor em “Sob o Céu da Toscana”? E que chalezinho maravilhoso o de “O Amor Não Tira Férias”? A linda casa no abismo de “O Fantasma Apaixonado”, deliciosa comédia romântica de 1947?

A sala de Gertrud Stein em “Meia Noite em Paris” também foi encantadora. Voltei ao cinema para ver detalhes.

Palacetes não me encantam; detestei a arquitetura da mansão de “A Casa de Vidro”; já em “Irina Palm”, fiquei curiosa com o predinho suburbano de Londres.

Casa é ninho. É identidade e carapaça; o exoesqueleto que nos protege. Morei em casas e apartamentos  que não me pertenciam e os tratei como se fossem. Arrumei-os, melhorei pisos e instalações, retoquei pinturas e limpei restos das anteriores. A cada mudança, fiz questão de deixar tudo absolutamente limpo, cheiroso e agradável; afinal, aquelas paredes haviam acolhido a mim, minha família e minhas emoções – e isso bastava. E paredes falam; bem ou mal…

Nem sempre as pessoas cuidam do seu refúgio. Certa vez, fui visitar alguém que não via há muito tempo e percebi que ela devia estar mal consigo mesma. Roupas amontoadas nos encostos das cadeiras, pilhas de caixas de uma mudança ocorrida há pelo menos quatro anos e, num canto, uma árvore de natal desbotada jazia com lampadinhas e bolas empoeiradas… E era agosto.

Minha amiga estava como todo o resto, precisando de cuidado. O cabelo sem corte, a tintura adiada aparecendo nas raízes alvas… O semblante pesado, a ausência daquela alegria que vem da alma; tudo nela lembrava a parede encardida onde um quadro esmaecido permanecia torto, sabe-se lá desde quando.

Casas e pessoas precisam não só de higiene, mas de carinho e alegria. Vida.

Também não consigo imaginar como se pode viver sem plantas para regar. Sem alguns vasinhos para lembrar, a cada broto, que a vida está seguindo – e pode ser maravilhosa, inclusive na simplicidade. Adoro a surpresa de uma nova flor.

Cuidar do casulo não é questão de capricho e sim de auto- estima. Minha casa (ainda) sou eu.

Não passo dedo nos móveis, pois quem procura, acha. Poeira, inclusive. Mas não sei viver – ou trabalhar – sem harmonia e aconchego; bagunça e desleixo seria um castigo!

Dizem que sou fanática por reformas. Não chego a tanto, mas gosto. Recentemente acabamos – Verena, Natália e eu – mais uma. O antigo apartamento dos meus pais ressurgiu lindo, limpo, iluminado e alegre. Exatamente como nossas recordações. Agora sim, outra família poderá ser feliz como fomos um dia.

O que parece exagero é vocação: recuperar coisas, tentar torná-las um pouco mais acolhedoras…

Mansões? Não. Definitivamente apartamentos ou simples casinhas, que abraçam feito útero; templos onde nada ruim deveria nos acontecer.

Casas vibram na frequencia de quem as transforma em lar – ou não. Adoro perceber o que cada uma tem de melhor para abrigar gente feliz, de bem com a vida e com suas moradas.

Tive um amigo que repetia, brincando, “Assim como são as pessoas, são as criaturas.” O certo – e sem piada – seria “Assim como são as pessoas, são suas casas.”

Repare e depois me conte. Bom dia!

 

 

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