Coisa de animal!

Como animais?

caozinho

 

Acho que a primeira coisa que desejei na vida foi um cãozinho. Mais que uma boneca ou bicicleta, desejava ardentemente poder ter um amigo com cara de brinquedo, jeito de brinquedo, mas com uma alma tão grande que, só de olhar, invadia a minha. Ou você duvida que animais têm alma?

Lembro que tentava fazer amizade com todos que chegassem mais perto. Os olhos que pediam perdão antes de qualquer coisa, o focinho úmido e amigo, as patinhas que me saudavam, apoiando-se nas minhas saias engomadas… Eu sempre adorei animais.

Certa vez, num aniversário na casa do nosso saudoso amigo Dr. Silveira (José da Silveira Neto, então Reitor da UFPa) fui assistir um filme infantil que rolava no porão. No canil, encontrei um cão que estava em quarentena e, apesar das recomendações, acabei com o totó acomodado no meu colo. O detalhe é que poucas horas antes havia me envolvido num incidente (eu o provoquei!) com um gato angorá e estava com a perna enfaixada!

Sempre soube que poderia confiar num animal, desde que respeitasse seu espaço. Não confio – pelo menos não muito – em quem detesta bichos em geral. Não é bom sinal, acredite.

Um cão devota amor irrestrito a quem quer que lhe acene com algum carinho. Ainda que você o ignore, seja injusto ou negue comida; basta um afago e ele abanará a cauda e lamberá suas mãos, perdoando-o pelo que você tenha feito.

Não duvide que, depois das agressões covardes em Santa Cruz do Arari, um cão lambesse seu algoz, perdoando-o.

Ao ver aquelas cenas fui tomada por uma tristeza infinita, tão grande e tão devastadora que não consegui, sequer, comentar o assunto.

Não chorei só pelo horror que  os inocentes animais passaram, sendo caçados pelas ruas, por aqueles em quem, inclusive, confiavam. Chorei por ver como o povo havia se transformado em turba, em troca de alguns cobres.

Criminosamente, o prefeito – que deveria manter a ordem e tomar providências para conter a população canina por métodos civilizados, como a castração – lançou a população (na maioria miserável) à caça nas ruas, como zumbis. Esse crime é tão grave quanto, se não muito mais, por ter envolvido menores. Assim me faz a turba.

Estimular alguém a cometer ilícito é crime previsto em lei, prefeito!

A truculência daquele que deveria administrar a cidade tornou-se evidente nos fatos ocorridos na pequena cidade que carece de tudo, inclusive infraestrutura, e expôs a pior das chagas da população desassistida do Pará: a ignorância.

Chorei por tudo isso. Chorei ao ver um dos cães, cansado de tentar se salvar e que, diante da força bruta que o agredia com pauladas, simplesmente quedou-se e deixou que a cabecinha descansasse de lado, exausto… Pedi perdão a Deus, e que ele os recebesse, como Seu Criador.

Tive vergonha daqueles olhares suplicantes, sem entender por que, homens que até então eram seus companheiros, passaram a agredi-los, impiedosamente.

Tive vergonha ao ver a canoa cheia de animais, que foram jogados no rio, para que se afogassem… Além de bárbaro, é crime ambiental, prefeito!

Ao pensar em escrever esta crônica, alguém alertou para as complicações que ela poderia me trazer.  Ainda com lágrimas nos olhos e o coração apertado, procurei o teclado pois, se não tornasse pública a minha indignação, acabaria chorando por mim mesma. Tenha certeza prefeito, que somos diferentes do senhor e fazemos questão de deixar isso bem claro.

Lamento que a barbaridade fruto da ignorância e da truculência, tenha envolvido, mais uma vez, o nome do Pará em manchetes negativas que só reforçam a imagem – deturpada – que aqui é o fim do mundo. Oxalá isso possa ser configurado como mais um dentre tantos crimes cometidos no Marajó. Mas acima de tudo, lamento que o ser humano ainda não seja digno de ser chamado de cachorro. Não esses.

 

 

 

 

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Danielle
    jun 11, 2013 @ 14:20:35

    Vera;
    Você expressou através de sua “crônica desabafo” o pensamento de muitos de nós,eu,assim como muitos,AMO,os animais ,especialmente cachorros e gatos,pois a minha vida toda tive cachorros ,gatos,coelhos e sei o quanto eles alegram a nossa vida fiquei atônita,envergonhada,decepcionada e triste ao ler a notícia(pois ainda,não tive coragem de ver o vídeo) quanta ironia,o ser humano que teoricamente é a única espécie que raciocina,está se comportando como se nem cérebro possuisse…

    Responder

  2. Julio Vicari
    jun 10, 2013 @ 11:19:45

    Oi! É inacreditável que ainda existam pessoas com tais intenções. Belo texto. Bjs!

    Responder

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